MULHERES  E  PODER*

As securas do poder

O poder, na vida da maioria das mulheres, tem acontecido como uma experiência de exclusão e de dominação. Isto se dá pelo fato de que o poder é exercido, em seu sentido geral, como possibilidade de impor os próprios interesses, postura que é permitida e legitimada num sistema patriarcal.*** Nesta estruturação, as mulheres são relegadas ao âmbito doméstico, onde normalmente as relações de poder que circulam são restritas às questões de família, de educação de filhos e filhas, de reprodução. As esferas de poder que culturalmente têm sido espaço das mulheres estão ligadas com assuntos que não são considerados incisivos nas grandes temáticas que movem a história, pois esta é lida a partir do mundo público.
Esta é a realidade cotidiana da maioria das mulheres. Esta está marcada por uma formação de conceitos morais cristãos que são aprendidos na família, na escola ou nas ruas, mas de uma maneira especial, nas igrejas. Estas idéias fundamentam uma forma de poder que se constrói e se experimenta desigual. Para efetuar transformações nestas concepções fixas é preciso que um processo de desconstrução seja desencadeado. Na realidade, então, é preciso “desempoderar” primeiro. Faz-se necessário um movimento de destituir poder, de desfazer e de fazer movimentar/circular o poder.

Para as mulheres, articular a voz, poder dizer e nomear as suas experiências é um ato de poder. Falar sobre as experiências, verbalizar o cotidiano como espaço de poder é um primeiro passo na construção de relações distintas entre os gêneros. A realidade nas igrejas é que a maioria de seus fiéis são mulheres. Contudo, neste espaço, se experimenta um discurso sobre as mulheres, uma palavra dita em lugar das mulheres. Uma fala moldada pelo falo, pelo poder androcêntrico e masculino. Uma palavra que quer normalizar e enquadrar, por isso é autoritária e excludente.
Estas experiências revelam as securas, as amarguras e as desilusões com esta forma de exercer o poder. Muitas mulheres se vêem envolvidas nesta dinâmica de exercer o poder. Muitas vezes o fazem por insegurança, por necessidade de aprovação, por se sentirem bem nos espaços concedidos pelos homens em suas estruturas patriarcais. Contudo, outras possibilidades jorram ao encarar o poder como relação ou como habilidade.

O fator de complicação não está no acesso do poder, mas na forma de sua concentração. Feministas propõem outras abordagens em relação ao poder. Há diversas formas de poder: um poder sobre, que está baseado na dominação e no controle; mas, há um poder desde-dentro, que se configura nas inter-relações, ou um poder-com, que se experimenta nas redes de relações sociais. O poder e a resistência andam juntos. A partir de ações empoderadas se criam novas realidades, são transformadas as situações de dor e tristeza.

Um enfoque mais amplo, que resgata os poderes das mulheres, pode ajudar a redirecionar as formas de discutir os papéis masculinos e femininos construídos cultural e socialmente e que permitem o uso de qualquer tipo de violência, seja sexual, física ou psicológica. O poder, enquanto relação, é dinâmico e em movimento. A condição de vítima da mulher se dá enquanto é ela quem sofre a violência. Contudo, na abordagem da situação e do contexto da violência, busca-se contornar um acercamento que vitimize a mulher, que a tome como objeto, obviando sua condição de sujeito. Uma aproximação que unicamente vê a mulher como vítima faz dela um ser passivo, incapaz de decidir e dar rumo a sua vida e de estabelecer resistências. Neste sentido, entender o poder entrelaçado nas redes de relações, ajuda a perceber as pessoas envolvidas nestas redes como sujeitos das ações e não unicamente como vítimas.

A mulher, o balde e o poder

Uma história que sempre me impressiona nesta discussão de poderes e acessos e não acessos é o texto de Jo. 4, da samaritana que encontra Jesus e juntos estabelecem um diálogo teológico profundo.

Este texto aponta para diversas rupturas em questões de poder. Uma ruptura que quero destacar aqui é a que Jesus entra em território da mulher, se aproxima de um poço, que é outro espaço das mulheres. Naqueles dias, e ainda hoje, as mulheres são responsáveis em providenciar a água. Cisternas, poços e fontes de água representam para as mulheres a extensão do mundo privado para dentro do mundo público. As mulheres conhecem este espaço e as regras que orientam o seu uso (Gn 21,19; 24,11-17). É este espaço que Jesus adentra. É um espaço da mulher, da samaritana. É sua terra. Por isso, ele pede água. É ela quem tem o instrumental de acesso à água: o balde. Por isso, ela estranha quando ele lhe oferece água. “Senhor, tu não tens com o que tirar, e o poço é fundo, onde, pois, tens a água viva?” (v.11). Esta fala demonstra um saber, um conhecimento em assuntos de poços e como se tira água. O instrumental está nas mãos dela, e ela faz questão de interrogar aquele homem que lhe quer oferecer algo que ela tem como conseguir.

É este movimento que quero destacar para discutir relações de poder. O poder não se dá, não se concede, não se permite. O poder vem das relações e vem de dentro. O poder está nas mãos da samaritana, quando ela questiona e discute sobre o seu saber com Jesus. O poder está com Jesus quando ele a questiona perguntando por outras águas que saciam outras sedes. Jesus não dá poder a ela. Ambos estabelecem relações nas quais o poder circula e se movimenta. Esta é uma perspectiva que é poderosa, pois estabelece relações que pressupõem sujeitos ativos e participantes na trama social.

Encharcando-se de poder

Esta perspectiva de abordagem do texto da samaritana que encontra Jesus no poço permite a discussão da temática do poder a partir de elementos que conformam a realidade cotidiana das pessoas. Esta é a perspectiva da Teologia Feminista que se constrói a partir da premissa de tomar as experiências cotidianas como lugar de reflexão teológica. Perguntas pelos novos paradigmas como o cotidiano, a experiência, a subjetividade, são tópicos que ensaiam uma outra proposta de construção do saber e do poder. Apontam para caminhos metodológicos que redefinem o poder como uma dinâmica que permeia as relações pessoais e sociais.
Esta é uma postura que concebe o poder não unicamente a partir de suas ações coercitivas e negativas, mas resgata os seus elementos positivos e produtivos. “O poder não apenas nega, impede, coíbe, mas também “faz”, produz, incita,”****, conforme as palavras de Guacira Lopes Louro. Essa forma de exercer o poder é explicitar que temos acesso a mecanismos de poder. Implica não assumir a posição de vítimas. Como mulheres estamos inseridas nas tramas de poder que conformam a sociedade e as instituições que nela se estruturam. O que passa é que muitas vezes, como sujeitos sociais marginalizados, as mulheres não têm acesso ao poder de mando, de definir conceituações e de exercer autoridade.

Entender que o poder é dinâmico e se mistura nas nossas relações ajuda no processo de tornar as mulheres sujeitos de suas ações. Tornar-se sujeito implica assumir as responsabilidades e nomear a sua existência. É o que se tem definido de processo de empoderamento das mulheres. Nesta dinamicidade não se pode afirmar que, uma vez conquistado, o poder está com as mulheres. Assumir espaços de poder e de significação de poder requer um exercício cotidiano de avaliação, de reflexão e de abertura. Esta postura impede que haja cristalizações nos espaços de poder.

Os papéis e as construções de gênero são produzidos nas e pelas relações de poder. Aquilo que as sociedades, através de suas convenções culturais, constroem, para definir os entendimentos acerca do que se entende por feminino e masculino, insere-se nas dinâmicas de distribuição de poder. Na sociedade patriarcal, androcêntrica (centrada num modelo hegemônico e idealizado de homem), as concepções em torno do masculino são a regra que normatiza e delimita os gêneros. A norma é definida pela masculinidade hegemônica. Tudo o que não se encaixa nesta máxima é a exceção, é o outro, é feminino, e, portanto, inferior, marginalizado e excluído.
Contudo, na dinâmica de entender o poder como força que se constitui nestas relações, esta posição de ser outro que as mulheres ocupam não está destituída de mecanismos de poder. Em outras palavras, ter um espaço delimitado, que normalmente é o doméstico, não quer dizer que as mulheres não possam transformar as situações de não-poder aparente, nos moldes da oficialidade, em situações de poder. É um poder que se conforma na resistência, nas entrelinhas e nas margens, mas é poder. Se não, não poderíamos analisar as resistências das mulheres como força que as mantém vivas.

O que estou propondo é que os mecanismos de análise tradicional que normalmente são usados para “medir” o poder sejam desmantelados. Se seguimos no esquema tradicional de ver quem ocupa os espaços, normalmente imbuídos de poder, constatamos que são os homens, ou algumas mulheres, que recebem a permissão patriarcal de acessar o poder. Já temos, contudo, ensaios de poder de forma diferenciada. Um poder que foi conquistado pela organização, pela pressão, pela resistência, muitas vezes silenciosa de tantas mulheres, muitas anônimas. É esta situação de poder que quero destacar. É o poder que se dinamiza, pois assume formas e jeitos diferenciados. Não unicamente porque é exercido por mulheres, pois isto reforçaria uma visão ingênua e essencialista de que as mulheres são mais sensíveis e democráticas. Mas porque a história de resistência, que se inscreve nos corpos das mulheres, imprime uma marca de exercício de poder que se molda na luta, nos espaços pequenos, nas brechas e fendas, às margens.

Esta é a idéia de poder que se localiza não unicamente no poço, a partir da história da samaritana, mas que se localiza no balde, na caneca, na concha, pois é o instrumento que se usa para tirar a água. O instrumental colocado a serviço e socializado permite o acesso ao poço a mais pessoas. O saber socializado, de como se usa o instrumental, colabora no processo de apropriação e democratização dos espaços de poder.

Elaine Neuenfeldt**

*Texto publicado no Boletim Por Trás da Palavra, n. 146, jan.-fev./2004.

**Elaine Neuenfeldt é coordenadora da Dimensão de Gênero do CEBI e diretora adjunta da mesma organização. Pastora Luterana, é titular da cadeira de Teologia Feminista na EST – Escola Superior de Teologia, em São Leopoldo-RS.

***MAASSEN,Monika. Poder/Domínio. In. GÖSSMANN, Elisabeth, et alli (Org.). Dicionário de Teologia Feminista. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 396.

****LOPES LOURO, Guacira. Gênero, sexualidade e educação. Uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis: Vozes, 1999, p. 40.