O ANJO DO SENHOR ANUNCIOU À MARIA?

Quando o cineasta Franco Zeffirelli produziu uma de suas mais conhecidas películas, a conhecida "Jesus de Nazaré", muitos acharam que ele fora atrevido demais.

Concebida com delicada sensibilidade a cena da anunciação, no filme, nos mostra uma iluminada Maria, despertando-se assustada. E enquanto um raio de luz evidentemente sobrenatural, se côa, através da janela do quarto a jovem começa um misterioso diálogo sobre a futura concepção de seu filho Jesus.

Mas, com quem está falando Maria? Aqui está a grande ousadia de Zeffirelli: com ninguém! Só ela pergunta, só ela responde, sem que apareça nenhum outro interlocutor.

Nós católicos criticamos sem piedade o filme de Zeffirelli: era uma irreverência, uma mutilação inaceitável do Evangelho, que atentava contra a verdadeira fé católica... E não era para menos. Havia sido suprimido um personagem muito especial do Novo Testamento, o Anjo que estamos acostumados a admirar em todas as pinturas que retratam a cena da anunciação e que aprendemos a mencionar, desde criança, quando rezamos a oração do "Ângelus" e dizemos: "o anjo do senhor anunciou à Maria..." Zeffirelli excluiu de seu filme o comunicador mais importante da história. Realmente Zeffirelli foi muito atrevido...

Um detalhe, porém, sempre nos chama a atenção no episódio da anunciação do anjo à virgem Maria (Lc 1,26 - 38). Como foi que Lucas, o único evangelista que conta esta passagem, conseguiu tomar conhecimento deste fato? Será que a virgem Maria, protagonista exclusiva da cena, lhe teria contado, ou teria sido alguém, a quem Maria confidenciara o evento, que o transmitiu ao evangelista? Aí temos que perguntar: Maria andava espalhando suas intimidades? Condiz com aquela garota humilde e calada, que meditava todas as coisas guardando-as em seu coração (Lc 2,19-51), ficar contando para os outros aquele diálogo secreto entre ela e o anjo? Será que ela estaria alardeando este relato de como o anjo entrou no seu quarto e a saudou por ser ela a única mulher privilegiada diante dos olhos de Deus? Como pode ser isto, se nem com seu esposo José ela comentou o fato?

A gravidez de Isabel

Alguém poderá pensar que o detalhe da visita do anjo à Virgem, ocorrido no sexto mês de gravidez de sua prima Isabel, tenha sido um fato concreto. Mas, se repararmos bem, vamos ver que é somente um complemento literário. Se o anjo vai dar a Maria como testemunho convincente que Isabel "apesar de ser avançada em idade está grávida", a razão do sexto mês é clara: só depois do sexto mês é que aparecem os sinais externos da gravidez de uma mulher. Se o anjo tivesse ido falar com Maria antes do sexto mês, ela não poderia comprovar o sinal dado.

Este detalhe não pretende fixar um dado histórico. Só tem a intenção de dizer-nos que as palavras do anjo podiam ser verificadas. Por isso, atualmente os biblistas sustentam que Lucas ao narrar o episódio da anunciação, contou algo real, que de fato aconteceu, porém o fez com uma encenação criada por ele.

Um diálogo repetido

Ao constatar que os elementos do diálogo entre Gabriel e Maria foram tirados todos do Antigo Testamento, concluímos que a narração do episódio da anunciação foi armada pelo evangelista:

- a saudação: "alegra-te" (v. 28) é tirada do profeta Sofonias (3,14);

- a expressão: "o Senhor é contigo" é do Livro de Juízes (6,12), quando um anjo aparece a Gedeão;

- "não temas" (v. 30) é a frase do anjo Gabriel ao aparecer a Daniel (Dn 10,12);

- "nada é impossível para Deus" (v. 37). Encontramos esta expressão em Genesis (18,14), quando o anjo anuncia a Abraão que vai lhe nascer um filho.

- A mensagem do anjo a Maria "Eis que conceberás e darás à luz um filho a quem darás o nome..." (v. 31) é a frase dita pelo anjo a Agar, a escrava de Abraão (Gn 16,11).

E o que segue: "Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo; o Senhor lhe dará o trono de Davi, seu pai; reinará sobre a casa de Jacó pelos séculos, e seu reino não terá fim" (v. 32-33), é uma clara alusão à profecia de Natan para o rei Davi, prometendo-lhe em nome de Deus um sucessor ao trono e o reinado eterno de sua linhagem (2 Sm 7,12-16).

Lucas recolheu frases importantes do Antigo Testamento, todas referentes a intervenções de Deus na história dos homens. E, com estas frases, teceu este relato da maior intervenção de Deus na História da Humanidade.

Uma forma literária

Os estudiosos, porém, fazendo um aprofundamento maior descobriram que todas as partes desta narração correspondem a uma forma literária muito conhecida na literatura judaica, chamada "relato de um anúncio". Trata-se de um esquema fixo, estereotipado, que aparece várias vezes na Bíblia, quando alguém queria contar que um anjo ou um enviado de Deus aparecia a algum personagem bíblico para transmitir-lhe uma mensagem. Não podia fazê-lo de qualquer jeito. Devia respeitar um esquema já prefixado.

Vamos dar um exemplo: quando alguém, hoje, quer escrever uma carta, geralmente começa colocando, em cima, à direita, o lugar e a data. Logo abaixo, à esquerda coloca a saudação ao destinatário, quase sempre com a palavra "caro" ou "estimado" e o nome. Segue o corpo da carta. Finalmente, envia novas saudações e assina. Dentro deste esquema qualquer um se expressa livremente, porém não sai do esquema. Ao encontrar estes elementos, a pessoa tem certeza que está vendo ou lendo uma carta.

Os cinco elementos

Assim como uma carta tem a sua forma própria, que chamamos de estilo epistolar, o "relato de um anúncio" tem na Bíblia seus elementos próprios e sua estrutura dos quais nenhum escritor antigo saía. Quantos eram estes elementos? Cinco, e bem definidos.

1- A aparição do mensageiro celeste;

2- a perturbação e o medo da pessoa;

3- a mensagem que o enviado traz da parte de Deus;

4- uma objeção, que a pessoa põe, e serve para clarear mais a mensagem;

5- um sinal que o mensageiro dá à pessoa, para provar-lhe que vem da parte de Deus.

Foi assim com Maria

Na anunciação à Maria podemos distinguir perfeitamente:

1) a aparição: "foi enviado por Deus o anjo Gabriel (v. 26);

2) a perturbação de Maria: "ela se assustou ao ouvir estas palavras" (v. 29);

3) a mensagem: "conceberás e darás à luz um filho" (v.31);

4) a objeção de Maria: "como isto será possível se eu não conheço homem?" (v. 34);

5) O sinal "Isabel, apesar de ser de idade avançada, já está no sexto mês de sua gravidez" (v. 36).

E, em muitas outras "anunciações" bíblicas podem ser identificados estes elementos constitutivos, por exemplo, quando Deus anuncia a Abraão o nascimento do seu filho Isaac:

Abraão (Gen 17,1 - 22)

1) a aparição: "apareceu-lhe Javé" (v. 1);

2) a perturbação: "Abraão caiu com o rosto por terra" (v. 3);

3) a mensagem: "serás pai de uma multidão de povos" (v. 4);

4) a objeção: "Abraão se pôs a rir dizendo: será que um homem de cem anos vai ter um filho?" (v. 17);

5) o sinal: "para o ano que vem, por este tempo, Sarah vai lhe dar um filho". (v. 21).

Gedeão (Juz 6,11 - 21)

O mesmo esquema é seguido em detalhes, na aparição do anjo do Senhor a Gedeão, um dos juízes de Israel.

1) a aparição: "veio o anjo de Javé e se apresentou" (v. 11);

2) a perturbação: "Ai, meu senhor Javé! Eu vi cara a cara o anjo de Javé" (v. 12);

3) a mensagem: "com a força que tens, salvarás Israel das mãos de Median" (v. 14);

4) a objeção: "Perdão, Senhor, meu: como vou salvar o povo de Israel?" (v. 14);

5) o sinal: "Dá-me um sinal... então saiu fogo da pedra e consumiu a carne e o pão". (v. 17-21)

Zacarias (Lc 1,11 - 20)

Lucas descreve a "anunciação" a Zacarias com elementos identicos: 1) a aparição: "apareceu-lhe o anjo do Senhor" (v. 11);

2) a perturbação: "Ao vê-lo ficou pertubado e com medo" (v. 12);

3) a mensagem: "Isabel, tua mulher, terá um filho" (v. 13);

4) a objeção: "Como posso ter certeza. Já que eu e minha mulher já somos idosos?" (v. 18);

5) o sinal: "Tu ficarás mudo". (v. 20).

Se continuarmos analisando outras "anunciações" como a de Agar, escrava de Abraão (Gn 16,7-12), a de Moisés (Ex 3, 1-12), a dos pais de Sansão (Jz 13,3-22) ou a dos pastores de Belém (Lc 2,9-12) veremos que estão construídas de modo idêntico. Isto mostra claramente que se trata de um gênero literário.

O que se pretende afirmar - deste modo chegamos a uma conclusão importante nos relatos de "anunciações". É considerado como histórico somente a mensagem, o conteúdo essencial. Os cinco elementos de sua estrutura literária correspondem a um clichê artificial.

No caso de Maria, o que se deseja afirmar? O que se quer anunciar e esclarecer é a personalidade de Jesus, seu ser, sua figura. Lucas pretende dizer que o menino concebido por Maria é o filho de Deus. É também o Messias esperado por Israel, e que Nele estarão cumpridas todas as expectativas do Antigo Testamento.

Agora, o que realmente aconteceu no momento da concepção, como Maria se deu conta de sua gravidez, como descobriu o mistério do Filho de Deus em suas entranhas e as circunstâncias que rodearam este fato, não são coisas que Lucas pretende contar.

Não conhecia varão

Graças ao descobrimento dessas formas literárias existentes na Bíblia, podemos compreender melhor a objeção da Virgem: "Como isto é possível?". Por que ela pôs esta objeção? Como única saída alguns supõem que Maria havia feito, em algum momento de sua vida, um voto de virgindade perpétua e, por isso, a gravidez estava completamente fora de suas "perspectivas". Assim foi interpretada durante séculos esta pergunta cheia de surpresa da virgem Maria.

Porém já faz muito tempo que a exegese bíblica renunciou a esta hipótese. Em primeiro lugar, Lucas não diz nada a respeito de nenhum voto de virgindade feito por Maria. Em segundo lugar, a ausência de filhos entre os judeus era sinal de maldição. Um voto de virgindade entre judeus nunca teve valor ou foi tido como virtude.

As dificuldades desaparecem se compreendemos que a narração, por seguir o esquema literário de "anunciação" deve conter sempre uma objeção da parte que recebe o anúncio para que o enviado ou mensageiro possa dar uma explicação melhor da sua mensagem. Deste modo a objeção não é uma colocação real de Maria. É um recurso empregado por Lucas para explicar melhor a seus leitores a filiação divina de Jesus, isto é, que Jesus não só é o Messias descendente de Davi, como também Ele é o verdadeiro filho de Deus desde o momento de sua existência no seio de Maria.

Lucas não nos deixou os detalhes de como foi que Deus arranjou as coisas para anunciar a Maria a sua gravidez do Menino Jesus, nem quais foram as reações da Virgem. Fica bem claro, todavia, que o anúncio de Deus a Maria é certo. Como, também, é certo o "sim" de Maria.

Todos nós recebemos, cada dia, uma convocação parecida com a que recebeu a virgem Maria. Uma convocação para realizar alguma coisa a fim de que o plano de Deus continue a cumprir-se em nossas cidades, em nossa família, em nossa sociedade. Como o anjo se introduziu na casa de Maria, assim, também, Deus entra na casa de cada um para pedir nossa colaboração. Muitas coisas dependem do nosso "sim".

E muitas outras se frustram com o nosso "não". A gente fica pasmado só de pensar como foi decisivo para o mundo o "sim" daquela jovem aldeã de Nazaré. E que repercussão trouxe para toda a humanidade... Ficaríamos igualmente abismados se soubéssemos quantas coisas dependem de nossos pequenos "sim" e dos nossos minúsculos "não". Maria deu o seu "sim" e Jesus pode nascer. Falta, porém, ainda muito para que se realize a salvação que nos veio por Jesus Cristo. O mundo não está como Deus o quer. Existe fome, existe o ódio, existem as injustiças, existe a violência. Continua, ainda, fazendo falta o nosso "sim".

padre Ariel Alvarez Valdés - Tierra Santa (1996)