MISSA DO PADRE CHATO

Monótono, enrolado, falador, não se entende o que ele diz. Lento, é um sonífero! E a ladainha vai longe. Tudo para dizer que um padre não sabe dar vida à missa ou a faz de qualquer jeito.

Não sei se você já escutou essa lamúria em algum lugar. Já tive essa insatisfação de ouvir pessoas reclamando que a missa daquele padre é chata. São pessoas que gostariam de sentir mais vibração no padre, mas, ao contrário, ele parece estar fazendo algo que lhes causa fastio e, mais enfastiados, ficam os celebrantes quando um “padre chato” preside a missa.

Quando o padre preside bem a missa é outra coisa. Ela é celebrada. O padre age com calma e os ritos vão acontecendo num ritmo de serenidade, sem agitações forçadas. Ele conduz a assembléia à oração e ao silêncio; canta com os celebrantes, fica atento às leituras... O padre é alguém totalmente presente naquilo que faz. Não se apresenta como um profissional do rito; alguém que celebra com o povo, porque está na hora da missa e precisa estar ali, senão estaria alhures. Ele é simples no falar e no presidir e, nessa simplicidade, embala o povo e leva-o para dentro do Mistério da Salvação.

Trégua ao padre

Será que só o padre tem culpa da missa ser chata? Uma boa dose de culpa vem dele, não resta dúvida. Mas, sejamos benignos, não coloquemos toda a culpa nele. Não é só o padre que deve ser incriminado pelas chatices de alguma missa. Existem várias cordas que precisam ser afinadas para que a missa seja realmente bonita e bem celebrada. Numa celebração, todos devem agir afinados com todos, porque senão o resultado fica estranho e a missa, desafinada.

Uma vez no campo da música, é bom lembrar que a afinação de uma missa bem celebrada começa com canções que combinam com os ritos e as liturgias da celebração, com músicos que só tocam e cantam quando a música é parte integrante daquele momento celebrativo. Depois, os acordes afinados continuam com leitores que lêem bem e bonito, coroinhas que não distraem os celebrantes, igreja limpa e bem ornamentada, equipe de acolhida que recebe os celebrantes com simpatia e alegria.

Quando acontece a afinação de todos esses elementos, então sim, vamos ter uma celebração bem feita; uma celebração que, com todo o direito, pode ser chamada de ação de graças. Eucaristia a Deus Pai.

Mas, e o padre?

Padre chato continua sendo um problema. Tem cura? Claro que sim; e sem terapia ou promovendo manifestações contrárias a ele, como sair ostensivamente da igreja quando ele entra para presidir a missa. Não é preciso nem brigar com o homem. Tudo é mais simples do que se pensa. Basta entender uma coisa: que a missa não é só do padre. Ela é de todos os celebrantes que estão na igreja.

Mas, isso tira a chatice do padre? Tira! Mas com uma condição. É preciso cada qual fazer bem a sua parte. A equipe precisa preparar a celebração com antecedência. Os músicos já devem ter escolhido as músicas e afinado os instrumentos na sacristia e, não, quando faltam alguns minutos para começar a missa. E, por fim, a assembléia deve fazer também a sua parte, participando ativamente da celebração. Se todos capricham, mas os celebrantes que estão na assembléia não correspondem, então a missa vira teatro de alguns que fazem para outros assistirem. Deixa de ser celebração.

“E o padre chato?” Ele vai ter que se preparar, senão vai ficar chato é para ele. Se ele não se tocar que precisa estar a altura dos demais ministérios que atuam bem na celebração, vai ficar chato para ele... se vai.

Se todos fazem bem ...

Às vezes, a missa é chata porque o padre precisa salvar a pátria sozinho. Quando tudo está preparado, cada um faz a sua parte e os celebrantes correspondem, a missa acontece sem chatices. Todos celebram com todos e juntos rendem graças a Deus.

E se o padre não se preparar? Bom, daí o pessoal da equipe litúrgica vai ter que falar com ele. Espera-se que não seja teimoso, que aceite o que lhe dizem, pense bem e decida-se a mudar.

O ideal é o inverso. O padre ser o mais interessado para que tudo corra bem na celebração da missa. Infelizmente, isso não acontece em algumas comunidades e o padre celebra de qualquer jeito. Nesse caso, chatices à parte, a equipe litúrgica precisa tomar a iniciativa para ajudar o padre a compreender qual o seu papel na missa. E chegar a isso, bem sabemos, é difícil para a equipe litúrgica e para o padre. Mas é a condição para que a missa não seja chata para todos.

Serginho Valle - Liturgista