A PAIXÃO DE CRISTO: PAIXÃO PELO SANGUE?

Após assistir a um bom filme, voltamos para casa mais humanos. Mas o  filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, ameaça o humano em quem o assiste. Não posso recomendá-lo. Trata-se de uma carnificina que apetece aos voyeuristas da violência. Um espetáculo de sadismo insaciável, um banho de sangue do início ao fim. Uma grande sessão de tortura com requintes de crueldade. Duas horas de “linchamento”. Os 95% de violência arrasam os 5% de boas cenas. Por ser excessivamente violento, associo-me a tantos em veemente protesto.            

O filme merece outro título: A Paixão pelo Sangue. É crueldade pela crueldade, totalmente descontextualizada. Não há, da parte do diretor, a menor preocupação com o contexto da Práxis e do Ensinamento de Jesus de Nazaré. A vida pública de Jesus aparece em rápidos e em insignificantes flashes, apenas para segurar o espectador que se enoja com tanta tortura e é tentado a abandonar o cinema, como vi várias pessoas fazer.

A quem serve esse tipo de interpretação? Não serve nem à humanidade, muito menos à religião. Não é educativo. Não inspira nenhuma forma de indignação organizada, de resistência transformadora contra a violência do poder. Ao contrário, reforça os requintes de crueldade e descaso com o sofrimento da humanidade, com os quais estamos perplexos nestes últimos tempos. A passividade dos amigos e parentes do flagelado - que carrega a cruz - parece querer induzir à impossibilidade de qualquer reação do grupo marginalizado. Resta apenas a possibilidade de chorar e de se lamentar. O tímido grito de uma mulher: “Faça algo para parar isso” reforça a onipotência dos poderes opressores e a arbitrariedade de um deus sádico. Tantas vítimas da atualidade, como as nesse filme, assistem, passivamente, até o fim, aos requintes de crueldade, sem levantarem a voz contra a opressão.

No campo da religião, a intenção é doutrinar pelo sofrimento de Jesus e não por seus ensinamentos e por seu testemunho profundamente humano. Insinua: O incomensurável sofrimento de Jesus é o que nos redime, é o perdão para todos os nossos pecados. Jesus é apresentado como um super-homem com forças sobre-humanas que agüenta ser todo retaliado e esbofeteado sem desmaiar e morrer. Sua resistência ao flagelo, à perda de tantos litros de sangue, quer mostrar que todos temos de agüentar o sofrimento, mesmo além das condições humanas. Porém, ser cristão implica, não raro, pôr a boca no trombone contra toda e qualquer força e violência injustas. É caminhar solidário, mas sem passividade. É ver na cruz injusta de cada um de seus irmãos um crime hediondo contra a humanidade e contra Deus.

Ao término, quando amigos deparam com os panos sem o corpo do crucificado no túmulo, Jesus aparece magicamente redivivo sobre as nuvens. Trata-se de uma noção falsa de ressurreição. Ressurreição verdadeira brota das entranhas do humano, de baixo para cima e de dentro para fora. Ressurreição não é uma reanimação, mas a plena irrupção divina no humano; é a divina transcendência impregnando a humana imanência.

O filme contém interpretação errônea da Bíblia. Erra ao afirmar que o quarto canto do Servo Sofredor (Is 53,13-53,12) remonta a 700 a.C. Está superada essa hipótese. Os textos de Is 40 – 66 datam do período do exílio babilônico (597-538 a.C.) e do pós-exílio. Outro equívoco é considerar os evangelhos como sendo crônicas jornalísticas escritas no calor dos acontecimentos. Sem consistência hermenêutica, Gibson faz interpretação literalista e fundamentalista dos relatos evangélicos, o que trai o sentido mais profundo dos evangelhos, em que imagens factuais estão a serviço de mensagens espirituais. A queda de Jesus em uma ponte, ao ser enxotado de Caifás a Herodes, além de inverossímil do ponto de vista médico, usurpa a tradição literária sobre os relatos da Paixão.

A Paixão de Cristo veicula uma anticultura relativa a Deus. Leonardo Boff alerta, com pertinência, que o filme “destrói a imagem que Jesus nos legou de Deus, como Pai de infinita ternura. O Pai não quis a morte de Jesus. Quis, sim, sua fidelidade até o fim, mesmo que implicasse a morte.” Não é o sofrimento de Cristo que nos salva. O que nos salva é o testemunho solidariamente humano dado por Jesus, ao consolar os aflitos e ao incomodar os acomodados. O amor de Jesus  não se revela tanto em sua capacidade de sofrer por nós, mas na grandeza de investir seu amor pelos crucificados, animando-os e questionando os sistemas que condenam tanta gente à cruz. Nosso Deus não é um Deus sádico. Não quis ver seu filho torturado como preço para a salvação da humanidade. Nosso Deus respeita a liberdade humana. Jesus não foi condenado à pena capital por Deus, mas pelo sistema de dominação. Jesus foi vitimado por um conluio dos poderes religioso-econômico-político e cultural da época.

Um adolescente, após assistir parte do filme A Paixão de Cristo, pois não agüentou assistir tudo, interpelou a mãe: “Por que Deus Pai  maltratou tanto Jesus, Deus Filho?” Essa pergunta resume, com sabedoria, séculos de uma teologia equivocada afirmando que Deus nos ama muito, porque seu Filho pagou um preço caro - não pelo sangue, mas pelo amor - pela nossa salvação. Deus nos ama infinitamente porque, em Jesus, testemunhou que ele está conosco e não abre mão. Devemos ter não apenas fé em Jesus, mas uma fé como a fé de Jesus, desenvolvendo o infinito potencial humano e regendo-nos pela lógica do amor, com sua humildade, compaixão, devotamento e cuidado, mas também com sua profunda indignação diante de toda e qualquer injustiça, o que nos pode custar algum preço.

 frei Gilvander Luís Moreira