ASSUNÇÃO DE MARIA 
E A NOSSA RESSURREIÇÃO NO ÚLTIMO DIA

"Naqueles dias, Maria se levantou e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. E exclamou em alta voz: ‘Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me vem esta honra de vir a mãe de meu Senhor? Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio. Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!’ E Maria disse: ‘Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é santo. Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem. Manifestou o poder de seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado de sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre.’ Maria ficou com Isabel cerca de três meses. Depois voltou para casa."

Evangelho de São Lucas, I, 39-56

Festejamos hoje a elevação da Santíssima Virgem aos céus, em corpo e alma. É a principal festa de Nossa Senhora, comemorada no dia 15 de agosto – e no Brasil transferida para o Domingo seguinte –, em virtude da dedicação de uma igreja mariana em Jerusalém. "Alegremo-nos todos no Senhor, celebrando este dia festivo em honra da Virgem Maria: os anjos se alegram pela sua Assunção e dão glória ao Filho de Deus." (Missal Romano; Solenidade da Assunção da Virgem Maria; Antífona da Entrada II)

Ainda que o dogma tenha somente sido definido em 1950 pelo Santo Padre, o papa Pio XII, não passa pela cabeça dos católicos que o Romano Pontífice ou a Igreja tenham o poder de inventar qualquer doutrina. Na proclamação de um dogma apenas torna-se determinada fórmula oficial tendo em vista sua precisão para expressar uma verdade sempre crida, e agora explicitada de uma maneira mais perfeita. Pertence ao legítimo e sadio desenvolvimento doutrinário, e não à evolução do conteúdo da Fé, tão condenada quando da denúncia contra o modernismo pelo papa São Pio X.

Baseia-se o dogma da Assunção da Virgem na primitiva idéia da "dormição", ainda presente nas Igrejas orientais, mesmo naquelas que não estão em perfeita comunhão com a Sé de Roma. De fato, o nome "dormição" foi desde muito cedo adotado pelos cristãos para expressar sua crença na elevação da Mãe de Deus aos céus, sem ter passado pela morte física. Não sabemos, entretanto, se ela morreu ou apenas "dormiu". Nem o dogma fala nisso. Ele é formulado de maneira a crermos naquilo que foi explicitado: Maria foi elevada ao céus de corpo e alma. "Aleluia, aleluia, aleluia. Maria é elevada ao céu, alegram-se os coros dos anjos. Aleluia, aleluia, aleluia." (Lecionário Romano; Solenidade da Assunção da Virgem Maria; aclamação ao Evangelho)

Na morte, a alma se separa do corpo, indo este para o solo, consumir-se, e aquela para o destino que lhe é reservado segundo sua cooperação com a graça divina. Na ressurreição final, por ocasião da gloriosa volta de Nosso Senhor Jesus Cristo, os corpos retornarão à vida para serem julgados. Será a reunião das almas aos corpos, expressa nos dois símbolos principais de nosso Credo: "Creio (...) na ressurreição da carne (...)" (Credo apostólico). "Espero a ressurreição dos mortos (...)" (Credo Niceno-constantinopolitano).

Dom Columba Marmion, OSB, famoso escritor espiritual, nascido em 1858, Abade do não menos famoso Mosteiro de Maredous, na Bélgica, em um escrito seu, afirma a corretíssima doutrina católica a esse respeito: "Como sabeis, toda alma que ao morrer sai deste mundo em estado de graça, se não tem que cancelar no Purgatório algum resto da pena temporal que deve satisfazer por seus pecados, entra imediatamente na posse desta vida bem-aventurada. Mas isto não é tudo: Deus nos reserva ainda um complemento. Qual? Não desfruta já a alma do gozo? Claro que sim, porém Deus quer dar também ao corpo sua bem-aventurança, quando tiver lugar a ressurreição no fim dos tempos. É dogma de fé a ressurreição dos mortos. Cristo a prometeu: "Ao que comer da minha carne e beber do meu sangue, eu irei ressuscitá-lo no último dia." (Jo 6,55;11,25)" (Jesucristo, vida del alma; fundación Gratia Date - p. 316 - trad. livre)

Com a Virgem, não se deu dessa forma. Ainda que tenha morrido de fato, como alguns teólogos bastante confiáveis expressam, para melhor imitar a Paixão de Seu divino Filho, a Assunção de Maria Santíssima foi sua passagem com o corpo e a alma reunidos. No céu estaremos, até o Juízo Final, em alma apenas. Nossa Senhora já está lá não só em alma, senão também em corpo, em carne. Ela, no céu, já é aquilo que todos nós esperamos ser. Por isso, diz-se de Maria que ela é o ícone escatológico da Igreja, o símbolo daquilo que seremos, se permanecermos fiéis. "Hoje, a Virgem Maria, Mãe de Deus, foi elevada à glória do céu. Aurora e esplendor da Igreja triunfante, ela é o consolo e esperança para o vosso povo ainda em caminho, pois preservastes da corrupção da morte aquela que gerou, de modo inefável, vosso próprio Filho feito homem, autor de toda a vida." (Missal Romano; prefácio da Assunção da Virgem Maria)

"Deus eterno e todo-poderoso, que elevastes à glória do céu em corpo e alma a imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho, dai-nos viver atentos às coisas do alto, a fim de participarmos da sua glória. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo." (Missal Romano; solenidade da Assunção da virgem Maria; coleta)

Esse é o sentido da presente reflexão. Reconduzir-nos a Deus, e fazer com que participemos da glória de Deus, espelhando-nos na Santíssima Virgem Maria. Ora, como conseguiremos isso? Atentemos para o que diz a oração que acabamos de transcrever do Missal: "...dai-nos viver atentos às coisas do alto, a fim de participarmos da sua glória." Vivendo atentos às coisas do alto, às realidades reveladas por Deus em Cristo, participaremos da glória de Deus. E o modo mais excelso de assim procedermos é procurar imitar aquela que da mais excelente maneira possível alcançou a vida em Deus: Sua própria Mãe! "Todas as nações cantam as vossas glórias, ó Maria: hoje fostes exaltada acima dos anjos, e triunfais com Cristo para sempre." (Missal Romano; vigília da Assunção da Virgem Maria; antífona da entrada) Triunfando com Jesus, Maria nos ensinará, por seu belíssimo exemplo, a também como Ele reinar.

Com efeito, se Nossa Senhora pôde receber a bem-aventurança, nos também podemos, em grau conforme nossa dignidade e à soberana vontade do Senhor. No Evangelho lido na vigília da solenidade de hoje, isso é expresso de forma bastante clara: "Enquanto ele (Cristo) assim falava, uma mulher levantou a voz do meio do povo e lhe disse: 'Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!' Mas Jesus replicou: 'Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!'" (Lc 11,27 - 28) Eis como podemos viver atentos às coisas do alto, segundo o que reza a coleta: ouvindo a Palavra e a observando! Ouvir o que diz a Igreja católica, observando seus mandamentos, confiando em Cristo, recebendo por Ele, com Ele e n'Ele, a vida da graça que procede do Pai mediante a operação do Espírito Santo nas almas! Sendo Seus imitadores, de modo a sermos pela graça o que Jesus Cristo é pela Sua natureza: filhos de Deus! Adotivos, é verdade, mas filhos!

Oremos para que a Mãe do céu nos ajude a realizar nossa vocação à santidade: "Ó Deus, considerando a humildade da Virgem Maria, vós lhe concedestes a graça e a honra de ser a Mãe do vosso Filho unigênito, e a coroastes hoje de glória e esplendor; concedei, por suas preces, que, salvos pelo mistério da redenção, sejamos elevados à vossa glória. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo." (Missal romano; vigília da Assunção da Virgem Maria; coleta)

Dr. Rafael Vitola Brodbeck