Sebastião Rosa da Paz - 29 de agosto de 1984 - Brasil

Sebastião Rosa da Paz nasceu em 1º de outubro de 1937, no Município de Catalão - Goiás, filho de Alarico Policeno Rosa e de Maria da Paz dos Santos. Alguns anos mais tarde, na década de 40, mudou-se para a Colônia Agrícola de Goiás, instalando-se no Córrego Ramalho, próximo ao povoados de Quebra-coco e de Bom Jesus, hoje, distritos de Ipiranga de Goiás.

O Senhor Alarico era rezador e noveneiro, caminho seguido também por Sebastião, conhecido naquele local como Tiãzinho, ou Tião do Alarico. Ainda criança, Sebastião manifestou o desejo de se tornar padre, mas foi impedido pelo pai que pediu-lhe de joelhos para que não fosse para o seminário, pois tinha medo de perdê-lo. Cultivando o desejo religioso, Sebastião na sua juventude participou da Irmandade Mariana e também da Conferência Vicentina.

Sebastião Rosa conheceu Izaura Souza da Paz em Quebra Coco, um vilarejo de uma rua só, que chegava até o rio São Patrício. Em 25 de Setembro de 1961, na capela de Bom Jesus, os dois casaram-se. Bom Jesus é o local onde criaram os seus oito filhos.

Sebastião engajou-se cada vez mais nas atividades da igreja. Atuando como coordenador, incentivou as atividades nos círculos bíblicos, nas celebrações dos cultos e nas visitas que realizava junto às comunidades rurais da redondeza, animando-as, encorajando-as com a palavra do evangelho, anunciando a “boa nova”. Através desse trabalho, Sebastião incentivou as pessoas a refletirem sobre a realidade de suas vidas, da vida da comunidade, da sociedade e do mundo em que viviam. Não havia para ele hora e nem tempo ruim: chuva ou sol, dia ou noite, ele se fazia presente, se tornado dessa forma, um dos principais líderes de comunidade de base da Diocese de Goiás. Em sua trajetória Tião passou a interessar-se não só pela caminhada da Igreja, mas também pelo trabalho sindical.

Com o passar do tempo, Sebastião foi percebendo que sua luta teria que ser ampliada. Seria necessário criar e participar de outros organismos como os sindicatos, delegacia sindical, associações, partidos políticos, etc., que somassem forças na construção da organização da classe trabalhadora, permitindo assim, através da organização de classe, a busca por maior justiça social.

Motivados pela fé e pela política, linha profética adotada pela Diocese de Goiás, os trabalhadores rurais, lavradores como eram chamados formavam grupos de discussão em quase toda a base da Diocese em torno do tema sindical. No Município de Ceres, a partir de 1978/1979, com o trabalho de orientação, formação e evangelização, despertou-se nos trabalhadores(as) a consciência de seus direitos, e que as organizações deveriam estar a serviço dos mesmos. Embalados por esta concepção os trabalhadores começaram a organizar a sua representação através do sindicato, discutindo com as comunidades rurais de base o papel do sindicato, seus objetivos e as funções de direção frente aquela conjuntura e a situação social em que vivia o povo brasileiro naquele momento. Descobriram, através das discussões, que o sindicato era não apenas o espaço físico que ocupava, não era apenas a direção, mas sim os trabalhadores organizados.

Em julho de 1980, Sebastião e sua família mudaram-se de Bom Jesus deixando naquela terra a semente da justiça plantada. No município de Ururaçu-GO, onde foram morar, a 300km de Goiânia, às margens da BR-153, conhecida como Belém-Brasília, Sebastião manteve o mesmo espírito de fé e de luta concebido na Diocese de Goiás, assim, ajudava muito na catedral, tocava nas missas, nas rezas das comunidades, nas folias de reis, nas festas juninas e nos forrós – No forró, ele gostava muito de tocar a música carimbo: “Eu fui no mato morena”.

Em Uruaçu, por força do destino, Sebastião passou a residir numa área de posse urbana onde o povo vivia sem emprego, sem terra pra trabalhar, sem água, sem energia e sem teto para morar. Com seu espírito profético, consolidado a partir da fé, Sebastião tornou-se uma liderança muito querida, transmitindo segurança e levando a comunidade a despertar para um outro tipo de vida possível para todos, sem a exploração do próximo. Sebastião não teve dúvidas, iniciou os trabalhos dando assim os primeiros passos na construção do Sindicato dos Trabalhadores Rurais daquela localidade.

No dia 20 de junho do ano de 1982 foi fundado o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Uruaçu, sob a coordenação de Sebastião Rosa. Os trabalhadores confirmaram a liderança de Sebastião Rosa da Paz, elegendo-o como presidente.

O trabalho de Sebastião tornou-se forte porque tinha raízes sólidas por toda parte, a exemplo da árvore “gameleira” que não se bala com as tempestades. Um trabalho forte capaz de vencer o ódio dos patrões que sempre quiseram os trabalhadores rurais escravos e calados.

Sebastião da Paz esteve presente em todos os momentos da luta pela articulação do movimento sindical no Estado de Goiás: ENCLATS (Encontro Estadual da Classe Trabalhadora de Goiás), CECLAT (Congresso Estadual da Classe Trabalhadora) e também no congresso de fundação da UCT (Central Única dos Trabalhadores).

Naquele momento implantar a CUT, Central Única dos Trabalhadores significava a liberdade. A CUT era a expressão da liberdade e da autonomia sindical em Goiás e no Brasil. Era necessário muita coragem para envolver a sociedade e coragem era o que não faltava, tanto assim, que a CUT-GO foi a primeira CUT Estadual a ser criada no Brasil.

A história de Sebastião Rosa da Paz confunde-se com a própria história do sindicalismo combativo que estava se estruturando a partir da fundação da CUT. Sebastião participou como membro da delegação dos trabalhadores de Goiás, no primeiro Congresso da Central Única dos Trabalhadores – CUT. Em virtude de sua posição firme em defesa dos direitos dos trabalhadores, assumindo essa nova proposta de sindicalismo, Sebastião tornou-se vítima do ódio dos patrões e dos governos que de tudo fizeram para desacreditar essa nova proposta.

Sebastião passou a receber ameaças por parte dos fazendeiros e das autoridades policiais. Estava em andamento naquele período, na justiça, um conflito trabalhista envolvendo os Senhores Vadjô Quintino e José Alves Oliveira, proprietários da Lavrinha de Baixo, e o lavrador Isaías. Sebastião Rosa assumiu integralmente a defesa do lavrador, recebendo ameaças em conseqüência de sua posição.

Era cerca de 20 horas do dia 28 de Agosto de 1984, quando a cidade de Uruaçú ficou completamente às escuras. Dois indivíduos se aproximaram da casa de Sebastião Rosa e na varanda, desferiram três tiros contra ele. Um alvejou o braço, o segundo a cabeça, e o terceiro se perdeu. Sebastião Rosa caiu fulminado por balas explosivas ao lado de sua mulher e o corpo dele foi amparado pela filha de 13 anos. Os assassinos fugiram ameaçando os vizinhos mais próximos que corriam para ver o que estava acontecendo.

Foi aberto um inquérito que foi acompanhado pelo Delegado Regional dr. Gerson de Souza e pelo delegado local José Carlos. Depois de muito tempo o processo foi arquivado por falta de testemunhas, como tantos outros que tiveram o mesmo fim...

 Otacílio Alves Teixeira