NAS  BODAS  DE  CANA

O Evangelho de São João coloca duas frases ditas pela Virgem Maria. Segundo esse evangelho, Maria as pronunciou no pequeno povoado galileu de Caná, situado a 15 quilômetros ao norte de Nazaré. De Caná era originário Natanael, um dos primeiros discípulos do Senhor.

Em Caná houve um casamento, no qual Maria esteve, e para o qual convidaram também a Jesus e seus discípulos. Algum antigo apócrifo, seguido por autores ilustres como São Beda, afirmou que quem ali se casava era o apóstolo João, de quem diziam que era sobrinho da Virgem e primo do Senhor, mas isso é uma informação infundada.

Durante os festejos das bodas, Maria deu-nos um grande ensinamento, de tal modo que podemos falar da "Escola de Caná", como antes falamos das escolas de Nazaré, de Aim Karim ou de Jerusalém. Em Caná, a Virgem voltou a fazer-se pedagoga e, em poucas palavras, indicou-nos como deve ser o nosso relacionamento  com Deus e com os homens.

O Evangelho diz que nas bodas de Caná faltou o vinho (Jo 2,3). Isto não era muito raro, pois entre os judeus as festas dos desponsórios duravam uma semana, para o banquetear e alegre compartilhar de familiares e conhecidos. Maria descobriu aquela carência de vinho. Deu-se conta de que algo ia mal e que os anfitriões passariam por uma grande vergonha. Então ela dirigiu-se a Jesus e disse-lhe: "Eles já não têm vinho". Essa é a sexta palavra dos lábios de Maria, revelada pelo Evangelho.

A Intercessão Essa sexta palavra da Virgem é uma intercessão amorosa, uma súplica pelos que sofrem. E uma palavra tão discreta que alguns comentaristas da Bíblia discutem, se Maria quis pedir um milagre, se limitou-se a informar um fato ou, como algum outro diz, sublinhou que faltava vinho devido à inesperada participação de Jesus e dos discípulos. De qualquer modo quem fala é uma mãe, confiada em que seu filho solucionará a dificuldade.

Uma bela forma de orar e interceder pelos demais é suplicar de modo desinteressado, porque se é importante falar de Deus aos homens, também o é falar destes a Deus. Aos homens narramos as maravilhas que o Poderoso faz e a Deus contamos da pobreza que sofrem os homens. O primeiro é pregar, o segundo é interceder.

A definitiva intercessão ante o Pai, somente a faz Jesus Cristo, que é o nosso único Mediador (1 Tm 2,5), nosso advogado, nosso Pontífice. Mas, a Maria "a Igreja invoca com os títulos de Advogada, Auxiliadora, Socorro, Medianeira. O que, não obstante, há que se entender de tal maneira que não se retire nem acrescente à dignidade é eficácia de Cristo, único Mediador". Este é o ensinamento do Concílio Vaticano II, que ainda afirma: "A Igreja não duvida em confessar esta função subordinada de Maria, experimenta-a continuamente e recomenda-a à piedade dos fiéis, para que, apoiados na proteção maternal, se unam com maior intimidade ao Mediador e Salvador" (Marialis cultus, 62).

Maria está sempre atenta a Cristo e aos homens: a seu Filho, para suplicar-lhe; aos homens, para bendizê-los. Com isso, dá-nos exemplo do que pode ser nossa oração. Faz-nos sentir filhos de Deus e irmãos dos homens, ou, como afirmaram os bispos em Puebla: "faz com que nos sintamos família" (P. 295). O Papa Paulo VI expressou essa mesma realidade falando da "presença orante de Maria na Igreja nascente, bem como na Igreja de todos os tempos, porque ela, assunta ao céu, não abandonou a sua missão de intercessão e salvação" (M.C. 18).

Não têm vinho A festa terminaria antes do previsto. "Eles já não tinham vinho, porque o vinho preparado para a festa havia se esgotado", dizem alguns códigos, ampliando o texto conciso do Evangelho.

Essa carência da bebida necessária parece entranhar um profundo sentido e significar, como noutros textos de São João, que a partir de algo material expressa-se uma realidade espiritual. Quando João fala de renascer, não se refere a um nascimento biológico, mas a uma geração do Espírito; quando fala de água, não alude ao líquido que brota do poço de Jacó, porém à que mana até à vida eterna; quando narra a cura de um cego, é para apresentar a Cristo, luz do mundo; quando conta-nos a multiplicação dos pães é para aludir a Cristo, pão da vida; quando Jesus convida os sedentos a que se acerquem e bebam, é para oferecer o a humanidade já pode beber do vinho novo. Mas necessitamos da súplica de Maria para que permanentemente nos obtenha o vinho do Espírito.

Espírito que, como um rio, manará do seu lado aberto. Assim também, na passagem de Caná, fala de vinho sem comparação, em quantidade e qualidade, como que naquele momento se havia escasseado, um vinho novo que somente Jesus podia dar. Esse vinho é sinal da restauração messiânica; sinal da palavra de Deus, e do sangue eucarístico; sinal do amor; sinal da Nova Aliança entre Deus e seu povo; sinal de alegria, porque nas bodas de Deus com os homens, Cristo, o esposo, acaba de chegar.

O vinho do Antigo Testamento esgotara-se. A Lei, apesar de suas riquezas espirituais, já não dava mais gozo. Só restavam os cântaros de pedra, cheios de água destinada à purificação. Mas essa água não era própria para beber. Requeria-se vinho! O vinho da presença de Jesus. O vinho do Espírito Santo.

O Espírito Santo é às vezes comparado com o vinho: Dos apóstolos, em Pentecostes, dizia-se que estavam embriagados (At 2,13) São Paulo recomenda aos cristãos que se embriagassem com vinho, mas que se enchessem do Espírito Santo (Ef 5,18). O escritor judeu Filón, falando de Melquisedec disse: "apresentará vinho em vez de água e dará às nossas almas uma bebida pura, para que possam ficar possuídas por essa divina intoxicação que é mais sóbria do que a própria sobriedade". Essa mesma idéia é repetida por alguns padres da igreja, como santo Ambrózio que nos convida a "beber com alegria a sóbria abundância do Espírito". E Gaudêncio que assim se expressa: "o vinho do Espírito Santo, antes da paixão e ressurreição de Cristo, não podia ser dados aos homens; justamente por isso, no princípio dos milagres, Cristo respondeu à sua mãe: " por que te antecipas, Senhora, em tua petição, já que ainda não é chegada a hora de minha paixão, que estabeleci para morrer pelos crentes...? Depois da paixão e ressurreição, quando voltar ao Pai, será dado o vinho do Espírito". Eles não têm vinho! Não têm alegria! Não têm amor! Não têm o Espírito!

Ao fazer essa súplica, Maria converte-se na Virgem Orante, e sua oração será a que um dia desencadeará a tempestade de Pentecostes. Ela foi e continua sendo a protagonista da oração pelo Espírito que é a grande epíclese da Igreja. Ela é o lugar onde sempre se encontra o Espírito de Deus, que um dia a cobriu com sua sombra (Puebla 287).

Maria aparece em Caná, onde, manifestando ao Filho com delicada súplica uma necessidade temporal, obtém ademais, um efeito da graça: que Jesus, realizando o primeiro de seus milagres, confirmasse a fé de seus discípulos nele. Assim falou Paulo VI. Mas todos nós sabemos que crer em Cristo é um dom do Espírito, a presença do Espírito nos corações é o dom primeiro e fundamental que a Virgem nos obtém.  Em Caná Jesus pôde responder à súplica materna, dizendo que a sua hora não havia chegado. Mas, a hora de Cristo já chegou. O Espírito já se difundiu pela humanidade. A humanidade já pode beber do vinho novo. Mas necessitamos da súplica de Maria para que permanentemente nos obtenha o vinho do Espírito, o vinho da alegria, o vinho do amor, o vinho da Palavra de Deus, o vinho que se serve nas bodas de Cristo com a Igreja e que nunca pode escassear.

Para isso necessitamos convidar a Maria. Ela esteve em Caná. Ela pode vir hoje à nossa vida, ao nosso mundo, à nossa Igreja.

Peter Kreeft "El Fuego"