O SILÊNCIO NA LITURGIA

Vivemos num mundo que não suporta o silêncio. E esse mundanismo penetrou no universo de nossas liturgias. Passamos de uma liturgia excessivamente silenciosa, no aspecto da passividade das assembléias, para uma liturgia falante e, muitas vezes, barulhenta demais. Confunde–se facilmente a liturgia da palavra  com tagarelice e palavrório. Acha–se que participar consiste em estar falando ou cantando o tempo todo.

Muitos agentes de celebração não acreditam na força comunicadora do silêncio. Pensa-se muito freqüentemente e em muitas igrejas que “ouvir em silêncio, ver em silêncio, meditar em silêncio, gesticular em silêncio, andar em silêncio’, não é participar.

Introduz-se, então, a poluição sonora do mundo para o interior de nossas celebrações. Se ainda fossem ruídos e sons artísticos bem-feitos, imersos no mistério de celebrar... mas nem sempre é assim.

Não se trata, evidentemente, de voltar ao silêncio passivo e de pessoas ausentes na celebração. Muito menos de pensar que o silêncio deva ser mais eficaz instrumento numa festa.

Trata-se de descobrir e vivenciar seu valor de comunicação e vida na festa de celebrar o mistério pascal em comunidade. Trata-se de reconhecer que sem ele não há profundidade no que se fala, no que se canta, no que se faz.

Ser e silêncio

“É no silêncio que a alma encontra a plenitude de Deus”.

Tudo o que decorre da natureza divina do ser brota do silêncio do ser. Assim, tudo o que busca o ser humano para tocar o coração do outro (arte de se relacionar), decorre da profundidade do silêncio de ser. Nisso atingimos a natureza de sermos “imagem e semelhança” do criador.

O caminho da perfeição humana leva ao silêncio de ser, ao silêncio de só ser. Nosso interior é silencioso. A própria dor é silenciosa, como é marcadamente silenciosa a alegria interior. Dor e alegria que, num segundo estágio, se tornam gritos, sussurros, exclamações, lamentos, aplausos.

A consciência do silêncio como genuína expressão do ser é que pode levar à experiência de entender e tornar viva a voz do silêncio, a fala do silêncio, a comunicação silenciosa.

Se for verdade que todo canto que não promove o silêncio é inútil, também é verdade que a liturgia que não é perpassada de silêncio é estéril.

Mistério não faz barulho, e menos ainda mistério de fé; apesar de precisar romper o silêncio para ser celebrado, partilhado, comunicado, festejado, é sempre acompanhado dele.

 A força comunicativa do silêncio

O silêncio integra a linguagem simbólica humana. É muito mais símbolo que razão. O homem marcadamente racional precisa muito mais falar do que calar. A poesia, por sua vez, é antes de tudo e depois de tudo silêncio,e não fala. Trata-se, pois, do silêncio que também é sinal, forma de participação, “forma difícil e pouco entendida e praticada.

Além de ser em si mesmo uma forma de comunicação, o silêncio exerce uma tríplice função na comunicação.

Interiorização: predispõe as pessoas e a assembléia para a resposta pessoal e comunitária, cria condições e tempos para aprofundar conteúdos, assimilar símbolos, curtir o que se ouve.

Escuta: sem silêncio não se escuta, não se acolhe a palavra. Ouvir é tão participativo quanto falar. Mas só os simples, despojados, humildes sabem ouvir.

Enriquecimento da comunicação falada: os momentos de pausa, até mesmo de descanso da palavra falada, proclamada ou cantada, enriquecem o que se ouviu e preparam para o que se vai ouvir. A ruptura causada pelo silêncio tem uma força expressiva de comunicação.

Maneiras de fazer silêncio

Há uma variedade em relação ao silêncio da vida cotidiana e na festa, e por isso mesmo, na própria liturgia. A linguagem própria de rádio é uma aprendizagem para o uso da voz, pois em rádio, o silêncio absoluto é ruído, imperfeição, não pode existir. Podemos pensar numa escala ascendente ao usar o silêncio:

- O uso equilibrado dessa variedade de silêncios, com a competência da voz e do gesto, constitui o segredo mais profundo da arte de declamar, de cantar e de comunicar integralmente.

- No decorrer de uma ação litúrgica, a prática dos silêncios pode ser eficazmente comunicativa.

Momentos de silêncio na liturgia

Há momentos na ação celebrativa em que o silêncio pode e deve ser aproveitado para se chegar a uma participação mais interior, piedosa, serena e enriquecedora da vida espiritual da assembléia e das pessoas. Vejamos os momentos importantes da celebração em que o silêncio deve fazer-se presente:

a) Sempre iniciar a celebração com um instante de silêncio para criar o clima de espaço interior, deixar de lado o barulho do cotidiano e da rua, predispondo-se a celebrar o mistério. Nada impede que esse momento seja enriquecido com uma música suave, dependendo da comunidade e das pessoas.

b) Recorrer ao silêncio nos momentos de reflexão e oração pessoal da ação celebrativa: revisão de vida no rito penitencial, antes das orações presidenciais em resposta aos “oremos”; nos momentos das preces eucarísticas; na ação de graças final.

c) Antes e depois das leituras, seja para preparar a acolhida da palavra a ser ouvida, seja para deixar no coração da assembléia a mesma palavra.

Se enquanto acontece o silêncio as pessoas não se colocarem realmente em silêncio interior enriquecido pelo silêncio exterior, realizando de fato e verdadeiramente a função do silêncio, os momentos silenciosos dificilmente serão fecundos, podendo até tornar mais vazias certas celebrações.

O silêncio não é fuga e menos ainda alienação, a não ser que seja sem conteúdo e sem a dimensão que nasce de dentro.

O silêncio orante, celebrante e participativo só se alcança à medida que se vai amadurecendo na fé e na própria dimensão humana da vida. É fruto de exercício. Só assim ele comunica.

Desafios do silêncio na liturgia

            Apontamos aqui alguns desses desafios, mas certamente há muitos outros:

1, A qualidade de vida interior daqueles que celebram, a qual se revela à medida que se é capaz de rezar, e rezar em comunhão com a Trindade e com os irmãos.

2. A inconsciência ou desconhecimento da força da linguagem do silêncio, sempre se achando que ao se falar se comunica mais, ao movimentar-se se diz mais e que silêncio é não-participação.

3. A pressa em acabar logo a celebração, pressa essa revelada por meio do olho no relógio, na ansiedade em estar a postos para outros compromissos posteriores à celebração.

4. A influência deste mundo consumista e pragmatista que afeta tanto as celebrações litúrgicas, a começar muitas vezes pelos que presidem, pelos que exercem o ministério na liturgia.

5. A desconfiança de que o povo não gosta do silêncio, sobretudo o “povo jovem e o povo criança”, e que todo silêncio tem de ser preenchido com alguma coisa a mais.

6. A ilusão de que se festeja mais e melhor quanto mais se fala, se canta, se faz barulho, se movimenta, se aplaude, se ri, se dança.

7. A falta de atmosfera e clima de oração comunitária, muitíssimas vezes descurada pelos próprios responsáveis da ação litúrgica.

8. A ausência de iniciação ao silêncio na catequese, na vida de oração e na própria evangelização, e que acaba repercutindo na expressão litúrgica.

9. O ativismo e agitação de tantos responsáveis pela ação evangelizadora e celebrativa da Igreja, que não vêem muita razão de ser na ação contemplativa, como se fosse perda de tempo.