O  GAROTO  MAICON  E  AS  ELEIÇÕES

Um sorriso bonito fácil que atravessa todo o seu rostinho moreno deixa aparecer os dentes levemente separados. Olhos castanhos bem acessos, cabelos espetados, nove anos, muito esperto. Esse é o Maicon. Um garotinho que estuda na mesma escola que meu filho Raí. A escola é a Escola de aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina uma ótima escola pública federal, gratuita e de qualidade.

 Três semanas após o retorno das férias de julho ficamos sabendo que o Maicon não estava vindo às aulas. Já havia faltado uns 15 dias. O motivo: estava com sarna e piolhos e enquanto não melhorasse não poderia entrar na escola.

 A mãe dele morreu no parto no dia em que ele nasceu. Havia uma senhora, que também tinha um filho nessa mesma escola, era vizinha deles e ajudava o Maicon a vir para a escola. Através dela ficamos sabendo que o pai estava desempregado e bebendo bastante. O pai já não aceitava as sugestões da vizinha. Pegamos o telefone dele e ligamos dizendo que a gente estava preocupada com o Maicon, pois ele poderia perder o ano. Ele já reprovou o primeiro ano, e pelas normas do colégio, quem reprova dois anos perde a vaga. As vagas são disputadíssimas, e por lei são decididas em sorteios públicos. O pai disse que não tinha dinheiro para comprar os remédios. Nos oferecemos para ajudar e ele aceitou. Levamos o Maicon num barbeiro para cortar os cabelos e depois compramos os remédios e o levamos para nossa casa por três dias consecutivos para fazer o tratamento completo dele e de suas roupas. Ele tinha também uma barriga grande característica de criança com verminose.

 Disse que tinha um irmão mais velho. E era esse irmão que levava uns cachorros para dentro de casa e os colocava na cama. Ele disse que antes esse irmão era maior que ele, mas agora ele, o Maicon já era maior que seu irmão mais velho. Disse que o irmão fingia que ia para a escola, mas “pegava a pipa ficava brincando por aí”.

 Quantos como o Maicon, seu irmão e seu pai estão por aí nesse abandono, desorientados e sem condições de resolverem os seus problemas! Revelam como andam as instituições sociais de nossas cidades. Revelam também o quanto muitos de nós e nossas igrejas estamos afastados das escolas públicas, dos postos de saúde, da vida dos pobres nas periferias.

 Na Escola onde o Maicon estuda, há um grupo de estudantes de medicina, enfermagem, de serviço social, que fazem estágio. Mas em parte por causa da burocracia e em parte por comodismo e desinteresse, estes atendem somente as crianças que vêm à escola. Não vão até as casas dos que têm problemas e faltam às aulas. Não vão ver a situação em que moram nem fazem um acompanhamento mais completo. Há na comunidade da Serrinha, que em grande parte é formada por moradias de baixa renda, onde o Maicon mora um posto de saúde. Da mesma forma o pessoal do posto não vai até a casa dele. Disseram que têm os remédios, que os distribuem gratuitamente, mas o pai deve ir pessoalmente ao posto para buscá-los. Há ainda uma instituição de apoio social, mantida por verbas governamentais e por entidades eclesiais, doadores e pessoas voluntárias, com algumas profissionais do ensino e da assistência social. O Maicon passa as manhãs lá. Recebe lanche e reforço escolar, além de espaço para brincar e desenvolver algumas habilidades manuais e artísticas. As responsáveis dessa casa até notaram a ausência dele, sabem do caso, mas foram ao posto de saúde e diante da postura do posto de saúde dizem estar de “mãos atadas”.

 Elas nos disseram algo que já tínhamos notado e conversado com o Raí, disseram que o Maicon era marginalizado na Escola porque era da favela, mas elas disseram também que lá na favela ele era marginalizado pelas crianças da Serrinha porque estudava numa escola da Universidade...para elas “uma escola de ricos”...Talvez tenha sido por isso que ele tenha respondido não, quando perguntamos se, nos quinze dias que faltou às aulas, sentiu falta da escola, se ficou triste ou com saudades.

 As creches e escolas públicas, postos de saúde e serviços públicos de assistência e apoio social, assim como as pessoas que vivem nas periferias, estão praticamente abandonadas à sua própria sorte ou azar. Mesmo as associações de moradores dessas comunidades já parecem ter perdido as esperanças. Não há mais dinheiro para isso, dizem os governantes. Parece que é assim mesmo. Poucos sindicatos de trabalhadores de fato lutam para mudar essa situação. São poucas as comunidades cristãs, as igrejas que se organizam para pressionar os poderes públicos e lutar por melhorias nessas instituições. Ao contrário, muitas vezes o que se busca são melhores salários para poder procurar escolas, saúde e previdência social particulares. E assim somos todos um pouco neoliberais. Aceitamos e permitimos que o Estado se retire dessas funções. Quem pode, busca resolver seus problemas nessas áreas recorrendo a estabelecimentos de ensino, de saúde e de previdência privada. Para alguns até alcançar isso é uma benção de Deus. No entanto, para os pobres e a classe média baixa, a maioria da população ficam os serviços públicos municipais, extremamente sucateados, insuficientes e geralmente com baixa qualidade.

 Períodos de eleição sempre são períodos de opções e de escolhas. Que sejam também momentos de avaliar nossos critérios. Que como cristãos e como comunidades cristãs possamos ter os muitos “Maicons” que existem por aí, com todos seus irmãos, mães e pais, como nossos guias, como nossos critérios de avaliação de governos, legislaturas, práticas e propostas. Florianópolis ostenta um título de Capital Criança, obtido graças a políticas assistenciais focalizadas nas gestantes e no acompanhamento das crianças até que estas completem um ano de idade. Se a criança morrer depois de um ano de idade já não é contabilizada para a taxa de mortalidade infantil, dessa idade para frente ninguém se interessa muito por elas. Assim é relativamente fácil e barato alcançar baixas taxas de mortalidade infantil, sem nenhum tipo de investimento em saneamento básico, moradia popular, creches, pré-escolas, saúde infantil e políticas eficientes de geração de renda emprego e integração dessas famílias pobres. É louvável o acompanhamento das gestantes e seus recém-nascidos, mas nossa dívida social vai muito além disso.

 Mesmo nós como igrejas, precisamos reforçar a solidariedade com os mais pobres. Não podemos admitir que parte dela ou toda a sociedade os abandone. São pessoas, são vidas, deve haver tanto ou mais dinheiro para elas do que há para construções, para estradas, para pagamento de dívidas obscuras. Na verdade hoje praticamente só não se faz o que não se quer fazer. Diante dos desafios levantados pela questão do empobrecimento e da exclusão, ao invés de se desfiar desculpas, justificativas que não justificam, deveríamos dizer que não queremos resolver essa questão. Ou de fato acreditamos que se as comunidades cristãs quisessem resolver o problema da pobreza e mobilizassem suas energias para pressionar os poderes públicos, para buscar alternativas, para construir uma sociedade mais justa nós não poderíamos fazer isso?

 A política partidária pode não ser assunto das comunidades cristãs. Mas a vida concreta dessas milhares de pessoas que vivem na pobreza e na exclusão deve ser. Existe cristianismo onde não haja um genuíno e concreto compromisso com os pobres? Há cristianismo onde não haja solidariedade com esses que vivem na miséria e no abandono? Que sentido tem a partilha ritual do pão na eucaristia sem luta por uma melhor e mais justa partilha das rendas, terras e riquezas que são frutos de toda a sociedade e não podem beneficiar somente uma minoria?  Por isso como comunidades devemos abraçar a defesa da vida dessas pessoas, como comunidades devemos discutir quais as melhores soluções para elas e como comunidades procurar acompanhar a solução dos problemas. Dentro desse quadro cada um e cada uma de nós deve procurar também avaliar seu voto. Qual a proposta partidária, qual a prática partidária e pessoal do candidato ou candidata que mais favorece e promove a criação de espaços e do exercício da solidariedade? Em qual delas o Maicon, seu irmão, seu pai, e todos os outros e outras como eles terão um futuro melhor?

 Que o Maicon, com seu sorriso, ilumine nossa caminhada.

Luiz José Dietrich