QUEM  SABE  A  SUA  RESPOSTA É  DIFERENTE  DA  MINHA!

Outro dia, eu estava rezando o salmo: “O Senhor é meu pastor”. Pensei comigo: “Quando eu digo pastor, na minha cabeça vem uma idéia de pastor que não é a mesma que estava na cabeça da pessoa que fez o salmo”. E quando eu rezo “meu” pastor estou falando de mim e não da pessoa que fez o salmo e, muito provavelmente, a experiência de proteção que eu sinto ao dizer “O Senhor é meu pastor” é bem diferente da experiência da proteção divina que levou aquela pessoa a fazer o salmo. E quando digo “O Senhor”, eu penso em Jesus. Mas a pessoa que fez o salmo não podia pensar em Jesus, pois escreveu muitos séculos antes do nascimento de Jesus.

As três palavras básicas desta frase: “Senhor”, “meu” e “Pastor”, usadas tanto pelo autor do salmo como por mim, são como três janelas iguais em duas casas diferentes. Se você olhar por estas três janelas para dentro da casa da pessoa que fez o salmo, você vai ver algo bem diferente do que você verá quando olhar pelas mesmas três janelas da minha casa.

Mais um exemplo. Lendo o documento do Concílio Vaticano II, “Dei Verbum” sobre a interpretação da Bíblia, pensei: O texto conciliar começa citando uma frase da Primeira Carta de São João: “Porque a vida se manifestou, nós a vimos, dela damos testemunho e lhes anunciamos a Vida Eterna. Isso que vimos e ouvimos nós agora anunciamos a vocês, para que vocês estejam em comunhão conosco” (1Jo 1,2.3). Os dois mil e tantos bispos da Igreja Católica, reunidos em Roma nos anos 60 do século passado, fizeram suas as palavras de João, escritas quase 2000 anos atrás. Assim, quando eles dizem “Isso que vimos e ouvimos nós agora anunciamos a vocês!”, eles se referem ao que eles mesmos, os bispos, puderam “ver e ouvir” naqueles dias do Concílio e que, agora, através do documento, querem comunicar aos membros das suas dioceses. O “nós” que, no texto original, é João, agora, no documento do Concílio, são os bispos. Os destinatários, indicados com “vocês”, que, no texto original eram os membros daquela pequena comunidade da Ásia para a qual João dirigia a sua carta, agora, no texto dos bispos, são os milhões de cristãos católicos do século XX. Os bispos usam as mesmas palavras, as mesmas letras, que foram usadas por João, mas, na boca dos bispos estas palavras se tornam veículo de uma experiência totalmente diferente. Mudou tudo: os destinatários, o remetente, o lugar e a data. A única coisa que não mudou é a letra, o envelope, a embalagem.

Todos usamos a Bíblia assim: Jesus, Pedro, Paulo, Lutero, Santa Teresinha, os bispos, os pastores, os papas, as comunidades, os religiosos, as religiosas, os católicos, os protestantes, você, eu, todos nós fazemos a mesma coisa. Temos uma experiência de Deus e da vida e tentamos expressá-la usando as palavras da Bíblia. Fazemos até questão de buscar palavras na Bíblia para, por meio delas, revestir e expressar o que se passa na alma e no coração da gente. A única vez que não fazemos assim é quando estudamos o texto e, com a ajuda da análise do grego e do hebraico, procuramos determinar exatamente o que o texto significava na época em que foi escrito.

A Bíblia se parece com aquelas roupas típicas, que não mudam, mas que em cada época, lugar e geração são usadas por pessoas diferentes. Você olha e vê alguém andando na rua. De acordo com o tipo de roupa você reconhece a pessoa e a função que ela ocupa, o trabalho que realiza, ou a festa que celebra. Na rua, reconhecemos a noiva, o padre, a freira, o soldado, a polícia, pela roupa que usam. Assim, vestir a roupa da Bíblia traz um certo reconhecimento. Tudo é diferente: remetente, destinatário, data, lugar e conteúdo. Só a roupa é igual. É pela roupa que se reconhece a pessoa e que a pessoa se identifica e se apresenta. A pergunta que fica é esta: Por que fazemos questão de usar a Bíblia como embalagem dos nossos pensamentos, intuições e experiências?

Vou tentar uma resposta. Quem sabe, você que está lendo esta “faísca” terá uma outra resposta. Estou curioso para conhecê-la! Aqui vai a minha:

Pelo fato de alguém usar uma palavra da Bíblia para transmitir um pensamento que teve ou uma experiência que viveu, ele está dizendo que esta sua experiência e este seu esforço de comunicá-la estão situados num rio que vem desde os tempos da Bíblia. Ou melhor, ele expressa o desejo de querer beber do mesmo poço em que beberam as pessoas do tempo da Bíblia, e de querer sentir-se animado pelo mesmo Espírito que animava a eles naquele tempo.

Esta maneira de usar a Bíblia parece nova, mas é muito antiga. O que caracteriza a leitura cristã da Bíblia são três coisas: familiaridade, liberdade e fidelidade:

Familiaridade: sentimos a Bíblia como algo que é nossa, da nossa família. Ela expressa o que somos e vivemos. Expressa a nossa identidade, da qual não abrimos mão e que queremos aprofundar cada vez mais. Por isso, fazemos questão de revestir nossas experiências com palavras da Bíblia. Sentimo-nos em casa dentro da Bíblia. É nosso livro! E por ser nosso livro, podemos usá-lo com liberdade.

Liberdade: usamos a Bíblia para expressar experiências que não são das pessoas da Bíblia, mas que são nossas do século XXI. E acontece que, quando encontramos lá dentro afirmações que já não combinam com o que hoje vivemos, tomamos a liberdade de pular, de ignorar ou de explicar simbolicamente. Por exemplo, no breviário oficial da Igreja Católica alguns salmos foram censurados e já não são rezados. Jesus, Paulo e os primeiros cristãos tinham a mesma liberdade quando citavam o AT. “Antigamente foi dito, mas eu digo...!” Se Jesus e Paulo tomavam esta liberdade não foi para reduzir a mensagem ao tamanho do seu próprio pensamento, mas, sim, para serem fiéis à intenção mais profunda da mensagem. “Não vim para acabar com a Lei, mas para levá-la ao seu pleno cumprimento!” A liberdade era expressão da sua fidelidade.

Fidelidade: Usamos as palavras da Bíblia para expressar o que vivemos, porque queremos ser fiéis ao que nos veio do passado, da nossa origem. Se, de vez em quando, tomamos aquela liberdade frente ao texto ou se pulamos ou o explicamos simbolica­mente, não é porque somos contra, mas é para preservar bem limpa a fonte de onde nasce tudo. Às vezes, acontece também o contrário. Quando o estudo exegético mostra que minha interpretação forçou o sentido da letra, então a fidelidade me obriga a mudar e a ser fiel à letra. A letra é como a fundação sobre a qual se ergue a casa. Mas moramos na casa, e não nas fundações. Porém, morada sem fundações é como a casa em cima de areia.

Isto significa que, no fundo, o critério básico não é a Bíblia, mas, sim, a experiência que hoje temos de Deus e da vida, não eu sozinho, mas dentro da comunidade e em comunhão com ela, recebendo dela a minha identidade. Ou melhor, o critério básico está nesta interação do texto do passado conosco que hoje lemos o texto. De certo modo, continuamos a escrever a Bíblia. O importante é o diálogo, a partilha, a escuta (Is. 50,4 - 6), sem dogmatismo, tanto entre nós hoje, como com o nosso passado e com a letra. Na hora em que alguém ou um grupo impõem aos outros a sua maneira de ver as coisas, exigindo obediência em nome de Deus, sem escutar o conjunto, sem escutar a letra e sem escutar o Espírito que hoje sopra e sem levar em conta a experiência de hoje, ele se isola, por mais que pense ser a cabeça ou o coração.

Esta “faísca” é uma pergunta que questiona e ilumina minha maneira de usar, de interpretar e de meditar a Bíblia. Quem sabe a sua resposta é diferente da minha. Se for, eu gostaria de escutá-la.

Carlos Mesters