SUCESSORES DE CONSTANTINO

ATÉ TEODOSIO COMO IMPERADOR ÚNICO (337 - 380)

PARTE PRIMEIRA: CRONOLOGIA DOS FATOS

337 - Morte de Constantino I o Grande. Seus três filhos, Constantino II (Ocidente) Constâncio (Oriente) e Constante, o mais jovem (Itália, África e Ilíria) herdam o Império

 

340 - Morte de Constantino II quando penetrava na Itália pela vanguarda de Constante, seu irmão menor, em Aquiléia, hoje uma vila em Udine, perto da costa adriática, noroeste da Itália (Ver mapa letra a). Constante, que no momento da batalha estava em Nassius, Mésia (= Sérvia-Albânia) assume o controle total do Ocidente. Constante foi um ardente defensor da ortodoxia contra os arianos e muito amigo de são Ambrósio.

 

350 - Magnêncio, oficial romano de origem germânica, foi proclamado augusto do Ocidente após o assassinato de Constante em Lugduno, Lyon da França atual.

 

 351 - Constâncio II, o irmão restante,  com o apoio de Vetranion (chefe das tropas do Ilírico - desde Albânia até a Croácia atuais -), derrotou Magnêncio na batalha de Mursa (atual Osijek na Croácia). Esta batalha é tida como a mais sangrenta da centúria: 30 mil mortos da parte do vencedor e 24 mil entre os vencidos. Pela primeira vez os legionários romanos foram derrotados pela cavalaria. Magnêncio teve que se retirar e finalmente cometeu suicídio.

 

352 - Libério foi nomeado papa.

 

353 - Com o suicídio de Magnêncio, Constâncio ficou dono único do Impéro. Foi o imperador que fomentou o arianismo, especialmente após a batalha de Mursa. No concílio de Arlés (perto de Marsella), se esforçou por impor o arianismo. Atanásio, Hilário e Libério devem exilar-se. Nomeou 2 Césares dentre seus primos: Gallo no Oriente e Juliano no Ocidente. Gallo se mostrou cruel e incompetente em Antioquia, e foi eliminado por Constâncio.

 

359 - No concílio de Rimini (perto de San Marino na costa adriática italiana) adotam-se medidas contra o arianismo.

 

360 - Por um concílio de Constantinopla se impõe o arianismo aos cristãos.

 

361 - Juliano, o futuro imperador, se proclamou a si mesmo Augusto em Lutécia (= Paris atual). A guerra civil entre os primos(ele e Constâncio II) foi evitada pela morte de Constâncio nesse mesmo ano. E Juliano foi o único imperador e o último da família de Constantino. Reinou só 18 meses.Chega vitorioso até Ctesifonte na luta contra os persas. Mas é morto pouco depois.  Joviano, fervoroso cristão, foi proclamado imperador pelo exército.

 

364 - Morte de Joviano por causas circunstanciais. O exército proclamou imperador a um dos seus oficiais, Valentiniano I.Este designou seu irmão mais novo Valente, como co-imperador no Oriente. Valentiniano ficou com o Ocidente, fixando sua residência em Paris. Ambos concordaram em tolerar as diversas religiões, o que Valentiniano manteve no seu reinado. Não foi esta a conduta de Valente que perseguiu os não arianos. Na luta contra os bárbaros um dos generais de Valentiniano  foi Teodosio,  que defendeu a Inglaterra dos pictos e saxones. Este Teodósio (Flávio Teodósio, o velho) foi o pai do, mais tarde, grande imperador do mesmo nome.

 

365 - Procópio, familiar de Juliano, pretende o mando, mas Valente o derrota.

 

366 - Damaso I, defensor da ortodoxia,  é nomeado papa.

 

367 - Valentiniano proclama seu filho Graciano de 9 anos, Augusto e fixou seu quartel em Tréveris (Trier) oeste alemão, perto da fronteira com Luxemburgo.

 

368-9 - Teodósio o jovem, luta junto com seu pai contra os pictos (povos da Escócia que pintavam seus corpos para a guerra, daí seu nome), na Inglaterra, detrás da famosa muralha de Adriano que separava a Inglaterra da Escócia com 117 km de comprimento e que demorou 6 anos na construção.

 

370-1 - Teodósio luta contra os alamamni (alemães) nos chamados agri decumani (Floresta Negra) entre a Francia e a  Alemanha.

 

372-3 - Idem contra os Sarmatas, povo do sul da Rússia  que entravam na Bulgária atual, nos Bálcãs.

 

373 - Primeira pugna entre Ambrósio, bispo de Milão, com o poder temporal. Morte de são Efrém de Nisíbia ou Nisibis.

 

374 - Como dux (comandante militar) na diocese (nome dado às províncias por Diocleciano) da Mésia no baixo Danúbio derrotou de novo os Sármatas quando só contava 27 anos. Além da experiência militar, tanto pai como filho,  ambos de origem aristocrática (daí o nome de Flávius) eram expertos com os cavalos hispanos, famosos por suas atitudes para a guerra e sobretudo para a carreiras que tanto apaixonavam os contemporâneos. Aurélio Símaco, um dos senadores romanos mais notáveis na época, importou cavalos de suas propriedades hispanas para as carreiras com que devia comemorar a prefeitura de seu filho em Roma. Desses cavalos, misturados com os do norte da África, resultou a raça chamada árabe, tão estimada como puro sangue nas corridas modernas. Seu pai era na época magister equitum (mestre da cavalaria) ) assim nomeado pelo imperador Valentiniano I. Na mesma data das vitórias do filho na Mésia o pai foi enviado com plenos poderes ao norte da África para reprimir a sublevação de Firmo.

 

375 - Ao morrer Valentiniano I de doença quando tratava desde Sirmium (Sremka Mitrovica da atual Sérvia, ao oeste de Belgrado) repelir os Quados (povos de origem suévia no centro da Alemanha, capital Augsburg), sucede-lhe Graciano, o filho, agora com 16 anos, que reconhece Valentiniano II, seu meio irmão de 4 anos como augusto. Devido a maquinações da corte de Graciano (367 - 383), a sorte dos dois Teodosios mudou. O pai foi arrestado e executado em Cartago. Embora cristão só se batizou na hora da morte. O filho, nosso Teodósio, se retirou à Espanha.

 

376 - Os visigodos, empurrados pelos hunos se estabelecem no território sul do Danúbio que pertencia ao império.

 

378 - Os visigodos se rebelam contra Valente e este perece na batalha de Adrianópolis(perto de Bizâncio na maior derrota do exército romano (40 mil mortos, 4 generais junto com o imperador). Com a morte de Valente, o Imperador do Oriente,  nessa batalha, Graciano, seu sobrinho, ficou como único imperador e chamou Teodósio à corte.

 

379 - Graciano nomeia Teodósio I, imperador do Oriente. Ao provar Teodósio sua habilidade como militar, derrotando os visigodos causadores do desastre de Andrianópolis, Graciano o proclamou co-imperador, dando-lhe o domínio do Oriente junto com as províncias de Dácia e Macedônia.

 

380 - Aparece a crônica de S. Jerônimo. Pelo edito de Constantinopla de Teodósio I Imperador romano do Oriente se confirma o cristianismo como religião de Estado no Império. Teodósio se batiza como cristão devido a uma grave doença, contraída em Tessalônica (atual Salônica na Macedônia, escolhida por ele como capital temporária, sendo assim o primeiro imperador romano que exerceu o poder estando batizado, apesar que seus predecessores desde Constantino, à exceção de Juliano, se declarassem cristãos e intentassem se comportar como tais. Foi talvez por isso que foi o primeiro imperador que recusou o título de Pontifex  maximus , que podemos traduzir por Supremo Guardião dos velhos cultos romanos. Como reconhecesse que os bárbaros, especialmente os teutônicos e germânicos, podiam ajudar o exército, bastante minado pelas lutas internas, Teodósio os admitiu como tropa e oficiais, de modo que em suas dioceses (província hoje) tanto romanos como teutônicos se encontravam entre seus generais.

 

381 - As forças bárbaras, especialmente os visigodos, invadiam as províncias do sul do Danúbio constantemente desde 375. Teodósio, que não podia contar com as forças de Graciano, buscou a paz através de uma coexistência pacífica. Por isso recebeu o rei dos visigodos  Atanarico de maneira amigável. Neste mesmo ano buscará a paz entre os diversos grupos cristãos. Ele se declara imperador pela graça de Deus e por isso convoca um concílio ecumênico, o segundo da Igreja em Constantinopla, agora capital de seu império.

OBSERVAÇÃO: Como temos visto, em Mursa 54 mil homens morrem pela ambição de um usurpador. O império se destrói a si mesmo. Pelo cesaro-papismo de Constâncio e Valente perderam a vida em meio século mais cristãos pelo ódio mútuo, que em três séculos de martírio e perseguição pagã. Infelizmante repetir-se-ão estes fatos no século16, nas lutas entre reforma e contra-reforma. Um homem, uma pátria, uma idéia, mesmo certa e religiosamente correta, merecem tamanha hecatombe?

JULIANO O APÓSTATA (361 - 363)

Constâncio II o ariano, perseguidor de Atanásio, deu-se conta de que ele sozinho não podia governar o império. Por isso, como adjunto, com direito à sucessão, nomeou como César no Ocidente a Gallo, seu primo. Havia um consenso entre a tropa que somente os da linhagem de Constantino, o Grande, poderiam governar o Império. Constâncio mandou matar Julio Constâncio seu tio e os parentes maiores no ano de 337. Nesse massacre livrou-se Gallo,  irmão 7 anos mais velho que Juliano, então este com 4 ou 5 anos de idade. Era Juliano órfão de pai e mãe porque esta, Basilina, morreu no parto. Eusébia, mulher de Constâncio, sem filhos, parece que o protegeu. Foi educado nas escolas gregas, atraído pelo Neoplatonismo. E adotou o culto do Sol Invicto. Batizado desde pequeno e criado como cristão, essa religião para ele foi a dos que mataram seu pai, seu irmão e parte de sua família. Por isso encontrou mais atrativo  na Filosofia. Era também um tempo em que a cultura social da classe alta era ainda pagã. Gallo, seu irmão, após ser nomeado César teve uma conduta deficiente e foi executado em 354  no norte da Itália  Pola, hoje Pula, na Croácia no Adriático.  Constâncio então chamou Juliano da Grécia. Tinha 23 anos. Foi nomeado César e recebeu como esposa Helena, irmã do imperador. Juliano defendeu as Gálias contra os alemães do Reno e os francos da Bélgica.Com motivo da guerra contra os persas, Constâncio pediu as melhores tropas a Juliano, na época residente em Lutécia (Paris) (360). Mas o exército se rebelou e proclamou Juliano Imperador. A guerra entre tio e sobrinho era inevitável. Mas Constâncio morre (361) e admite o inevitável : deixa o império a seu sobrinho.

Aclamado imperador, Juliano simplificou a vida palaciana e reduziu os gastos. Ele declarou sua intenção de governar como Marco Aurélio, como um filósofo, não como um gendarme da Igreja. Todos os bispos exilados puderam voltar e proclamou a liberdade de culto para todas as religiões. Porém a tolerância inicial se converteu em determinação de reviver o paganismo, e elevá-lo ao patamar de religião do Estado, sendo o imperador o chefe dessa igreja pagã. Este propósito passou de uma tolerância aparente, a uma clara supressão e perseguição do Cristianismo. Pagãos eram os preferidos como oficiais e os cristãos expulsos do exército e das escolas. Até escreveu um panfleto atacando as fábulas e falsidades dos galileus, nome que dava aos cristãos. Seu projeto de reedificar o templo de Jerusalém foi mais uma afronta aos cristãos do que um ato de benevolência para com os judeus. Seu plano não deu certo porque surgiram bolas de fogo dos velhos alicerces que espantaram os trabalhadores como nas outras duas ocasiões, uma anterior e outra posterior, em que se tentou reedificar o templo. Igrejas foram queimadas em Damasco e Beirute e bispos, entre eles de novo Atanásio, foram desterrados. Baco foi instalado em algumas basílicas cristãs. Recrutou um exército de 65 mil homens ajudado por uma armada fluvial para invadir os territórios persas. Durante uma desastrosa retirada da cidade de Ctesifonte, ao sul da atual Bagdá, Juliano foi ferido por uma lança que ninguém sabe de onde veio. Dizem que nesse momento sabendo que chegou seu último fim gritou: venceste, Galileu!. Morreu com 31 anos. Tinha sido imperador durante 20 meses .Seus princípios de unidade territorial e espiritual, em que o príncipe podia declarar a religião certa foram os que levaram à cruzada contra os albigenses ou determinaram os poderes da inquisição e o que declarava que cujus regio ejus religio (= qual a região, tal a religião) das religiões reformadas do século XVI. De tolerância nada;  simplesmente quis suprimir o cristianismo do Império romano. Havia reinado 20 meses.

JOVIANO (363 - 364)

(Flávio) Joviano (Singidunum c. 331 - Dadastana  364) Foi proclamado Imperador pelas legiões de Iliria então na Mesopotâmia, após a morte de Juliano. Anulou a reação pagã de Juliano. Teria seguido a política de Constantino, porque embora cristão, durante os poucos meses de seu reinado restaurou os privilégios da Igreja; porém se mostrou tolerante com o paganismo, a exceção de que proibiu os sacrifícios que Juliano tinha proliferado até dar nojo. A pressão dos persas foi tal que a única solução possível foi a cessão dos territórios mesopotâmicos conquistados por Diocleciano. Nos primeiros dias do ano 364 morre Joviano na Ásia  Menor. Havia reinado só 8 meses.

 VALENTINIANO (321 "364 - 375")

Flávius Valentinianus  nascido em 321 em Cibalis [Vinkovci] no sul da Panônia, cristão. Seu pai, Graciano,  foi um soldado ilustre por sua força e seus talentos na luta. Logo foi tribuno e comes da África. O comes era um subalterno do Imperador num território do Império, mais tarde recebeu o nome de Conde. Suspeito de ter relações com Magnêncio seus bens foram confiscados. Mas não impediu que Valentiniano, o filho, entrasse no exército do qual foi em 357, nomeado tribuno da cavalaria sobre Juliano. No entanto foi deposto por este por negar-se a presidir um rito pagão num altar pagão. Valentiniano em 359 teve um filho, Graciano, [mesmo nome que o avô] de Severa, que morreu pouco tempo após o parto. Casou com Justina da qual teve duas filhas e um filho, Valentiniano II. Morto Juliano, Valentiniano foi chamado ao exército por Joviano. Na morte deste último (364) o exército  escolheu como seu sucessor a Valentiniano I, a instância do prefeito do Oriente, Segundo Salustio, homem prudente que em duas ocasiões tinha rejeitado sua eleição como Augusto e que, embora pagão,  gozava de grande prestígio, com a condição de que tomara um co-reinante com o fim de dividir administrativamente o Império. Escolheu como co-reinante seu irmão Flávio Valente que governou o Oriente enquanto ele ficou como governador do Ocidente. Valentiniano instalou sua capital em Milão. As obrigações para com o Estado levaram Valentiniano a situar o bem comum contrariando a crescente intolerância dos bispos. A historiografia moderna tende a ver nele o último grande monarca que governou no Ocidente e a comparação entre as medidas adotadas durante seu governo e as dos imperadores posteriores confirmam esta opinião. Porém numa época de crispação entre civis e militares, potentiores [mais poderosos] e humiliores [mais humildes] cristãos e pagãos, a historiografia antiga apresentou uma imagem negativa. Os autores cristãos apresentam o imperador como imparcial e obsessivo pela idéia de preservar os direitos do Estado. Tinha proclamado a liberdade de culto só proibindo os sacrifícios noturnos. Não aumentou os privilégios eclesiásticos acordados por Constantino e controlou os abusos que alguns clérigos faziam, como o de visitar jovens viúvas com o fim de obter suas doações, anulando estes legados fruto de coação. Quando os bispos solicitaram sua intervenção em assuntos internos da Igreja, a resposta foi: Eu sou um leigo, resolvei vós mesmos vossos problemas como desejais. Mas também os pagãos que tinham como ideal Juliano o desprestigiaram. Seu melhor acerto foi a eleição de Valente como colega imperial. Parece que o general Dagalaifus, a quem Valentiniano consultou respondeu: "Se preferes a tua família, tens um irmão; mas se preferes o Estado busca alguém mais digno". Neste caso a opção familiar se impôs, dando a seu irmão o título de Augusto. Valentiniano não era um homem culto mais era um valoroso chefe militar com capacidade política e grande dedicação ao Império. Valente era um homem medíocre sem grandes dotes militares e tão pouco culto que nem sabia grego, a língua do Oriente. Por isso estabeleceu sua capital em Antioquia em vez da sofisticada Constantinopla. Durante dois meses ambos irmãos fixaram seus programas de governo e decretaram as medidas que consideravam mais urgentes: liberdade de culto, obrigação de pagar os impostos devidos sem exceções, confirmação da lei de Constâncio que contemplava a criação dos defensores senatoriais, impedindo aos libertos aceder ao grau de clarissimi, [título dos senadores, claríssimos] e o edito de Andrinópolis que reforçava o princípio da herança das condições curiais, pelo qual só podiam ser senadores se tinham um filho como herdeiro. Os filhos dos soldados deviam ser soldados e os filhos dos secretários deviam ser também secretários nas oficinas públicas.

POLÍTICA DE GUERRA

Os Alamanis estavam raivosos porque Valentiniano não pagava os tributos que devia a eles e o Magister Officiorum [mestre de cerimônias] os recebeu com desrespeito. Por isso invadiram as Gálias ao mesmo tempo que Procópio se insurgia contra Valente no Oriente. Em 367 designou como co-Augusto seu filho Graciano então com só 8 anos, sem dúvida para evitar lutas pelo poder caso acontecesse sua morte. Valentiniano teve que lutar contra os Alamanis. Enviou dois generais que foram derrotados e mortos.  O terceiro conseguiu expulsá-los da Gália, mas retornaram em 367/68. Valentiniano por meio de traidores assassinou o chefe dos mesmos. Reuniu um grande exército e acompanhado por Graciano, seu filho mais velho, cruzou o Maine até encontrar os inimigos na primavera de 368. Na batalha de Solicinium (Schetzinger) venceu os inimigos. A paz conseguida, retornou a Trier para o inverno. Em 370 os Saxones renovaram seus ataques no norte da Gália. Após várias batalhas, os saxones deram muitos jovens como  reféns para obter passagem para suas terras, pois estavam rodeados. Porém os romanos traiçoeiramente emboscaram os saxones matando todos eles. Um novo ataque contra os Alamanis foi feito por Teodósio, o velho, como magister equitum [chefe dos cavaleiros], e os capturados foram enviados para o vale do Pó. Após 4 anos de combates com os Alamanis, novos problemas foram suscitados pelos pictos na Inglaterra e nas costas da Normandia. Enviou Teodósio o velho, a Inglaterra em 368 o qual com táticas de rapinas e emboscadas reconquistou os terrenos ao Norte de Londres, junto com seu filho o futuro imperador. Em 372 por causa da rebelião de Firmus, Teodósio, o velho, foi enviado ao norte de África. Após dois anos,  pacificou o território e apresou Firmus. Em 373, num banquete, os romanos assassinaram o rei dos quados, pelo qual estes se rebelaram. Não podendo assaltar as cidades fortificadas, arrasaram os campos. Valentiniano ignorou as reclamações dos quados  e decidiu puni-los. Preparou a campanha e cruzou o Danúbio em Aquincum (Budapest). Após uma campanha de saqueio e terrorismo, voltou para o acampamento de inverno. Ali recebeu um grupo de quados que o irritaram com suas declarações. Teve um ataque de apoplexia que acabou com sua vida (375) em Szoni (Hungria). Nesse ano Firmo, derotado por Teodósio o velho, terminou enforcando-se. Um grupo de sármatas pretendeu entrar através do limes (limites) em território romano, mas foram derrotados por Teodósio o jovem, que recebeu o cargo de comes Maesiae.

O CRISTIANISMO E A LEGISLAÇÃO

Contrariamente a seu irmão Valente, pro-ariano, Valentiniano não quis se misturar nas controvérsias religiosas do seu tempo. Mas proibiu os maniqueus em 372 de se reunirem em Roma. A desobediência levou à morte, exílio e confiscação de bens, dos envolvidos. Também condenou oficialmente os bispos donatistas da África em 373. Teve parte na toma de posse de Ambrósio no lugar de Auxêncio o ariano, como bispo de Milão. Em 370 proibiu os eclesiásticos de casar com viúvas ou mulheres protegidas pelo Estado. Para contentar os pagãos reteve o título de Pontifex Maximus, mas perseguiu membros da aristocracia por causa de magia, uso de veneno e adultério. Zeloso do fisco para as campanhas militares obrigou a marcar com ferro candente os operários para impedir que fugissem de seu ofícios. Ninguém podia sair de sua classe ou de seu ofício. A conversão ao cristianismo da grande Vestal Claudia tornou-se um verdadeiro escândalo. S. Jerônimo, contemporâneo e nascido na mesma região diz dele que foi um excelente imperador em muitos casos comparável a Marco Aurélio, embora alguns o qualifiquem de cruel e avaro. A rebelião de Firmo em 372 foi secundada pelos donatistas do norte da África. Em 374 morreu Auxêncio, bispo de Milão, e houve um tumulto entre os partidários de um bispo ariano e os de um bispo católico. Um catecúmeno, chamado Ambrósio, defendeu tão ardentemente o catolicismo que foi proclamado como novo bispo. Foi batizado, ordenado sacerdote e consagrado como bispo no espaço de 8 dias. Seria o futuro S. Ambrósio. Promulga uma lei em que proibia com pena de morte o matrimônio entre romanos e germanos.

 

VALENTE (328 "364 - 378")

 Flavio Valente nasce em 328 em Cibales (Panônia). Ao morrer Joviano em 364 por causa de um braseiro que emitiu gás tóxico por mal funcionamento, seu irmão foi escolhido como Imperador e quis que Valente fosse o Augusto do Oriente. Foi na parte oriental, governada por Valente, onde teve lugar a insurreição  de Procópio. Este fora líder de uma parte do exército de Juliano durante a guerra contra os persas e tinha enterrado o mesmo em Tarso. Com o apoio da viúva do Imperador Constâncio e os chefes militares adictos a Juliano se sublevou até ser derrotado em 366. Executado, sua cabeça foi enviada a Valentiniano no Trier como confirmação. Houve uma certa paz com a Pérsia,não isenta de pequenas escaramuças,  mas a  guerra continuou nas margens do Danúbio. No ano 367, Valente teve que afrontar a invasão dos godos, unidos a elementos Hunos e Alanos que transpassaram as fronteiras do Baixo Danúbio (Mésia e Trácia). Valente quis recrutar visigodos para a luta. Mas estes, desprezados pela sociedade romana, foram objeto de abusos permanentes, como era que o Comes (subalterno regente como governador de um território, de onde deriva a palavra conde) da Trácia, vendiam os víveres a preços altíssimos a fim de obrigar a vender seus filhos como escravos. Por isso se rebelaram. Desde o Oriente, Valente voltou a Constantinopla e no verão de 378 foi derrotado na batalha de Adrianópolis. Estava vencido o chefe dos godos, mas durante 10 horas discutiram a paz e os soldados romanos tiveram que ficar esperando de pé e cansados, enquanto a cavalaria dos hunos chegava. A derrota atribui-se aos estribos de que estavam equipados os cavalos hunos e que permitiam manobras que não podiam realizar os cavaleiros romanos sem uso dos mesmos. Dois terços do exército oriental tinham perecido na batalha,houve 40 mil mortos, entre eles 4 generais e o próprio imperador. Foi o maior desastre sofrido pelo exército romano após a batalha de Cunas contra os cartagineses. Os godos chegaram às portas de Constantinopla e, embora não conseguissem tomar a cidade, devastaram os campos. Na sua marcha para o Ocidente saquearam o Ilírico e as matronas romanas foram conduzidas como rebanhos de gado à golpe de látego. O ódio para com os godos cresceu de modo que o Magister Trans Taurum mandou que se degolasse todo godo que em épocas anteriores, fora permitido assentar-se na região. A ordem cumpriu-se taxativamente.

SUA POLÍTICA RELIGIOSA

Valente que segundo dizem alguns era pagão no momento de ser declarado Augusto, foi batizado em 367 por Eudoxio, patriarca ariano de Constantinopla. Perseguiu pois os ortodoxos ou católicos, mas não de forma rigorosa. Uma tradição piedosa lhe atribui o martírio de Urbano, Teodoro e 80 eclesiásticos. O grupo chegou a Constantnopla em 370 para pedir liberdade para o culto católico. Por ordem do Imperador foi embarcado para Bitínia. Ao se aproximar da costa a tripulação tocou fogo na nave e a abandonou, perecendo os ocupantes. Atanásio foi de novo desterrado. E o levantamento de Procópio em 365 foi em parte estimulado pelos católicos. Em 370 Basílio, o Grande, foi escolhido bispo de Cesareia e se tornou crítico de Valente ao combater o arianismo.

 GRACIANO (359 "375 - 383")

Filho de Valeniniano I e sua primeira mulher, Marina. Casou Valentiniano de novo com Justina, viúva de Magnêncio, da que teve quatro filhos: Valentiniano(II) Grata, Justa e Galla. Na morte do pai as coortes galas, que na realidade eram as donas do poder, proclamaram Augusto a Valentiniano, então com 4 anos. Assim Valentiniano II passou a ser Imperador só da Iliria com capital em Sirmio, onde permaneceu retirado com sua mãe. Em 376 Graciano, por sua parte, prosseguiu a política anti-senatorial do pai, e alguns senadores foram decapitados.Nesse mesmo ano ordenou a execução de Teodósio o velho na África, e o filho deste retirou-se para as suas propriedades na Espanha. Em 378 quis ajudar seu tio na luta contra os godos invasores na Trácia, mas os Alemanis o impediram, tendo que derrotá-los primeiro; e ao conhecer a morte do tio em Adrianópolis, retornou ao Ocidente, nomeando Teodósio, o jovem, Augusto do Oriente (379). As províncias orientais da Panônia ficaram arrasadas pelas hordas bárbaras de modo que Valentiniano II só ficou com a parte ocidental da Panônia. São Jerônimo, nascido nessas terras dirá: "Não ficou mais do que o céu e a terra. Tudo tem desaparecido". São João Crisóstomo dizia que os bárbaros atuavam tão violentamente que um dos seus chefes não compreendia por que os romanos não fugiam em vez de se deixar matar. A diocese de Ilíria ficou dividida de modo que Valentiniano II ficou só com a parte ocidental e em 380 os ostrogodos se estabeleceram na Panônia. Graciano se apoiou no poder eclesiástico, e tomou como conselheiros Dâmaso de Roma e Ambrósio de Milão. Por isso trasladou sua capital de Tréveros (Trier) a Milão. Como católico fervente renunciou ao título pagão de Pontifex Maximus, que tinha assumido no início de seu mandato. O Estado não assumiria os gastos dos templos e sacerdotes pagãos. E o episódio que mais marcou sua política religiosa foi o caso da deusa Vitória que presidia o senado por causa da maioria pagã dos senadores. Houve uma revolta na Inglaterra em 383. O espanhol, Magno Máximo foi proclamado imperador por suas tropas. Graciano se dirige a Paris para combatê-lo e vê como a maioria de suas tropas se passa ao inimigo. Em sua fuga foi detido e pouco depois assassinado.

POLÍTICA RELIGIOSA

Graciano se negou a aceitar as insígnias e o título pagão de Pontifex Maximus. Confiscou os bens das Vestais e outros templos em Roma, proíbe que os colégios sacerdotais possam receber qualquer legado ou doação, após despojá-los de seus berns. Mas o caso mais notório foi a remoção da Dea Victoria da cúria senatorial romana, que Juliano tinha restabelecido. A luta que logo aconteceu entre Ambrósio e Símaco, pagão e prefeito da cidade é notável. Símaco clamava aos romanos para que respeitassem suas tradições mais sagradas, e essa religião que tinha submetido o mundo às suas leis e rejeitado Aníbal às suas portas. Ambrósio declarou que os senadores cristãos tinham direito a que seus olhares não se sujassem com a visão de um ídolo e seus ouvidos com os cânticos em sua honra.

padre Ignácio - padre escolápio