O QUE NÃO SE RECUPERA

Existem quatro coisas na vida que não se recuperam: a pedra, depois de atirada; a palavra, depois de proferida; a ocasião, depois de perdida; e o tempo, depois de passado.

A pedra é a fera adormecida em cada um de nós, o ímpeto agressivo, a sanha assassina, a dor que não se aplaca, a ferida aberta, o orgulho machucado, o ressentimento aflorado, o ódio incontido, a raiva acumulada, a emoção esgarçada.

A pedra no meio do caminho, como assinalou o poeta. Pedra na qual tropeçamos e, humilhados, apanhamos para transferir a outrem os próprios erros. Por isso Jesus, em sua sabedoria, desafiou os que acusavam a mulher adúltera a atirar a primeira pedra. Todos baixaram as mãos e o rosto. Um a um foram se afastando, envergonhados. Seus pecados não eram menores que os dela.

A palavra é a essência do humano diante do silêncio do Universo. As estrelas, o mar, as flores e os pássaros proferem o mesmo dizer, sem jamais ofender. Nós, seres humanos, fazemos da palavra arte ou agressão, ternura ou injúria, poesia ou acidez. E raramente agimos como aquela índia aimara que, à beira do lago Titicaca, na fronteira do Peru com a Bolívia, levou quinze minutos refletindo antes de responder à pergunta que eu lhe fizera.

Foi a palavra que criou o mundo, e se fez carne. É a palavra insana que destrói a criação e promove guerras, dissemina discórdia, semeia a morte. "Lavra a tua palavra e lava a tua língua antes de pronunciar o teu dizer", disse-me seu Canuto, camponês de Cordisburgo, a terra que gerou Guimarães Rosa, que recriou a palavra.

A ocasião é o cavalo encilhado que passa à frente. Monta-se ou perde-se. Mas também é ela que faz o ladrão, sobretudo quando não se tem princípios éticos, caráter, refinamento espiritual, coerência de vida. Esses abraçam a ocasião equivocada e morrem de vergonha quando se torna pública.

A ocasião exige atenção, critério, discernimento, coragem. Sem ousadia não se abraça uma oportunidade, uma causa, um ideal, a utopia. Deixam escapar a boa ocasião os pusilânimes, os inseguros, os que dão mais ouvidos à boca alheia que à voz do coração.

A matéria-prima da Bíblia é o tempo, argila da historicidade. Javé não é um deus qualquer. É o Deus de um determinado percurso no tempo: o Deus "de Abraão, Isaac e Jacó". Ao contrário de outros deuses, que em sua onipotência criariam de modo instantâneo (deuses-café solúvel), Javé criou a prazo, em sete dias.

Isso faz sentido se consideramos que o contrário do tempo não é a eternidade. É o amor. Ao irromper no tempo histórico como presença viva de Deus-Amor, Jesus nos convocou a nada mais esperar. "Esgotou-se o tempo" (Marcos 1,15), como quem proclama: "Já não há o que aguardar. Resta amar". E "se o amor faz passar o tempo e o tempo faz passar o amor", como diz o provérbio italiano, nada mais irreconciliável com o tempo do que o amor. Bem o sabem os amantes, que gostariam de parar no infinito os ponteiros de seus relógios.

A modernidade, entretanto, nos faz escravos do tempo, ao contrário dos antigos e dos índios aldeados, donos do tempo. Basta observar que trazemos no pulso a algema do tempo, dividido em horas, minutos e segundos. Assim, já não nos damos tempo, nem temos tempo: para meditar, conversar, amar, divertir. É como se fôssemos náufragos perdidos em alto-mar, lutando sofregamente para sobreviver às ondas avassaladoras do tempo que ameaçam nos afogar.

Bem vale lembrar o sábio poema de frei Antônio das Chagas (1831-1882):

"Deus pede estrita conta do meu tempo

e eu vou do meu tempo dar-lhe conta,

mas como dar, sem tempo, tanta conta,

eu que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo,

o tempo me foi dado e não fiz conta

não quis, sobrando tempo, fazer conta,

hoje quero acertar conta e não há tempo.

Ó vós que tendes tempo sem ter conta,

não gasteis vosso tempo em passa-tempo.

Cuidai, enquanto é tempo, de vossa conta,

pois aqueles que sem conta gastam o tempo,

quando o tempo chegar de prestar contas,

chorarão, como eu, o não ter tempo".

Frei Betto