MARIA, MARIAS...

a estranha mania de ter fé na vida (1)

(Mt 1,1 - 17)

        Faz calor na Bahia. O céu é profundamente azul em Salvador. Um céu que abraça o mar manso na Bahia de Todos os Santos. Terra de gente negra, a Bahia. Tudo o que é bom, neste chão-mar, tem cheiro de gente negra: da comida para a música, passando pela religião. Terra de gente empobrecida, a Bahia.
A doença do cacau faz das muitas fazendas lugares abandonados e, no abandono, a fome de muitos toma conta do pedaço. Quantas crianças trabalhando na Bahia... Quanta gente no desemprego, na fome e no abandono nesta grande Bahia de Todos os Santos, que é o Brasil. Faz calor em Salvador. As muitas igrejas impregnadas do ouro dos colonizadores, senhores de escravos, são hoje o descanso e o refresco para quem quer se proteger do sol implacável das primeiras horas da tarde.
            Entro, eu também, na igreja para escapar alguns minutos do calor sufocante. No meio dos anjos barrocos, do ouro dos altares e dos muitos santos, uma mulher está sentada no banco da igreja. Uma jovem negra com o rosto cansado. Uma mulher que passa despercebida entre os anjos barrocos, o ouro dos altares e a multidão de santos.
            Uma jovem mulher negra com uma criança no colo. Paro para olhar a criança. É um nenê pequeno, subnutrido, com enormes olhos negros. Olhos tão grandes e negros como o mar numa noite sem luar. Aqueles olhos grandes e negros param para me olhar e, depois de alguns instantes, se abrem numa linda gargalhada.
            A jovem mãe me pergunta baixinho, com uma voz envergonhada, se não quero levar para mim aquele nenê. Ela está sozinha e doente, tem outros filhos num pequeno cômodo da cidade velha. Não está mais conseguindo pagar os 10 reais de aluguel por semana; o pai das crianças foi embora, deixando-a doente e sozinha. Para ela é impossível dar de mamar ao nenê porque o tumor está no seio. A única coisa que a jovem mãe possui é uma caixa de isopor. Poderia ter gelo e alguns refrigerantes para vendê-los pelas ruas aos turistas, mas não tem dinheiro; a caixa, vendida por menos do seu valor, assegurará ainda por uma semana o aluguel do cômodo na cidade velha.
            Sinto-me tão pobre frente a tamanha dor. Abraço a mãe e a criança. O meu colo acalenta a dor gelada de uma mãe numa igreja entre anjos, santos e altares.
            Acaricio aquele rosto negro molhado de lágrimas. Falo palavras doces para a mãe e para o nenê.
            Com os olhos cheios de lágrimas, a jovem mãe me pergunta de novo, baixinho, se não quero para mim o nenê.
            “Tu escuta a dor da gente. Tu pára e olha para nós. Tu és de Nanã, a mãe de todos os orixás. Eu sei que tu vai cuidar dele, eu sei que tu cuida da vida. Eu gosto de tu.”
            Naquela igreja, escapando do calor da Bahia, entre anjos, santos e altares, olhando para o rosto de uma jovem mãe e para os olhos negros de jabuticaba madura de um nenê, me veio ao coração um conto da Bíblia.
            Quando a comunidade do evangelista Mateus quis relatar a “certidão de nascimento” de Jesus, foi contando de 14 em 14 gerações (Mt 1,1 - 17). No tempo da comunidade de Mateus, nas coisas escritas, só se lembrava do nome do pai, um pouco como ainda hoje acontece em muitos convites de festas nas nossas regiões. Mas a comunidade de Mateus colocou, entre os antepassados de Jesus, o nome de algumas mulheres: Tamar, Raab, Rute e Bersabéia.
            Tamar, tataravó de Jesus que, para defender o direito, a justiça e a vida, viu-se obrigada a se prostituir (Gn. 38,1ss.).
            Raab, tataravó de Jesus, prostituída pelos poderosos do tempo, defendeu a vida dos fracos e o Projeto de Deus (Js. 2,1ss.).
            Rute, tataravó de Jesus, mulher estrangeira e de “outra religião”, defendeu o direito e a vida da velha Noemi (Rt. 3,1-15).
            Bersabéia, tataravó de Jesus, mulher violentada e calada na corte do rei Davi, mulher que, como muitas mães, viu morrer a sua criança matada pela ganância dos poderosos (1 Sm. 11,2 - 5). São estas, junto com Maria, as únicas mulheres que a comunidade de Mateus coloca na “certidão de nascimento” de Jesus.
            Mulheres da luta quotidiana pela sobrevivência. Mulheres com as mãos calejadas e os olhos molhados de lágrimas, o corpo e a alma feridos por causa dos poderosos que só fabricam fome, desemprego, violência e a morte de crianças...
            Tamar, Raab, Rute, Bersabéia, Maria... mulheres santas, simples e cotidianas, dos nossos altares de mulheres, altares de cozinha que não cheiram ouro, mas suor e luta pela defesa da vida, custe o que custar. Tamar, Raab, Rute, Bersabéia, Maria... Marias... Santas simples e “arretadas” que, nas lágrimas e no grito, continuam com essa estranha mania de ter fé na vida. Minhas amadas mães na fé... Nossas amadas mães na esperança...
            Faz calor na Bahia. Escapo do sol quente entrando numa igreja. Lá no meio de anjos, ouro e santos nos altares, sentada num banco, está uma mulher com o seu nenê. Não conheço o nome dela, poderia ser Maria, mas ouvi bem o nome do pequeno com os olhos de jabuticaba madura: Emanuel – “Deus conosco”.
            E a jovem mãe me diz sorrindo: “Volte sempre. Foi bom conversar, gostei de tu. Eu vou ficar com o meu filho”

Maria Soave - assessora do CEBI

(1) Texto extraído do Livro Luas... Contos e en-cantos dos evangelhos, publicado pelo CEBI em co-edição com a Paulus Editora.