O SENHOR REALIZOU MARAVILHAS

Para os católicos a figura da Virgem Maria ocupa um lugar relevante, tanto na sua fé como na sua devoção. E pensam que toda a Bíblia favorece e apóia este ponto de vista. Porém, se lermos os livros da Bíblia com cuidado vamos ter uma surpresa: nem todos os escritos bíblicos dão à Maria um papel destacado e transcendente dentro da história da salvação. Por quê? Porque entre os primeiros e os últimos livros do Novo testamento decorreram mais ou menos 60 anos. E, neste espaço de tempo, foi acontecendo na comunidade dos primeiros cristãos uma evolução no modo de ver a pessoa da Mãe de Jesus. Realmente, quando apareceram os primeiros escritos do Novo Testamento, ainda não se sabia bem quem era esta extraordinária mulher nem o que Ela significou para o plano de Deus. Porém, à medida que se passavam os anos, os cristãos foram refletindo e descobrindo as maravilhas que o Senhor realizara por meio dEla. Aí, sim, os escritores posteriores não duvidaram em louvá-La e exaltá-La em seus livros. Se nós analisarmos atenta e respeitosamente os textos do Novo Testamento, desde os mais antigos até os mais modernos, poderemos descobrir esta evolução a que nos referimos.

Os primeiros escritos do Novo Testamento foram as cartas de são Paulo. E nelas há três referências ao nascimento de Jesus, porém nunca se fala de Maria. A primeira está na Carta aos Filipenses, na qual ele diz que Jesus “nasceu à semelhança dos homens” (2,7). A segunda, na epístola aos Romanos, diz que Jesus nasceu “como homem, da família da Davi” (1,3). A terceira, a mais explícita, em Gálatas 4,4: “quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher”. Vemos, pois, que Paulo nunca menciona Maria. O fato é que Paulo concentrou toda sua pregação unicamente na morte e ressurreição de Jesus. Tudo mais ficou em segundo plano para ele.

Logo depois de Paulo vem os escritos de Marcos. Este é o primeiro que A chama de Maria e faz referência a Ela em dois episódios do seu Evangelho. Em um deles ele A apresenta junto com os “irmãos” de Jesus, quer dizer, junto com o resto da família. Conta-nos que Jesus, um dia, estava pregando numa casa da cidade. Então sua família, que pensava que Ele estivesse doido por causa das coisas que ensinava, foi buscá-Lo pra levá-Lo embora (3,20 - 21). Aí foram avisar Jesus que sua Mãe e seus irmãos (seus parentes) O esperavam lá fora. Então Jesus contestou: “quem são minha mãe e meus irmãos?” E olhando para aqueles que estavam à sua volta, disse: “Estes são minha mãe e meus irmãos: os que cumprem a vontade de Deus” (3,31 - 35). Este relato de Marcos é pouco favorável à família de Jesus e à Maria. Ela aparece unida a um grupo que aparentemente não compreende a Missão de Jesus. E Jesus quer distância deles. Para Ele a sua família verdadeira são os seus discípulos.

O segundo episódio de Maria em Marcos é aquele de Jesus pregando na sinagoga de Nazaré. Os ouvintes, admirados, comentavam: “De onde Lhe vem tanta sabedoria? E este poder de fazer milagres? Não é Ele o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, José, Simão e Judas? E suas irmãs não vivem aqui entre nós?” E ficaram escandalizados. Jesus, então, lhes disse: “Um profeta só é desprezado em sua terra, entre seus parentes, e em sua própria casa” (6,1 - 4). Estas palavras de Jesus confirmam a opinião desfavorável que Marcos tinha da família de Jesus, pois demonstram que seus parentes e os da sua casa não O apreciavam muito bem... Os estudiosos da Bíblia encontraram uma justificativa para esta atitude de Marcos. Nos primeiros tempos do cristianismo, ao que parecem, os parentes de Jesus acreditavam que somente eles tinham direito de ser dirigentes das comunidades, como acontecia com o sacerdócio do Antigo Testamento, que era hereditário. Então Marcos inseriu esta frase de Jesus a fim de esclarecer que a pertença à família de Jesus se dá através da escuta da Palavra e não pelos laços de sangue.

Com o passar dos anos os cristãos foram desbastando estas arestas. Também começaram a se interessar mais pelo nascimento do Senhor. Como frutos dessas reflexões foram descobrindo a importante participação de Maria. Foi quando chegou o Evangelho de Mateus, o primeiro que nos traz detalhes sobre a infância de Jesus (capítulos 1 e 2). Conta que o menino foi concebido sem a intervenção de José, o esposo de Maria (1,16), mas por obra do Espírito Santo, isto é, sem intervenção de varão (1,18). Com isto, a compreensão da figura de Maria e o seu papel transcendente na obra de Deus sofreram uma enorme evolução. Porém, em Mateus, Maria desempenha ainda um papel secundário. O personagem central da infância de Jesus é José. É a ele que o anjo anuncia o nascimento de Jesus (1,20). É ele que deverá dar o nome ao Menino que vai nascer: tarefa fundamental de paternidade, na mentalidade bíblica (1,21). É a ele que o Anjo avisa para fugir para o Egito quando queriam matar o Menino (2,13); da mesma forma, quando chegou a hora de voltar para Israel (2,20). Por outro lado, em Mateus Maria não diz uma palavra. Não faz nada. É mencionada quase por acaso, de passagem...

Quando chega o Evangelho de Lucas, a figura de Maria atinge uma altura extraordinária. Vemos isto no início de seu Evangelho, nos dois capítulos dedicados à infância de Jesus: agora Maria será a personagem central e dinâmica em torno de quem giram os demais acontecimentos. Em primeiro lugar, é a Maria, e não a José, que o anjo Gabriel anuncia a milagrosa gravidez (1,26-38). É Ela, e não José, que fica encarregada de colocar o nome no Filho Jesus (1,31). E, diferente de Mateus, em que Maria não abre a boca, em Lucas Maria não só fala como até coloca objeção ao anjo (1,34). E, enquanto em Mateus a concepção virginal é apenas um dado mencionado de passagem em um único versículo (1,18), em Lucas o anjo se estende longamente sobre o tema (1,30-35). E, por cima, Maria recebe o nome de “cheia de graça” (1,28), um título único em todo Novo Testamento. Com isto Lucas coloca a Virgem Maria num plano excepcional entre todas as criaturas humanas. Deus tem necessidade de Maria e não fará nada sem seu consentimento.

Deus enviou seu Filho nascido de uma mulher

Maria, o exemplo – Lucas não parou por aí, foi mais adiante com elogios a Maria. Quando da sua visita a sua prima santa Izabel, recebe o louvor: “Bendita és tu entre todas as mulheres” (1,42). E também: “Feliz és tu que acreditaste” (1,45). E, em seguida, se põe a cantar: “Todas as gerações, até o fim do mundo, me chamarão bem-aventurada” (1,48). Ao nascer Jesus, Lucas anota que Maria sozinha o envolveu com os panos e o colocou na manjedoura (2,6 - 7). Maria é a única pessoa que atua neste momento sublime e misterioso do nascimento de Jesus. Finalmente Lucas diz de Maria que “Ela conservava todas as coisas no fundo do seu coração”. (2,19 - 51). Com Lucas, pela primeira vez, o Novo Testamento se interessa por Maria, por suas reações, pelo que lhe sucede. Pela primeira vez Ela aparece em cena não de modo passivo como em Mateus, mas questionando, respondendo, dialogando, consentindo... Com pressa corre, canta, se estranha, se maravilha, sofre angústia... E aparece, sobretudo como modelo de vida de fé e de mulher atenta à Palavra de Deus.

E o que acontece com aquelas duas passagens negativas de Marcos? Lucas, também as narra porém coloca modificações a fim de exaltar ainda mais a figura de Maria. A primeira, em que Jesus se afasta de sua família é convertida por Lucas num verdadeiro elogio a Maria (8,19 - 21). Para isso elimina primeiro a pergunta de Jesus (quem é minha mãe, quem são meus irmãos?) que parecia transparecer uma oposição a eles. Depois suprime o gesto de Jesus (apontou com as mãos os seus discípulos) que marcava um contraste entre sua família carnal e seus seguidores. E, finalmente, não diz “estes são minha mãe e meus irmãos” referindo-se a seus discípulos e excluindo os seus parentes, mas diz de modo geral: “minha mãe e meus irmãos são aqueles que escutam a Palavra de Deus”. Mas, como anteriormente já havia mostrado Maria totalmente entregue à escuta da Palavra de Deus, estas últimas palavras de Jesus soam implicitamente como um verdadeiro louvor à Mãe verdadeira.

Na segunda passagem em que Jesus é rechaçado em Nazaré, Marcos coloca nos lábios do Senhor, aludindo diretamente a seus parentes: “um profeta só é desprezado em sua terra, entre seus parentes e em sua própria casa” (6,4). Mateus mais tarde suavizou a expressão e colocou: “só em sua terra e em sua casa” (13,57), deixando de lado “os parentes”. Porém manteve “a casa” e a palavra “desprezo”. Lucas, finalmente escreveu: “Nenhum profeta é bem recebido em sua terra” (4,24), fazendo assim mais duas mudanças: suprimiu “a casa” e trocou o verbo “desprezar”. E assim retirou toda suspeita sobre Maria e os demais parentes de Jesus. A estes dois episódios de Marcos, Lucas acrescentou outros dois, de forma que o seu Evangelho contém quatro referências a Maria, afora os dois capítulos da infância de Jesus. O terceiro episódio está na genealogia. Ali se lê: “Tinha Jesus, ao começar, uns 30 anos e era, segundo se acreditava, filho de José” (3,23). Ao dizer “segundo se acreditava”, faz uma clara alusão à concepção virginal, que já havia assumido plenamente no seu Evangelho. O quarto episódio é aquele da mulher que emocionada sai gritando pela rua: “Ditoso o ventre que Te trouxe e ditosos os seios que Te amamentaram” (11,27). E Jesus responde: “Mais ditosos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a praticam”. Com isto Lucas pretendeu exaltar ainda mais a Maria por sua fidelidade à Palavra de Deus.

Com o tempo esta compreensão de Maria vai crescendo cada vez mais. E, quando no ano 95 se escreve o Apocalipse, aparece ali uma misteriosa “mulher” vestida de sol, com a luz debaixo dos pés e uma coroa de 12 estrelas na cabeça. Está grávida e grita com as dores do parto. Logo ela dá à luz um filho varão, que é o Messias (cap. 12). Até aqui tudo parece indicar que se trata de Maria. Mas o Apocalipse prossegue dizendo que na frente dela apareceu um grande dragão vermelho, disposto a devorar o seu filho, assim que nascesse. Mas logo que o menino nasceu foi levado para o céu. Então o grande dragão, vendo-se frustrado, volta-se contra a mulher e o resto de seus filhos que se esconderam no deserto e foram alimentados por Deus. Esta Mulher não pode ser a Virgem Maria histórica, real, pois nunca lhe sucedeu este fato em sua vida: Ter que fugir com os outros filhos seus para o deserto. Quem então é esta mulher? É Maria, a Mãe do Messias, porém, já tão exaltada, que é convertida, nada menos, em símbolo da Igreja perseguida daquele tempo. Por isso aparece com muitos filhos (os cristãos), que fogem do dragão (o Império Romano), para o deserto (algum lugar seguro), e são alimentados por Deus (a Eucaristia).

Finalmente, ali pelo ano 100 é escrito o Evangelho de João. E, com ele, chegamos à máxima exaltação de Maria. Se Lucas mos mostra Maria ocupando um posto-chave na história da salvação, e o Apocalipse A eleva a símbolo da Igreja perseguida, João no-La apresenta como figura da Igreja gloriosa, o máximo que se pode imaginar. Embora João não A chame “Maria”, nem mencione a sua concepção virginal, ele A mostra em duas cenas exclusivas de seu Evangelho. A primeira, nas bodas de Cana (2,1 - 12), quando no meio de uma festa de casamento os noivos ficam sem vinho. Diante do pedido de sua Mãe, Jesus transforma 600 litros de água, usada para as purificações dos judeus, em 600 litros de excelente vinho. Foi este um mero episódio histórico acontecido numa pequena aldeia da Galiléia? Os biblistas detectam algo mais. Com efeito, fala-se de um casamento e não são mencionados o noivo nem a noiva. E é Maria que nota a falta de vinho e não Jesus. Trata-se, pois, de um símbolo. Os profetas haviam anunciado pra o final dos tempos uma grande festa de casamento, na qual Deus se casaria com o seu povo, como fazem o esposo e a esposa. E serviria vinho em abundância... (Os 2,16 - 25; Is 54,5 - 4; 62,4 - 5). Pois bem, em Cana Jesus aparece como o verdadeiro esposo, já que Ele que vai dar o vinho para os convidados, e nada menos do que 600 litros. E, como é a sua Mãe que intercede junto dele, Ela aparece como a noiva, símbolo da Igreja gloriosa que se une definitivamente a seu esposo, o Cristo.

A segunda cena do Evangelho de João é a do Calvário: Jesus agonizando e Maria ao pé da cruz. João escreve: “vendo Jesus sua Mãe e junto dela o discípulo amado, diz a sua Mãe Mulher, eis aí o teu filho”. Em seguida diz ao discípulo: eis aí a tua Mãe (19,26 - 27). Também aqui não é uma simples descrição de um drama familiar. Na realidade o discípulo simboliza os primeiros cristãos. Por isso a Mãe de Jesus aqui não é Maria, mas a Igreja, Mãe de todos os crentes. Por isso Jesus, o novo Adão, tem o seu lado aberto pela lança, de onde brotam sangue e água, símbolo do nascimento de sua esposa, a Igreja (como do costado de Adão nasceu a sua esposa Eva). Se Maria no Apocalipse foi elevada a símbolo da “Igreja perseguida”, e nas bodas de Cana a símbolo da “Igreja-esposa”, ao pé da cruz Ela é símbolo da “Igreja-Mãe”.

Aos autores do Novo Testamento não foi fácil compreender a figura de Maria. Tiveram uma lenta evolução, percebida através dos permeios de seus escritos, desde aquele estranho episódio em que Ela não parece entender o seu Filho Jesus, até os relatos que mostram Maria como figura importante na história da Igreja. Também nos tempos modernos, entre os cristãos existem diferentes posturas diante de Maria. Uns A olham com indiferença. Outros A tratam como receios. Alguns reconhecem a sua Virgindade e sua grandeza, mas para sua vida de fé Ela desempenha um papel passivo. Outros têm com Ela um contato ativo através da oração, porém sem passar disso. Existem, enfim, aqueles que descobriram que não basta só rezar a Maria, mas que é necessário tomá-La como exemplo de vida e procurar imitá-La. Todos devem chegar a esta etapa final. E enquanto estamos caminhando, devemos ter muita paciência uns com os outros. Aquela mesma paciência que Deus teve com aqueles que escreveram sobre Maria no Novo Testamento.

padre Ariel Alvarez Valdés - Tierra Santa