NOSSA  SENHORA  DE  GUADALUPE

Introdução
Em dezembro de 1531, dez anos depois da tomada da Cidade do México, a guerra chegou ao fim, houve paz e começou a brotar o conhecimento do Deus Verdadeiro. Neste tempo, viveu um índio chamado Juan Diego, que em abril de 1990 foi declarado beato, no Vaticano. No mês seguinte, na Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe na Cidade do México, o Papa João Paulo II realizou a cerimônia de sua beatificação, louvando-o pela sua simples fé nutrida pelo catecismo e visão, como um modelo de humildade para todos nós.
Juan Diego nasceu em 1474 no Cuauhtitlan, a 20 quilômetros de Tenochtitlan (Cidade do México). Seu nome nativo era Cuauhtlatoatzin (aquele que fala como águia). Possuindo um pedaço de terra, trabalhava no campo e na fabricação de esteiras. Era feliz no casamento, mas não tinha filhos. Entre 1524 e 1525 foi convertido e batizado, bem como sua esposa, recebendo o nome cristão de Juan Diego e Maria Lúcia. Muito religioso, era propenso a períodos de silêncio e freqüentes penitências, indo sempre ao Tenochtitlan, para receber instruções da doutrina. Em 1529, quando sua esposa faleceu, foi morar com seu tio Juan Bernardino em Tolpetlac, ficando mais próximo da igreja em Tlatelolco -Tenochtitlan. Todo sábado e domingo, descalço e vestindo uma roupa de tecido grosso de cactus e a tilma (o manto), caminhava três horas e meia até a igreja onde ia à missa e aula de religião. A primeira aparição ocorreu em uma de suas caminhadas, no lugar que hoje conhecemos como a "Capilla del Cerrito". Estava com 57 anos. Após o milagre de Guadalupe, dedicou-se a propagar as aparições aos seus conterrâneos. Morreu em 30 de maio de 1548, aos 74 anos. Amou profundamente a Santa Eucaristia, e obteve uma especial permissão do bispo para receber a Santa Comunhão três vezes na semana, um acontecimento bastante raro naqueles dias.

As aparições e o milagre
A história da América Latina está profundamente marcada, desde seu início, pela presença materna e carinhosa da Mãe de Jesus. Aparecendo a Juan Diego, no México, Maria Santíssima quis deixar claro que tinha um amor de predileção por esse continente e por seu povo. "Ouve, filho meu...sou a sempre Virgem, Santa Maria, Mãe do Deus da Grande Verdade...Sou a Mãe da Misericórdia, tua e de todas as nações que vivem nesta terra..." Se é comovente a simplicidade com que Maria se dirige a um de seus filhos "mais desamparados" e justamente por isso, mais queridos, não menos tocante é a humildade do índio Juan Diego, que a chama de "Senhora, menorzinha de minhas filhas, minha menina". As aparições foram muito bem documentadas por um escritor indígena do século XVI, Antônio Valeriano, no livro Nicán Mopohua.

Primeira aparição
Era sábado e Juan Diego estava em seu caminho para seguir o culto divino. Ao chegar no topo da montanha conhecida como Tepeyacac, o dia amanhecia e ele ouviu cantos de maravilhosos pássaros. O som era belíssimo e muito suave. Juan Diego parou e disse para si mesmo: "Porventura, sou digno do que ouço? Será um sonho? Onde estou? No paraíso terrestre do qual os mais velhos nos falam? Ou quem sabe, no céu?". Houve silêncio para então, ouvir uma voz por cima da montanha: "Juanito, Juan Dieguito." Com coragem foi onde o chamavam. Quando alcançou o topo, viu uma senhora dizendo-lhe para se aproximar. Em sua presença, ele maravilhou-se pela grandeza sobre-humana. Seu vestido era radiante como o sol. Seus pés, penetrados com o brilho, assemelhavam-se a uma pulseira de pedras preciosas e a terra cintilava como o arco-íris. As ervas daninhas que ali estavam, pareciam esmeraldas e seus ramos e espinhos, brilhavam como ouro. Inclinou-se diante dela e ouviu: "Juanito, o mais humilde dos meus filhos, onde você está indo?" Ele respondeu: "Minha Senhora e Menina, tenho que chegar à igreja no México, para seguir as coisas divinas ensinadas pelos sacerdotes, delegados de Nosso Senhor". Então ela disse-lhe: "Saiba que você é o mais humilde dos meus filhos. Eu, a Sempre Virgem Maria, Mãe do Deus Vivo por quem nós vivemos, desejo que um templo seja construído aqui. Então, poderei mostrar todo o meu amor e proteção, porque sou vossa piedosa Mãe, de todos os habitantes desta terra e de todos os outros que me amam, invocam e confiam em mim. Vá ao palácio do bispo do México e lhe diga que manifesto o meu grande desejo. Dirá tudo que viu, admirou e ouviu. Farei você muito feliz e digno da minha recompensa, por causa de todo esforço e fadiga que terá, ao cumprir o que eu lhe ordeno e confio." Ele inclinou-se diante dela, dizendo: "Minha Senhora, cumprirei sua ordem. Agora me despeço, dizendo-me seu humilde servo".

Segunda aparição
Chegando na cidade, foi direto ao palácio do bispo Juan de Zumarraga. Pediu ao criado para anunciá-lo, entrou e ajoelhando-se, narrou ao bispo a mensagem que, incrédulo, disse-lhe: "Volte, lhe ouvirei, examinarei tudo e pensarei no motivo pelo que veio". Juan Diego saiu triste e na montanha encontrou-se com a Senhora. Prostrou-se diante dela, dizendo: "Senhora, fui onde mandou levar a mensagem. Fui recebido, mas não acreditaram na sua aparição e no seu desejo. Por isso, peço que instrua alguém mais importante e estimado para que acreditem, uma vez que eu não sou ninguém. Sou um barbantinho, uma escadinha de mão, o fim da cauda, uma folha. Respondeu-lhe a Virgem: "Escuta, meu filho caçula, você deve entender que tenho vários servos e mensageiros, aos quais eu posso encarregar de levar a mensagem e executarem o meu desejo, mas eu quero que você o faça. Ordeno que volte amanhã ao bispo e o faça saber meu desejo. Diga que eu, a Sempre Virgem Maria, lhe ordenei." Ele respondeu: "Senhora, minha criança, não deixe que lhe cause aflição. Alegre, cumprirei sua ordem, mas não serei ouvido."

Terceira aparição
No domingo, foi ao Tlatilolco, para ser instruído nas coisas divinas e ver o bispo, após a missa. Ajoelhou-se diante de seus pés, e chorando, expôs a ordem de Nossa Senhora e seu desejo de erguer um templo. O bispo fez várias perguntas mas não deu crédito, dizendo que um sinal era necessário para que acreditasse. Juan Diego então perguntou: "Meu senhor, qual deve ser o sinal?". O bispo, vendo que ele ratificava tudo, o despediu e ordenou que algumas pessoas de sua confiança, o seguisse, para olhar onde ia, a quem via e falava. Aqueles que o seguiram, cruzaram o barranco perto da ponte do Tepeyacac e perderam-no de vista. Retornaram, então, com muita raiva e aborrecidos, por ficarem impedidos do objetivo. Não acreditando em Juan Diego, decidiram que se ele voltasse, o puniriam de forma que ele jamais mentisse ou enganasse. Entretanto, Juan Diego estava contanto os fatos à Virgem, que disse-lhe: " Meu queridinho, você retornará aqui amanhã, e levará ao bispo o sinal pedido. Ele acreditará. Eu o recompensarei pelo cuidado, esforço e fadiga gastos em meu favor. Vá agora. Espero você aqui amanhã".

Quarta aparição
Na segunda-feira, seu tio chamado Juan Bernardino, estava gravemente doente. Chamou o médico. No entanto, seu tio pediu durante toda a noite,por um sacerdote que o preparasse e ouvisse em confissão, pois sua hora havia chegado. Na terça-feira, Juan Diego saiu, esquivando-se de passar pelo local onde encontrara a Virgem, pois a prioridade era buscar um sacerdote para seu tio. Então, contornou a montanha, de forma a não ser visto. Mas ela desceu e aproximando-se dele pelo outro lado da montanha, disse: "O que há, meu caçula? Onde você esta indo?" Ele, aflito e envergonhado, inclinou-se diante dela e saudou, dizendo: "Minha criança, a mais meiga de minhas filhas, senhora! Como você está nesta manhã? Está bem de saúde? Senhora e minha criança, um de seus servos, meu tio, está muito doente e perto de morrer. Estou indo às pressas chamar um sacerdote. Retornarei aqui brevemente, então levarei sua mensagem. Senhora e minha criança, perdoe-me, seja paciente comigo. Não lhe enganarei e voltarei o mais rápido possível". A Santíssima Virgem respondeu: "Escuta-me e entenda bem, meu caçula, nada deve afligir você. Não deixe seu coração perturbado. Eu não estou aqui? Quem é sua Mãe? Você não está abaixo de minha proteção? Eu não sou sua saúde? Você não está feliz com o meu abraço? O que mais pode querer? Não tema, nem se aflija por esta enfermidade de seu tio. Ele não morrerá agora. Tenha certeza de que já está curado." Consolado e feliz, prometeu estar na presença do bispo, para levar o sinal. A Senhora do Céu ordenou-lhe: "Suba, meu caçula, ao topo da montanha. Lá onde você me viu e lhe dei a ordem, você encontrará diferentes flores. Corte-as, juntes-as, e traga-as em minha presença." Imediatamente subiu a montanha, e espantado pela variedade de rosas de Castilha que haviam brotado bem antes do tempo, percebeu que estavam fragrantes com o orvalho da noite, assemelhando-se a pérolas preciosas. Recolhendo-as na tilma (manto), entregou-as para a Senhora do Céu que, ao vê-las, tocou-as com suas mãos, dizendo: "Meu caçula, esta variedade de rosas é a prova que você levará ao bispo. Diga, em meu nome, que nelas ele verá o meu desejo e que deverá realizá-lo. Você é meu embaixador, muito digno de confiança. Rigorosamente eu ordeno que apenas diante da presença dele você desenrole o manto e descubra o que está carregando. Então, induzi-lo-á a dar ajuda, para que um templo seja construído e erguido como Eu tenho pedido". Feliz e seguro de seu sucesso, se pôs a caminho, carregando com carinho e cuidado o que continha dentro de sua tilma. Nada poderia escapar de suas mãos, a não ser a maravilhosa fragrância das belas flores.

O milagre da Imagem
Ao chegar ao palácio do bispo, encontrou-se com o secretário e outros criados do mesmo. Suplicou dizendo que desejava vê-lo, mas ninguém consentiu. Quando viram que esperava por muito tempo, em pé, cabisbaixo, sem nada fazer, e aparentando trazer algo em sua tilma, chegaram perto na tentativa de matar a curiosidade. Juan Diego, vendo que não poderia esconder o que trazia, descobriu um pouco o manto onde estavam as flores, e ao verem que eram fragrantes, diferentes e fora da época, ficaram atônitos. Tentaram pegá-las, mas não tiveram sucesso, pois não pareciam reais.

Pareciam estar pintadas, estampadas, ou costuradas na roupa. Então, foram dizer ao bispo o que havia acontecido. Este se deu conta de que era a prova. Imediatamente, ordenou a entrada de Juan Diego que ajoelhou-se diante dele, como estava acostumado a fazer, e de novo disse o que tinha visto e admirado. Mostrou-lhe ainda, que trazia o sinal combinado. Desenrolou a roupa onde estavam as flores, e quando elas se espalharam no chão, apareceu desenhado na roupa, a preciosa Imagem da Sempre Virgem Santa Maria, Mãe de Deus, da mesma maneira como hoje ela é guardada no templo do Tepeyacac, chamada Guadalupe. Quando o bispo viu a imagem, ele e todos que estavam presentes, caíram de joelhos. Ela foi admiradíssima. Eles levantaram-se para vê-la, e tremendo com grande arrependimento, contemplaram-na em seus corações e pensamentos. O bispo, chorando, rezando e pedindo perdão por não ter atendido ao seu desejo, desamarrou do pescoço de Juan Diego a roupa onde aparecia a Imagem da Senhora do Céu e levando-a para ser colocada em sua capela, disse: "Mostre-nos onde a Senhora do Céu deseja que seja erguido o seu templo". Juan Diego mostrou e pediu licença para ir embora. Queria ir para sua casa, junto de seu tio que estava num estado muito grave. Mas, não o deixaram sozinho, e o acompanharam até sua casa. Logo que chegaram, viram que seu tio estava muito contente e que nada sentia, conforme prometera a Virgem. O templo foi erguido e a sagrada imagem da amada Senhora do Céu foi transferida para a Igreja principal. Toda a cidade comovida, viu e admirou imagem e, fazendo suas orações, maravilhavam-se pelo milagre.

Porque o nome "Guadalupe"
A origem do nome Guadalupe sempre foi motivo de controvérsias. Por que a Virgem Maria haveria de aparecer a um índio falando em seu idioma nativo e querer chamar-se "de Guadalupe", um nome espanhol que nada teria a haver com o local de seu aparecimento, no México? Acredita-se como o mais provável, que o nome vem das palavras usadas pela Virgem durante sua aparição a Juan Bernardino, o tio enfermo de Juan Diego. Nossa Senhora teria usado a palavra asteca "coatlaxopeuh", a qual é pronunciada quatlasupe" e soa parecido com a palavra em espanhol, Guadalupe. "Coa" significa serpente. "Tla" significa a e "xopeuh", esmagar. Assim, Nossa Senhora deve ter chamado a si mesma como "Aquela que esmaga a serpente". Os Astecas ofereciam anualmente mais de 20.000 homens, mulheres e crianças como sacrifícios a seus deuses, sempre sedentos de sangue, ritos que em muitos casos incluíam canibalismo dos corpos das vítimas. Em 1487, devido a dedicação de um novo templo em Tenochtilan, uns 80.000 cativos foram imolados em sacrifícios humanos em uma só cerimônia que durou quatro dias. Certamente, neste caso Ela esmagou a serpente, e milhões de nativos foram convertidos ao Cristianismo. "Então Javé Deus disse a serpente: ....Eu porei inimizade entre você e a Mulher, entre a descendência de você e os descendentes dela. Estes vão esmagar a cabeça, e você ferirá o calcanhar deles." (Gen 3:14-15)

A Virgem de Guadalupe "pode ser chamada, com todo o direito, a primeira evangelizadora da América" ( João Paulo II, 06/05/1990 ). Ela, de rosto mestiço, escolheu um indígena asteca para evangelizar nosso continente. Falou em náhuatl, língua de Juan Diego, e, para referir-se aos atributos de Deus, utilizou-se de expressões da cultura religiosa local. Os índios sentiram-se acolhidos, valorizados e amados por mãe tão atenta que, além de não ter desprezado seus símbolos, utilizou-se deles para transmitir as mensagens do céu. Era uma experiência muito diferente da que sofriam com os dominadores, que não tinham consideração nem respeito por sua cultura. As aparições de Guadalupe são uma mensagem de esperança e um convite à conversão ao Deus verdadeiro. Maria é a mãe misericordiosa que apresenta seus filhos a Jesus. Ensina-lhes que a mensagem cristã é dirigida a todos, sem exclusão de ninguém. Escolhendo um pobre para manifestar-se, deixa clara a preferência de Deus pelos mais necessitados. Ensina-nos também que a pobreza evangélica exige total aceitação do plano de Deus, uma ilimitada confiança em sua palavra e uma generosa disponibilidade. Maria Santíssima pediu a construção de uma igreja como sinal constante de sua presença e para revelar ao mundo a imensa bondade de Deus. Sucessivas construções foram levantadas no local das aparições, símbolos da Igreja viva que ela mesma foi construindo em torno de seu Filho. Os peregrinos que acorrem à sua Basílica no México – cerca de vinte milhões por ano – ou a uma das muitas igrejas que lhe foram dedicadas no mundo todo, testemunham a realização de sua promessa: "Nela mostrarei e darei às pessoas todo o meu amor, minha compaixão, minha ajuda e minha defesa...Aí hei de ouvir seus lamentos e prover remédio e curar todas as suas misérias, penas, e dores". Juan Diego foi um profeta, um servo fiel e obediente. Cumpriu sua missão não apenas junto ao bispo, mas também junto aos peregrinos que passaram a visitar a pequena capela onde foi colocada a tilma (o manto) com a imagem pintada não por mãos humanas. A imagem da Virgem, cercada de símbolos que dizem muito ao povo asteca, passou a ser um catecismo, permanentemente aberto, a lhes ensinar que ela é acima de tudo, sua mãe e, por isso mesmo, que os protege sempre. O que temer se ela os envolve com seu manto e os conduz a Jesus? Por tudo isso, é fácil compreender o incentivo que vinte e cinco papas deram à devoção a Nossa Senhora de Guadalupe. Um deles, São Pio X, a proclamou, em 1910, a Padroeira da América Latina. Nós, que somos filhos do continente que teve o privilégio de ser visitado por tão dedicada mãe, sentimo-nos alegremente obrigados a elevar ao Pai nosso mais belo louvor. Por que não utilizar, para isso, as palavras que ela própria elevou aos céus, inspirada pelo Espírito Santo? "A minh’alma engrandece ao Senhor, e se alegra o meu espírito em Deus, meu Salvador..."(Lc 1, 46-55)

Rubilar, Cruz Alta/RS