SANTA MARIA, MÃE DE DEUS

Evangelho de são Lucas 2, 16 - 21

"Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura. Vendo-o, contaram o que se lhes havia dito a respeito desse menino. Todos os que os ouviam admiravam-se das coisas que lhes contavam os pastores. Maria conservava todas essas palavras no seu coração. Voltaram os pastores, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, e que estava de acordo com que lhes fora dito. Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno."

O ano civil se inicia com uma importantíssima solenidade na Igreja do Ocidente. A Santíssima Virgem Maria é honrada, neste dia, pela sua divina maternidade. Nossa Senhora é, verdadeiramente, a Mãe de Deus.

Antes da reforma litúrgica conduzida por Paulo VI nos anos 1969 - 70, e pedida pelo Concílio ecumênico Vaticano II, o calendário romana dava à festa em questão, na Oitava do Natal, o título de circuncisão do Senhor. Dia de preceito, como o é ainda hoje, a base da lição evangélica continua a mesma desde o antigo Missal de 62, dito "de são Pio V" – ou "Missal Tridentino", porque associado à sua codificação, querida pelo Concílio Ecumênico de Trento –, ou seja, a passagem que descreve como, ao Menino Deus, foi dado o nome de Jesus, no oitavo da de nascido, data em que, pelos ditames da lei judaica, deveria ser circuncidado.

Apesar da troca do nome, o sentido da comemoração mantém-se, basicamente, o mesmo. A circuncisão de Nosso Senhor Jesus Cristo atesta, contra a heresia docetista, que Ele não é homem apenas na aparência. Jesus Cristo, o Filho do Deus Altíssimo, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, também é homem.

Por outro lado, Maria, genitora de Cristo segundo a carne, é apresentada nesta mesma festa, outrora "da Circuncisão", como Mãe de Deus, provando que seu Filho é divino e que Sua humanidade não se separa de Sua divindade, ainda que não se confunda com esta.

A essas duas realidades fundamentais da fé católica, tributa louvor a solenidade do primeiro dia do ano. Para que o ano se inicie a partir dos fundamentos dogmáticos de nossa sagrada religião, não poderia a Providência escolher melhor título do que "solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus". Nestes tempos em que a divindade de Cristo é tão atacada, quando reduzem-nO a mero pregador de mensagens amorosas, principiar dessa forma o ano civil é símbolo de triunfo para os crentes e de confusão para os que se perdem.

A negação de Sua natureza divina não é novidade. Se, no dizer de Chesterton, "a heresia é uma verdade que enlouqueceu", também é de fácil constatação que o diabo não é tão criativo quando quer sua soberba. As mesmas heresias, "verdades endoidecidas", reaparecem, após aparentemente extintas. Muda a roupagem, trocam-se, talvez certos termos, mas o fundo é idêntico. Não causa espanto, pois, que hoje, no auge do modernismo – síntese e súmula de todas as heresias –, reapareça tão antigo erro, qual seja o de desacreditar que Cristo é Deus.

O grande Papa do início do século passado, são Pio X, em sua encíclica contra os modernistas já advertia: "A missão, que nos foi divinamente confiada, de apascentar o rebanho do Senhor, entre os principais deveres impostos por Cristo, conta o de guardar com todo o desvelo o depósito da fé transmitida aos Santos, repudiando as profanas novidades de palavras e as oposições de uma ciência enganadora. E, na verdade, esta providência do Supremo Pastor foi em todo o tempo necessária à Igreja Católica; porquanto, devido ao inimigo do gênero humano nunca faltaram homens de perverso dizer (At 20,30), vaníloquos e sedutores (Tit 1,10), que caídos eles em erro arrastam os mais ao erro (2 Tim 3,13). Contudo, há mister confessar que nestes últimos tempos cresceu sobremaneira o número dos inimigos da Cruz de Cristo, os quais, com artifícios de todo ardilosos, se esforçam por baldar a virtude vivificante da Igreja e solapar pelos alicerces, se dado lhes fosse, o mesmo reino de Jesus Cristo. Por isto já não Nos é lícito calar para não parecer faltarmos ao Nosso santíssimo dever, e para que se Nos não acuse de descuido de nossa obrigação, a benignidade de que, na esperança de melhores disposições, até agora usamos.

E o que exige que sem demora falemos, é antes de tudo que os fautores do erro já não devem ser procurados entre inimigos declarados; mas, o que é muito para sentir e recear, se ocultam no próprio seio da Igreja, tornando-se destarte tanto mais nocivos quanto menos percebidos.

Aludimos, Veneráveis Irmãos, a muitos membros do laicato católico e também, coisa ainda mais para lastimar, a não poucos do clero que, fingindo amor à Igreja e sem nenhum sólido conhecimento de filosofia e teologia, mas, embebidos antes das teorias envenenadas dos inimigos da Igreja, blasonam, postergando todo o comedimento, de reformadores da mesma Igreja; e cerrando ousadamente fileiras se atiram sobre tudo o que há de mais santo na obra de Cristo, sem pouparem sequer a mesma pessoa do divino Redentor que, com audácia sacrílega, rebaixam à craveira de um puro e simples homem." (Sua Santidade, o papa são Pio X; Carta Encíclica "Pascendi Dominici Gregis" Sobre as doutrinas dos modernistas - Roma, 8 de setembro de 1907)

Essa destruição dos pilares da fé católica – que, entretanto, não logrará vencedora frente as promessas do Salvador (cf. Mt 16,18) –, tentativa desesperada de Satanás de perder os homens, é reedição de uma das primeiras heresias enfrentadas pela Santa Igreja: o arianismo.

Deriva tal monstruosidade do diabólico engenho de Ario, teólogo líbio e sacerdote incardinado na Sé de Alexandria, no Egito. Cria Ario – e assim o ensinava – que o Filho de Deus, o Verbo, o Logos, era mera criatura do Pai, e não co-eterno com Ele e de Sua mesma substância. Embebida em um neoplatonismo, sua doutrina sustentava que só o Pai é eterno, imutável, incriado, divino. Para ele, o Filho é a primeira das criaturas, a mais excelente delas, e de uma substância diversa da do Pai. Não há Trindade, no pensamento ariano. O Filho é uma criatura excelsa apenas – semelhante ao que crêem os "testemunhas de Jeová" e, em certa medida, os espíritas dos mais variados matizes e seitas – um instrumento de Deus para que as outras fossem criadas, e que, pelo pecado, encarnou-se em Cristo, tomando o lugar da alma. A Encarnação, então, na visão ariana, não é um assumir por Deus da natureza humana, senão apenas da matéria, da carne humana, deixando de lado a alma – que é, para eles, mera animação do corpo de Jesus, função esta do Filho, do Verbo. Aliás, nem é Deus quem assume a tal carne humana, uma vez que o Filho não é Deus para Ario e seus asseclas.

Tanto sucesso teve a errônea teoria do referido padre, que são Jerônimo, o gênio responsável pela tradução da Bíblia para o latim – a vulgata –, e um dos gigantes da fé católica, chega a dizer, utilizando-se de um exagero retórico, que o mundo todo passou a ser ariano.

Deus, todavia, levantou não poucos campeões para defender a ortodoxia. Dentre todos, destaca-se, sem sombra de dúvidas, o grande Santo Atanásio, também de Alexandria, por sinal, depois de sua luta inicial, elevado à condição de patriarca dessa importante sé do trono de São Marcos, o evangelista.

Na época em que iniciou seu apostolado em prol da fé na divindade do Filho, santo Atanásio de Alexandria era diácono, secretário do Patriarca Alexandre. Por seu trabalho, teológica e filosoficamente coerente, um ponto importantíssimo de doutrina foi solenemente definido, em 325, no Concílio Ecumênico de Nicéia I, como pertencente ao depósito da fé católica ortodoxa, tal como nos foi passado por Cristo através dos apóstolos. O Filho e o Pai, diz o dogma, são consubstanciais, i.e., têm a mesma substância, são ambos divinos. Jesus Cristo, pois, não é um simples homem animado por um outro ser espiritual. Ele é o mesmo que esse. Mais do que isso, não apenas é uno com ele, como é uno com Deus. É o próprio Deus. Jesus é Deus! Não um modo de agir do Pai, como queriam os sabelianistas, negando a Trindade em sua pretensão de demonstrar a unidade; mas uma outra Pessoa, distinta, embora igualmente divina, e ainda que não seja um outro Deus. Nicéia é o primeiro sínodo geral, e nele já se proclama a Trindade e a Unidade em Deus, conforme seria explicitado pelos concílios de Constantinopla, Éfeso, Calcedônia e Florença.

Pela ação de Atanásio e dos "três Capadócios" – são Gregório de Nissa, São Gregório Nazianzeno e são Basílo Magno de Cesaréia –, no Oriente; e de santo Hilário – bispo de Poitiers, na Gália – e de santa Clotilde – que principiou a conversão dos francos, tribo germânica que dominaria a política européia após a queda de Roma –, no ocidente; o arianismo foi desaparecendo.

Com o credo de Nicéia, retomado por Constantinopla, o segundo concílio ecumênico, o Filho não é adotivo, ou criado do nada. Ele é "gerado, não criado, consubstancial ao Pai."

Decorrente do erro de Ario, irrompe, anos mais tarde, fruto da efervescência teológica daqueles séculos iniciais do cristianismo, a heresia de Nestório, patriarca de Constantinopla. Em plena celebração da Divina Liturgia – nome que os orientais dão à Santa Missa –, o heresiarca trocou propositalmente o título da Virgem Maria de Theotókos (Mãe de Deus, em grego), para Christotókos (Mãe de Cristo). Na verdade, o Patriarca Nestório queria, dentro de sua jurisdição na Sé de Constantinopla, capital do Império do Oriente, acabar com as ainda existentes fagulhas de arianismo. Pregando que Jesus era verdadeiro Deus, acabou adotando outro erro – semelhante àquele quanto as concepções filosóficas, mesmo que, em sua formulação, seja o oposto –, rejeitando que Maria fosse Theotókos. O nestorianismo aceitava apenas que Nossa Senhora fosse Mãe de Cristo, porque não poderia ser a mãe do Logos, do Verbo, este sim, Deus. Enfatizando a divindade do Filho, acabava separando as naturezas humana e divina de Jesus, a ponto de converterem-se em duas "pessoas" distintas.

São Cirilo de Alexandria, sucessor de Santo Atanásio no governo do patriarcado da Igreja Egípcia, passou a combater seu colega Nestório. Posteriormente, o Concílio ecumênico de Éfeso, em 431, condenou as teses nestorianas, excomungando os partidários dessa doutrina, que não se coaduna com a fé católica revelada. As decisões desse concílio são de vital importância: Jesus é Deus, como já o afirmara Nicéia; é homem, como nunca fora contestado de maneira seriamente fundamentada; mas o homem Jesus não é distinto do Deus Jesus. Contra Nestório, a Pessoa de Cristo é uma só, e portanto a Santíssima Virgem Maria é, por ser Mãe de Jesus, Mãe de Deus. Se Jesus é Deus, e Maria sua Mãe, é, via de conseqüência, Mãe de Deus. Confessar Nossa Senhora como Mãe de Deus significa crer que Jesus Cristo, nosso Salvador, é Deus! Não gerou Maria Deus em Sua eternidade, como se fosse ela a criadora do Criador. Mas, quem se encarnou em seu ventre foi Deus, Jesus Cristo, o Verbo, o Logos, o Filho, homem, é verdade, mas também divino. Não houve separação em Cristo. Em Maria, estava o Cristo total! "Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade." (Cl 2,9)

Não se trata de dar título divino à Virgem. Ela é criatura. Tampouco de atribuir a ela a geração eterna da divindade, porém de estabelecer seu papel ímpar no Corpo Místico de Cristo.

São Paulo, quando se dirige aos discípulos da cidade de Corinto, fala do Corpo Místico de Cristo, do qual somos membros. "Porque, como o corpo é um todo tendo muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo. (...) Ora, vós sois o corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros." (1 Co 12,12.27)

Cada um de nós temos um papel a desempenhar nesse Corpo, que é a Igreja, e do qual somos membros. Maria, por sua vez, também o tem. E dizem os autores místicos, sobretudo santo Afonso de Ligório, são Bernardo, são Bernardino de Sena e são Luís Maria de Montfort, que Nossa Senhora, membro da Igreja, e portanto, também do Corpo Místico de Cristo, é o "colo", o "pescoço" desse Corpo. Isso porque, sendo a cabeça o próprio Cristo, é o colo que a liga a todos os outros membros. E foi justamente através de Maria que Cristo veio ao mundo. Por ser Mãe de Cristo, que é Deus – portanto Mãe de Deus! –, a Virgem Santíssima é a ligação entre a cabeça e os membros, entre Nosso Senhor e nós, Seus discípulos. Se dela nasceu, corporalmente Jesus, também é de forma espiritual, através de suas orações junto ao seu Filho, que Ele nasce para nós, cada vez que nos arrependemos de nossos pecados e vivemos a vida da graça.

Maria atesta o caráter real da Encarnação do Deus que se deixa circuncidar. É a prova de que Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, não deixou de ser Deus ao se tornar homem.

Que esta reflexão nos leve a buscar o amparo da Virgem na alvorada desse ano de 2002, a fim de que façamos, guardadas as devidas proporções, o caminho inverso de Cristo na Encarnação. A Encarnação é o meio pelo qual, através do sacrifício vicário de Cristo na cruz, Deus possibilita a todos nós a divinização. Por Maria, imitando-a e recomendando-nos à sua intercessão maternal, não deixemos nossa humanidade, antes nela vivamos a santidade e a suplantemos com a graça, que nada mais é do que a divindade comunicada a nós pelo Espírito Santo.

Deus se fez semelhante a nós por Maria. Também por ela, deixemos que nos faça semelhante a Ele.

Dr. Rafael Vitola Brodbeck