SOMOS CAPAZES DE SUPERAR A VIOLÊNCIA(1)

Meninas e meninos a brincar pelas praças, sem medo de seqüestro, de trânsito violento ou de qualquer outra ameaça. Velhas e velhos, tranqüilos, apoiados em suas bengalas, a contemplar o verde, a vida, a paz...  Ah, bons tempos aqueles! Saudosismo de um tempo que se foi, de nossa vida nas pequenas cidades, lá no interior?  Esperança de que tempo que pode ser reconstruído?

Para o profeta Zacarias, que conheceu a capital de seu país em ruínas, após a destruição de Jerusalém e o cativeiro da Babilônia, essa linguagem é mais que saudosismo, é promessa divina:

“Assim diz o Senhor dos Exércitos: Velhos e velhas ainda se sentarão nas praças de Jerusalém, todos de bengala na mão por causa da idade. E logo as praças se encherão de meninos e meninas a brincar pelas ruas” (Zc. 8, 4 - 5) (2)

É verdade que estamos vivendo um momento muito violento na história da humanidade. Ninguém mais se sente tranqüilo, seja no que diz respeito à segurança pessoal, local, seja no plano das relações internacionais. Análises mais simplistas até afirmam que vivemos o mais violento de todos os momentos. Tenho minhas dúvidas, pois não vivi os tempos dos massacres efetuados pelos exércitos romanos, nem fui um dos milhões de africanos sem chances sequer de chegar com vida à América, por apodrecer nos porões dos “navios negreiros”. Também não fui vítima da loucura nazista num campo de concentração durante a chamada Segunda Guerra. A humanidade já viveu outros momentos de violência quase generalizada.

Mas o que nos assusta é que todos os avanços, especialmente na área da comunicação, não estão permitindo aos grupos humanos se comunicarem mais. Pois se não há diálogo, não há comunicação verdadeira. E se não há comunicação, não há como encontrar formas conjuntas para diminuir a violência que nos cerca, seja no âmbito do bairro, da cidade, seja na esfera das nações.

Há apenas um caminho!

            “Não se trata de escolher entre a paz e a guerra, trata-se de escolher entre a paz ou a autodestruição" (3). A frase nunca foi tão atual para a humanidade. Trata-se de uma opção a ser feita, e a curto prazo. Precisamos ajudar nossos governantes a fazer esta escolha. E com a clareza de que a responsabilidade não é só deles. É nossa missão ajudar no nascimento de uma nova cultura, uma cultura de paz! Pois, “desta vez não haverá uma arca de Noé que salve alguns e que deixe perecer os demais. Temos que nos salvar todos, a comunidade de vida de humanos e não-humanos" (4).

            Não quero, neste artigo, ficar repetindo análises fatalistas. Quero, outrossim, partilhar opções de vida que pessoas e grupos estão fazendo, elas podem se alastrar cada vez mais, contagiar, ajudando a criar a cultura da paz!

  Combater a violência ou superar a violência?

            É muito mais do que uma questão de termos. Trata-se mesmo de uma opção de vida. É preciso superar a lógica. Se para cada ação violenta, tivermos que responder com uma reação também violenta, o círculo vicioso apenas irá se retroalimentar, crescendo cada vez mais. É por isso que, de antemão, está fadado ao fracasso qualquer “plano de combate à violência”, por mais bem elaborado que seja. Violência não se combate, pois combater já em si é um ato violento. Chavões como “guerra contra o terror”, “guerra contra o seqüestro”, “combate ao narcotráfico”, normalmente, o que mais fazem é camuflar projetos de ocupação militar e de desrespeito ao direito de auto-afirmação de grupos e povos (5).

Violência não se combate, se supera! E se supera com o que Gandhi chamou de “força da não violência”. E ainda que tenhamos dificuldade em saber como a tal “onda de violência” será superada, há muita coisa que está a nosso alcance. Enquanto questionamos e forçamos a mudança no macro, vamos agindo no micro.

Quero, por exemplo, morrer orgulhando-me de dizer que nunca dei um tiro, nem quero tocar em armas de fogo, para mim elas não têm serventia. Mas quero continuar ajudando, sempre que possível, a recolher as armas de brinquedo. Não só porque algumas delas até são usadas em assaltos tanto que se parecem como armas de verdade. Mas por que elas alimentam a cultura da violência (e a ganância de empresas inescrupulosas!). Já vi coisas bonitas acontecendo nas escolas que fizeram este tipo de campanha de desarmamento entre suas crianças.

Há armas de brinquedo mais sofisticadas, como os videogames. Esses eu quero que continuem não tendo espaço em minha casa. Paulo Freire, pouco antes de morrer, afirmava que os jovens que mataram Gaudino aprenderam a matar índios ainda em sua infância, diante dos videogames ou arrancando pescoços de passarinhos (6).

Também não quero jamais soltar fogos de artifício. Eles são violentos, não só porque “podem” ferir, mas porque ferem de fato. Ferem o planeta, ferem o silêncio, ferem os sensíveis ouvidos de animais e de crianças recém-nascidas.

Consegui, com bastante esforço, escapar do serviço militar. Foi um alívio! Mas quero continuar apregoando que sou contra a obrigatoriedade deste “serviço”. Ainda quero poder votar num plebiscito onde a população, conscientemente, diga não, entre outras coisas, ao serviço militar obrigatório.

Não sei bem ainda que alternativas temos à violência reproduzida, justificada e incentivada pela grande mídia. Se censura é violência, também é muito violenta a forma com que somos forçadas e forçados a engolir a violência da TV. Tenho dificuldade em aceitar como consegue ter audiência uma programa que mostre dez ou doze jovens trancados numa casa disputando quinhentos mil reais. Não seria muito mais lógico um programa que incentivasse a solidariedade? Diante disso, confesso que o máximo que consegui fazer foi escrever à produção desse programa sugerindo que propusesse ao grupo que repartisse entre si o valor.

Mas no caso da TV o que tenho mesmo conseguido fazer é desligá-la, ainda que me sinta “alienado” em alguns assuntos. Confesso que é uma realização muito maior voltar a inventar brinquedos com as crianças! Espero ter encontrado outras respostas quando elas chegarem à adolescência.

Paz, paz... “Por que tantos dizem estar curando a ferida do meu povo, quando não existe paz?” A reclamação é do profeta Jeremias (Jr 6,14), que, com certeza, ajudou a um outro profeta, Dom Helder Câmara, a proclamar com tanta força: “Justiça é o novo nome da paz”. Não há como pensar em paz, em vida mais segura, sem a efetiva prática da justiça. Não há como negar que as desigualdades sociais ajudam a acentuar a violência. Tem gente que até faz uso desta tese para dizer que os pobres são mais violentos (ou, em outras palavras, que a violência é maior entre os pobres). Não aceitamos essa distorção do discurso, mas queremos denunciar que a miséria e a fome estão entre as formas mais graves de violência. Por isso queremos exercitar a partilha, enquanto continuamos a exigir a justiça social.

  E a Bíblia, como nos ajuda neste momento?

Volto a pensar no texto de Zacarias. É mesmo bonito, nos faz lembrar o que Miquéias havia dito alguns séculos antes:

“De suas espadas vão fazer enxadas, e de suas lanças farão foices. Um povo não vai mais pegar em armas contra outro, nunca mais aprenderão a fazer guerra. Cada um poderá sentar-se debaixo de sua parreira ou de sua figueira sem ser perturbado, pois assim disse a boca do Senhor dos exércitos” (Mq. 4, 3 - 4).

Mas desconfio que tanto Zacarias como Miquéias não tenham escutado tais palavras do “Senhor dos Exércitos” (os originais falam de “YHWH dos Exércitos”). Podem sim ter ouvido tais palavras da boca de Deus, que não é “Senhor”, muito menos senhor de algum exército! Por princípio, temos que negar a necessidade da existência dos exércitos. Com o falso discurso de garantir a soberania, sua função é exterminar a vida, mesmo quando não “fazem guerra”. (7)

            Mas o que fazer com o “Senhor dos Exércitos”? Ora, se queremos continuar buscando força na Bíblia, inclusive para construir a verdadeira concórdia, nela encontraremos muito textos que pregam a paz: “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus!” (Mt 5,9). Mas também vamos encontrar textos e mais textos que incentivam a violência e a vingança. Não podemos deixar de lê-los, a Bíblia, no seu conjunto, continua sendo Palavra de Deus. Mas, agora mais do que nunca, precisamos compreender as riquezas e as limitações culturais de cada povo, inclusive do povo que nos legou a Bíblia.

            Se nossa percepção da Divindade avança para a visão de um Deus que, como um pai e uma mãe, cuida com carinho de cada uma e cada uma de seus filhos e filhas, não nos será mais agradável imaginá-la como um chefe militar. Não somos soldados, somos filhos e filhas, irmãos e irmãs, em busca da paz verdadeira.

O que esperarmos para o final desta “década”?

            Em fevereiro de 2001 o Conselho Mundial de Igrejas lançou a Década para Superar a Violência. No Brasil, a campanha foi assumida pelas Igrejas e organismos que compõem o CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs. Ao observarmos os inúmeros conflitos que o mundo vivencia neste início de década (e de milênio), concluímos que o mundo não levou a proposta muito a sério. Mas Gandhi e Luther King não também não foram levados a sério no começo de sua ação não violenta. E nem mesmo Jesus!

            O mundo que teremos ao final destes dez anos dependerá dos “poderosos”, mas dependerá também do poder que está em nós. A diferença está no fato de que ainda temos chances de usar nosso poder de forma não violenta.

Uma sugestão bibliográfica

Devemos dar de presente às nossas crianças (inclusive às crianças que somos nós) livros como O menino do dedo verde. Tistu, o personagem da obra, tinha um dom: tudo o que ele tocava com seu indicador, se tornava verde. E foi assim que ele conseguiu fazer brotar ramos e mais ramos que penetraram nos canhões, fazendo com estes não mais conseguissem funcionar.

Edmilson  Schinelo

(1) Artigo publicado no Boletim Por trás da Palavra - abril 2003

(2) O texto bíblico citado já inspirou um pequeno artigo de Éser Pacheco, pastor da IPU, escrito em setembro de 2001

(3) Esta frase já foi dita de várias formas. John Kennedy, por exemplo, dizia que “ou a humanidade acaba com a guerra ou a guerra acaba com a humanidade”

(4) Assim se expressou Leonardo Boff, no seu Manifesto pela concórdia e pela paz, proclamado na manifestação pela paz, ato realizado no rio de Janeiro logo após os atentados de 11 de setembro de 2001

(5) O tal “combate ao terrorismo” praticado pelos EUA e por Israel tem escondido o genocídio do povo palestino, por exemplo. Para instalar bases militares na Colômbia, o Império norte-americano afirma estar combatendo o narcotráfico

(6) Madalena Freire recolheu os últimos escritos de Paulo Freire, alguns em forma de carta. O material foi publicado sob o título de Pedagogia da Indignação

(7) Não estou aqui criticando um soldado ou outro soldado em particular, mas a estrutura militar. Esta, inclusive do ponto de vista da produção, não produz benefícios, apenas consome a riqueza produzida pelo país ou pelo planeta. Neste sentido, mesmo quando não faz guerras, a estrutura militar é geradora de morte