INSERÇÃO   DO   PENTECOSTALISMO CATÓLICO 

 NORTE-AMERICANO  EM  GOIÂNIA

O trabalho analisa a inserção do pentecostalismo católico norte-americano (Renovação Carismática Católica) em Goiânia (1973), após a participação do frade franciscano Juvenal Leahy num retiro espiritual1 ministrado pelos padres George Kosicki (C.S.B) e Haroldo Rahm (S.J), no convento Mãe Dolorosa. 2 Em seguida, deu-se a expansão deste catolicismo para às paróquias da Arquidiocece, quando os fiéis organizaram grupos de oração e consolidaram cultos de identidade pentecostal na Igreja Católica de Goiânia.

Os padres franciscanos que se instalaram em Goiás pertenciam à Província Franciscana do Santíssimo Nome de Jesus, de Nova Iorque. Esses sacerdotes têm uma longa história que é relatada pelo historiador da Ordem, frei Alexandre Wyse. “Durante a segunda guerra mundial, em 1943, o então arcebispo de Goiás, Dom Emanuel Gomes de Oliveira, solicitou à Província Franciscana do Santíssimo Nome de Jesus, de New York, a fundação de uma missão da Ordem em nosso Estado de Goiás”. No convite do arcebispo aos franciscanos norte-americanos, ele falou sobre a ampliação das atividades da Ordem no Estado de Goiás, confirmando a possibilidade de se fundarem escolas e colégios para o exercício da fé religiosa: “A primeira turma composta por quatorze frades chegou ao Estado, no final de 1943, e se estabeleceu nas cidades de Anápolis, Catalão, Pirenópolis e Pires do Rio”. Logo assumiram a direção de quatro paróquias nessas cidades (Wyse, 1989). Foi bastante difícil o início das atividades desses missionários, pois as condições das cidades, das paróquias e das casas em que foram instalados dificultavam a realização dos seus trabalhos. No decorrer dos anos, a obra missionária dos franciscanos adquiriu significados não apenas como projeto religioso, mas também na fundação de casas paroquiais, escolas e colégios. Eles deram um novo sentido e impulso à educação religiosa e escolar nas cidades onde permaneceram; construíram também hospitais e casas de saúde para atender à população necessitada. Esses sacerdotes mostraram-se simpáticos ao movimento carismático da cidade de Anápolis, bem como no de Goiânia. Possivelmente a origem norte-americana da Ordem contribuiu para isso, destacando as atividades dos frades João Batista Vogel, Juvenal Leahy, Donário Falconeri e Vilmar Rodrigues de Oliveira. Pode-se, portanto, afirmar que a propensão natural do “carisma franciscano” propiciou considerações e identidades por parte desses frades para com essa matriz católica também de gênese norte-americana, conforme o seguinte relato do padre Wyse: "Entre os frades, a renovação carismática também tem seus promotores. Frei João Batista, bem cedo, interessou-se por esse movimento renovador que surgiu nos meados da década de 70. Prova da difusão e do apreço do movimento entre os fiéis foi um encontro coordenado por Frei Vilmar, em Anápolis, em abril de 1980, que reuniu seiscentas pessoas, vindas, principalmente, de nossas paróquias franciscanas".

Frei Vilmar Rodrigues de Oliveira ingressou na Custódia do Santíssimo Nome de Jesus em Goiás, no ano de 1971, foi sacerdote na paróquia São Francisco de Assis, em Goiânia, época em que coordenou encontros da Renovação Carismática e incentivou a organização de grupos de oração em cidades goianas. Constatamos, ainda, que esses frades contribuíram para a inserção dos cultos carismáticos nas cidades de Anápolis, Goiânia, Porangatu, Brasília, entre outras.

O frei fraciscano Juvenal Leahy (norte-americano) veio para o Brasil em 1960, antes de ser transferido para a Arquidiocese de Goiânia, exerceu o sacerdócio em outras cidades no Estado de Goiás. Como padre, organizou e incentivou um grupo de oração carismática na paróquia São Francisco de Assis, Setor Universitário, e, para tanto, buscou o apoio tanto na cidade de Anápolis como de católicos em Goiânia, que freqüentavam as missas semanais e os demais encontros naquela paróquia. Esforçou-se para a consolidação desses cultos convidando outros católicos para participarem dos encontros no grupo de oração coordenado por ele. Nesse sentido, Costa relatou: "O frei quis trazer uma experiência de Anápolis, pois lá já existia a Renovação antes de Goiânia. Enviou católicos da sua paróquia a Anápolis, para participarem das reuniões carismáticas naquela cidade. Eu fui a Anápolis para conhecer como o movimento estava funcionando, retornando deixei de participar do cursilho de cristandade e fui participar do grupo de oração do Frei Juvenal; quando eu senti que o grupo não crescia, as irmãs de Anápolis orientaram-me para fazer vigílias".

Constatamos por meio de relatos de carismáticos que em Anápolis o movimento de imediato se estabeleceu e se fortaleceu junto aos católicos, levando em consideração que o frei João Batista Vogel foi um dos promotores das experiências de “batismo no Espírito Santo”. Incentivou a formação dos grupos de oração carismática naquela diocese. Os fiéis enviados àquela cidade retornaram a Goiânia e empenharam-se nas atividades religiosas do grupo orientado por frei Juvenal.

"Após experiências vivenciadas entre os membros anapolinos, o resultado foi surpreendente, levando-se em conta o empenho de católicos que colaboraram e participaram, incentivando os encontros semanais na paróquia, conseguindo superar as dificuldades iniciais, reunindo fiéis e promovendo cultos de louvores".

As atividades do grupo de Goiânia, posteriormente, foram coordenadas por Sebastião Bernardino da Costa, que havia freqüentado o Cursilho de Cristandade, e fora convidado pelo frei Juvenal Leahy para coordenar os encontros semanais da Renovação Carismática. Outros católicos foram atraídos pela fé e também passaram a freqüentar as reuniões na paróquia franciscana, no setor Leste Universitário.

Do primeiro grupo de oração surgiram outros nas paróquias: Sagrado Coração de Maria, setor central; Nossa Senhora Auxiliadora (Catedral Metropolitana), setor central e Capela Santo Antônio, no bairro de Campinas. Assim, a prática carismática conquistou outros católicos e multiplicaram-se os grupos de oração nas paróquias da Arquidiocese de Goiânia.

Desse modo, a Renovação Carismática consolidou-se no catolicismo apenas pelas orações aclamorosas de louvores ao Espírito Santo. Apresentou-se como uma prática religiosa que satisfazia as aflições daqueles que se sentiam insatisfeitos com os cultos católicos ainda num modelo de silêncio e com as manifestações do catolicismo tradicional e também com as propostas da Igreja Progressista.

Constatamos que o movimento de Renovação Carismática se expandiu com muita rapidez pelas paróquias da Arquidiocese de Goiânia, apesar das ressalvas dos arcebispos Dom Fernando Gomes dos Santos e, mais recentemente, as de Dom Antônio Ribeiro de Oliveira e de padres identificados com a Teologia da Libertação ligada à atuação politizadora da Igreja. Nesse sentido, Sebastião Bernardino da Costa, como pioneiro do movimento carismático ressaltou: "[Para os carismáticos] foi muito difícil, até com proibições de Dom Fernando. Agora, uma vantagem Deus teve. O Arcebispo não acreditava que [o movimento] crescia, talvez, por que eles [as pessoas ligadas à Arquidiocese de Goiânia] não acreditavam e ela [a Renovação Carismática] foi crescendo e, quando tomaram conhecimento, não tiveram condição de voltar atrás".

Observa-se, que o depoente se referia aos membros da Igreja Católica que optaram pela Teologia da Libertação e direcionaram as atividades católicas num processo de militância religiosa e política.

Constata-se, entretanto, que alguns católicos sentiram-se atraídos por essas práticas católicas de espiritualidade extrovertida e de cultos mais pentecostais.

Nesse sentido, o arcebispado de Goiânia dialogou com líderes da Renovação Carismática, tentando evitar conflitos mais profundos no interior da instituição local. Apesar dos objetivos pastorais da instituição católica, o movimento carismático adentrou-se a todas as paróquias por meio de grupos de oração. Desse modo, a inserção, a expansão e o fortalecimento dessa matriz ocorreram sem o apoio do arcebispo Dom Fernando Gomes dos Santos e, posteriormente, sem a permissão de Dom Antônio Ribeiro de Oliveira, que se manifestou oficialmente sobre a “Escola de Evangelização 2000 dirigida em Goiânia pela Renovação Carismática Católica”. Declarou o Arcebispo, num documento por ele assinado em 10 de outubro de 1988: "A Escola e a Renovação Carismática insistem com seus adeptos para que participem dos trabalhos das paróquias, porém há dois estilos e duas linguagens, e as atividades do movimento e, a presidência do mesmo, são mais importantes do que os trabalhos pastorais das paróquias e da Arquidiocese e mais forte do que o Arcebispo.

Há um acentuado conteúdo espiritualista e intimista nos programas e orações, valorizando demais os problemas individuais - psicológicos e esvaziando os comunitários -sociais.

... se descobre um leitura bíblica fundamentalista e individualista, bem parecida com a das Igrejas pentecostais, uma eclesiologia estreita e anticonciliar, uma missionariedade de conquista, uma visão do mundo totalmente negativa e a excessiva valorização do demoníaco. O elemento teológico que mais preocupa é uma relação direta com Deus, esvaziando todas as causas segundas, chegando a limites de uma fé cega, irracional, que, às vezes, se aproxima do fanatismo".

No referido documento, Dom Antônio Ribeiro de Oliveira chamou a atenção dos líderes da Renovação Carismática pela desobediência quando se instalou na Arquidiocese o “projeto de evangelização 2000”, com cursos programados para Goiânia. Posteriormente, nova posição foi emitida sobre o assunto, na qual o arcebispo ressaltou: "(...) não sou o responsável pela denominada “Escola Nacional de Evangelização 2000”. E não aprovo, seu funcionamento na Arquidiocese de Goiânia. E tomamos esta decisão porque a Escola de Evangelização 2000 se instalou e funcionava na Arquidiocese, em caráter nacional, sem a nossa autorização e sem aprovação eclesiástica oficial...

... Onde fica o relacionamento de diálogo eclesial, que venho procurando manter, com persistência, paciência e reta intenção, com a Renovação Carismática?".

Estas posições afloraram o conflito entre a Arquidiocese e os líderes do movimento carismático em Goiânia. Numa leitura mais atenta observa-se em algumas passagens do documento a tentativa de se buscar a convivência quando o arcebispo manifesta abertura e continuidade de um diálogo eclesial. 

Constatamos que a importância do movimento carismático foi a ressignificação da prática religiosa no cotidiano do fiel, que se reconverteu a esse catolicismo como uma religiosidade que lhe oferecesse possibilidades para o reconhecimento de uma tradição cultural. Legitimou práticas religiosas voltadas  para as exigências de uma sociedade tradicional com os padrões morais, persistindo anseios para: “Uma religiosidade muito voltada para as pessoas em suas individualidades”, e de solução aos problemas de ordem material ou emocional de seus praticantes em detrimento das questões coletivas. Observamos a legitimação de uma religiosidade voltada para sua “pretensa universalização” no contexto sócio-religioso da Igreja de Goiânia.

O contexto histórico que propiciou a expansão da Renovação Carismática Católica, na década de 1970, pela participação de católicos e, em seguida, pela multiplicação de grupos de oração nas paróquias, coincidiu com o crescimento populacional da cidade proveniente das migrações internas provocadas pelo atrativo de ser uma capital jovem e imaginada pelo prisma do desenvolvimento econômico - o “eldorado” dos goianos.

Assim, observamos que, por um lado, o contexto histórico de Goiânia desde a sua fundação possibilitou situações religiosas ora conservadoras, ora numa linha de “conscientização e de politização” e, por outro lado, tornou-se possível a inserção de um catolicismo de cunho mais pentecostal, tal qual o movimento carismático. Este apresentou suas propostas e estruturas sustentadas nos grupos de oração, como freqüentes encontros num salão paroquial, quando os fiéis se reúnem uma, duas ou até três vezes por semana, com duração de duas a quatro horas. Assim:

"Cada grupo faz uma vigília no período noturno, das 22 horas às 6 horas da manhã seguinte. (...) Cada participante do grupo de oração se responsabiliza, diante do Senhor Jesus, a fazer uma hora de oração em sua casa, com sua família ou mesmo sozinha. Intercede-se pela santificação do clero em geral, das autoridades civis e militares, por um reavivamento da Fé em Goiânia, pelas obras Pastorais e pela conversão de todo o povo de Deus, para que se realize o “CRESCIMENTO NO CONHECIMENTO E NA GRAÇA DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO”".

Nos encontros semanais, os participantes têm oportunidade de manifestar com liberdade suas emoções expressas em depoimentos de agradecimentos, pedidos de graças, de cura para doenças, de empregos para membros da família e outras aflições. São práticas que se caracterizaram pela crença na manifestação de poderes sobrenaturais, consagrando gestos entusiasmados que fundamentam práticas e vivências, enfatizando comportamentos no modelo proposto pelos carismáticos. A realização desses encontros consolidou uma experiência religiosa que induziu pessoas a freqüentarem o grupo e, desse modo, se inseriu numa poderosa concepção de fé, onde o universo cósmico e histórico é visto por este prisma. Nesse sentido, José Batista Sobrinho afirmou que “muitos membros da RCC agem parecendo que são os mais coerentes na vivência do cristianismo”. Essas práticas e concepções religiosas representam a verdade absoluta da vida humana para o adepto da Renovação Carismática. A identidade desse praticante com o fundamento dos preceitos cristãos não diminuiu, contudo, a influência hegemônica da institucionalidade representada pelo Vaticano, conferindo-lhe uma imagem poderosa enquanto mantenedora das liturgias sagradas. Ainda relatou Batista “Existe uma valorização forte das celebrações como momentos fortes da religiosidade católica. A missa se torna o ponto máximo de presença e participação dos cristãos”.

Observamos a presença dos praticantes nas celebrações católicas, valorizando as cerimônias sacramentais da Igreja, e isso se torna ainda mais enfático, obviamente, quando o padre se identifica com esta matriz. Nesse sentido, entendemos o comportamento e as práticas desses fiéis e, assim, percebemos a diferenciação na concepção e na adoção de linhas católicas durante a missa e demais atos religiosos.

No ano de 1982, totalizavam-se 65 grupos que haviam efetuado registros na sede da Renovação, enquanto que em 1996 existiam 206 grupos de oração nas paróquias. A presença de grupos de oração em vários setores/bairros de Goiânia foi mais marcante.

As atividades da Renovação já haviam se estabelecido por meio desses grupos espalhados pela cidade e classificados por regiões e zonas, quando os líderes realizaram uma assembléia para a oficialização do estatuto do escritório regional (1994). Foi instituído um “colegiado de sete pessoas”, com objetivo de promover “eventos religiosos e sociais”, prestando “ajuda à Associação Servos de Deus”. Os grupos de oração espalhados pela cidade foram submetidos ao colegiado (equipe de serviços), que oficializou o escritório regional da Renovação Carismática por meio de uma ata (abril de 1994), na qual reafirmou as propostas de:

"Encontros de oração, seminários e festivais de músicas, curso de formação integral da pessoa humana e outros; ajudar a Associação Servos de Deus ou atividades filantrópicas que tenham o mesmo objetivo, (...)".

Institucionalizou-se uma “equipe de serviços” sediada em Goiânia. O coordenador geral se encarregou de dirigir o movimento na cidade, bem como de efetivar o intercâmbio com o arcebispado. Essa equipe de serviços mantêm-se informada sobre as atividades executadas nos grupos, por meio de seus líderes. Cada grupo possui um coordenador que é auxiliado por outras pessoas - núcleo formado de fiéis que passaram pelos seminários de preparação.

De modo geral, a expansão carismática fortaleceu-se à medida que adquiriu uma base de apoio pela multiplicação de grupos. O dirigente geral do movimento, Taciano Barbosa, intitulado de coordenador arquidiocesano, afirmou:

"Esses seminários são: experiência de oração dada em um final de semana, fazendo um aprofundamento de um tema específico, por exemplo, santidade ou os sacramentos, e também os seminários de seqüência dados em nove semanas, seguidos com questionário, pesquisa bíblica para aprofundar no “kerigma” para as pessoas terem visão do amor e da experiência de salvação proporcionada por Deus. Ainda existem outros seminários - 2, 3 e 4 -, que são seminários sobre os dons do Espírito Santo para a pessoa saber usar, como orar para cura, evitando o curandeirismo, como dar uma profecia num grupo de oração, como rezar com a pessoa, o que deve falar com uma pessoa doente. Existem os seminários específicos sobre os dons de pregar, de exortar, de ciência para buscar cura interior (nós realizamos muitos). Isto depende da necessidade local, como coordenar um grupo de oração, como conhecer o problema da doutrina com os evangelhos, um aprofundamento sobre as questões doutrinárias da nossa Igreja, e assim por diante".

O controle de presença nesse encontro configura-se por uma fragilidade, pois a busca da prática carismática por meio da freqüência aos encontros semanais se vincula, intimamente, com a solução de problemas particulares de natureza material, psíquica ou emotiva. Nesse sentido, Taciano Barbosa enfatizou que: “é difícil precisar [a quantidade exata] uma estimativa dos participantes nesses grupos, pois a permanência das pessoas é bastante flexível”. Obtendo ou não os resultados, muitas vezes, as pessoas deixam de freqüentar enquanto outras pessoas crêem que é a solução para todos os problemas.

Verificamos que a apropriação dos textos bíblicos evidencia um quadro que modela os seus “pensamentos e condutas”. Os carismáticos carregam a Bíblia e com freqüência realizam uma leitura dos versículos numa versão fundamentalista, interpretando-os em favorecimento das suas perspectivas sócio-religiosas dentre outras. Relata Batista:

"É a valorização da Bíblia como instrumento principal da revelação da vontade de Deus. A Bíblia é vasculhada de ponta de ponta a ponta, bem como a mestra na orientação da vida do dia-a-dia. Nesse tipo de leitura bíblica há margem para muitas interpretações estritamente individuais da Palavra de Deus".

 Da mesma forma estão as literaturas e as publicações da Renovação Carismática, bem como o uso da Bíblia e dos juramentos que se fazem sobre ela. Entendemos que os seus fiéis seguem constantemente os mesmos discursos, pois as mensagens e os modelos são aceitos, tendo em vista que instituem recriações e combinações ou determinam resistências.

A espiritualidade carismática, na cidade de Goiânia, engendrou entre os seus praticantes novos hábitos nas leituras, nas músicas, no comportamento público e privado dos fiéis e na utilização dos objetos de produção carismática, tais como: CDs com músicas de louvores, terços, fitas de vídeo com gravações de eventos, camisetas com frases que enfatizam alguma oração ou encontro. Esta prática de fé preencheu a busca do fiel pelo sagrado como algo que é conquistado e torna-se verdadeiro.

O movimento carismático se afirmou pela quantidade de grupos espalhados, realizando eventos de aclamação ao Espírito Santo e encontros que canalizaram a sua prática religiosa em defesa de um projeto de Igreja Católica nos moldes pentecostais, combatendo a pobreza espiritual  proposta pelo Evangelho. Desse modo, as práticas religiosas são configuradas como barganhas, uma vez que o fiel está sempre convicto dos méritos recebidos por intermédio do Espírito Santo e se considera um “servo de Deus” e, por isso, sente-se “sempre recompensado” por tudo que ocorre no cotidiano, tal como relata a depoente Dalva de Souza Beda. Na perspectiva de se “salvar” das coisas tidas como pecaminosas no contexto histórico, a busca sagrada não é inútil, pois permite ao carismático considerar-se diferenciado e protegido por uma espiritualidade forte representada pelos cultos de louvores e, simultaneamente, pelos discursos dos líderes do movimento em Goiânia.

A concepção teológica arquidiocesana

Após o Concílio Vaticano II, membros da hierarquia católica mostraram-se favoráveis às mudanças que representavam a abertura e a renovação das suas liturgias, emergindo um novo projeto de Igreja que enfatizou a presença do leigo. O contexto latino-americano marcado pelas diferenças sociais desencadeou uma prática religiosa politizada “junto com os pobres, assumindo sua causa e partilhando de suas lutas”. Esta vertente religiosa projetou um catolicismo que discutiu as condições sócio-econômicas da sociedade latino-americana. Dom Fernando Gomes dos Santos, desde que tomou posse como arcebispo (1957), implantou uma nova face teológica, incentivando projetos que objetivavam uma militância social em benefício de uma população carente. Essas atividades intensificaram-se no ano de 1973, “com os grupos de reflexão em torno da Palavra de Deus, tentando ligar Fé e Vida”. Desse modo, a Arquidiocese de Goiânia demonstrou o seu compromisso com o projeto das pastorais, pois incentivou as reivindicações dos posseiros urbanos pela posse do solo urbano, bem como rearticulou os seus agentes para um trabalho social de conquista dos direitos humanos. Observa-se que parte do clero manteve concepções religiosas, consideradas indispensáveis para uma prática cristã de cunho “libertador”. Dom Fernando foi um incentivador das primeiras Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e do Movimento de Educação de Base (MEB), que tinham, respectivamente, como objetivos: “alfabetização e conscientização” e “organização de pequenas comunidades”. Também demonstrou compromisso com a Reforma Agrária quando assentou 52 famílias numa área de 320 alqueires da Arquidiocese, na fazenda Conceição. Com o intuito de “democratizar e humanizar o uso do solo”, a sua Igreja acolheu a Comissão Pastoral da Terra Nacional (CPT), bem como a Regional. As CEBs integraram-se ao Plano de Pastoral da Arquidiocese, no ano de 1977, e se legitimaram em 1980.

Para consolidar e fundamentar a caminhada transformadora da Igreja de Goiânia, o clero local criou a Comissão Arquidiocesana de CEBs (1982).

Observa-se a existência de um embate religioso de tendências intrinsecamente opostas no interior do catolicismo. Isto está explícito no distanciamento entre a Renovação Carismática e os projetos pastorais da Arquidiocese, o principal eixo de polarização com o catolicismo progressista.

A participação de católicos nesses novos cultos extrovertidos não significou o abandono de suas origens católicas, reintegrando alguns católicos que estavam distantes da Instituição. A indução a esse modelo e o seu reconhecimento objetivava estabelecer uma articulação entre a religiosidade do passado e a do presente, de forma que a primeira se apresentasse por um prisma renovado de “retorno às práticas primitivas da Igreja”. Por outro lado, percebia-se o apoio da Arquidiocese às atividades das pastorais e das CEBs que cresciam junto à classe popular marginalizada residente em bairros da periferia, emitindo mensagens de “solidariedade” e de repúdio aos atos de repressão e violência praticados pelo poder público, como, por exemplo, em agosto de 1984, quando: “(...)150 agentes pastorais - padres, religiosas e leigos - reunidos com o Arcebispo Dom Fernando Gomes dos Santos, aprovaram uma moção de solidariedade a todos os posseiros urbanos de Goiânia em sua luta pelo direito à moradia.”

Constatamos o significado religioso do movimento carismático e a sua trajetória, que consolidaram práticas religiosas que aproximaram os seus adeptos de um modelo sagrado e os distanciaram das pastorais e das CEBs, em Goiânia. Como relatou o padre franciscano Juvenal Leahy: "a RCC deu prioridade à vida interior, vida de oração, numa época em que o ativismo reinava em muitas paróquias da Arquidiocese. Também, a busca dos dons do Espírito, a imposição das mãos e os cantos carismáticos ajudaram as reuniões, criando uma diferença bem notável de demais reuniões de outros movimentos. Em geral, o carismático é muito fiel à Igreja, com algumas exceções bem conhecidas entre nós. Este vínculo depende muito da atitude do pároco da Igreja, se ele não gosta da RCC, o vínculo será frágil".

Identificamos na linha da Renovação Carismática as transformações religiosas e a ênfase em princípios sentimentais tidos como prioritários às práticas da institucionalidade católica. Desse modo, os carismáticos afirmaram a sua ligação e permanência no catolicismo diferenciando-se dos demais praticados pela Igreja de Goiânia, à medida que direcionaram “a vida religiosa na esfera da intimidade”, preservando intensamente o “controle moral da família, dos costumes e da sexualidade”, enquanto se revelaram alheios e desinteressados “dos problemas coletivos, e, por conseguinte, da militância política”, principalmente sobre às discussões sócio-políticas como propostas religiosas. Verificamos isto nas palavras e nos gestos dos praticantes, como relata Sebastião Bernardino da Costa:

"A Renovação Carismática não desperta para um trabalho político social e também não exclui nem rico e nem pobres; congrega indivíduos das diversas classes sociais. Já a Teologia da Libertação, com a sua proposta político-social direcionada à classe popular, excluía o rico".

O objetivo fundamental da Renovação passou a ser uma prática religiosa que tivesse como prioridade os louvores e a contemplação de um Deus tido como vivo entre os seus fiéis, buscando a sua institucionalização através da “promoção humana” do indivíduo carente como projeto social. As atitudes dos arcebispos de Goiânia podem ser interpretadas como de equilíbrio em relação aos cultos carismáticos no interior da Arquidiocese, admitindo a sua expansão pelas paróquias e, deste modo, resguardando a unidade da Instituição, porém, alertando os seus líderes quanto aos exageros nos cultos.

As origens norte-americanas da Renovação Carismática Católica e as latino-americanas da Teologia da Libertação definem claramente os interesses políticos opostos. A primeira é a daqueles que louvam e agradecem ao “Senhor” 24 horas por dia. E a segunda é a dos que querem reverter as injustiças sociais impostas pelo capitalismo. Dessa forma, a origem do movimento carismático esteve relacionada às práticas de louvores espirituais tidas como inovadoras, no interior da Igreja de Goiânia, assumiu postura conservadora no embate com a Teologia da Libertação.

Observamos que, por um lado, a expansão dos movimentos sociais, paralelos à rearticulação de várias entidades na esfera da sociedade civil, reivindica a abertura do regime político brasileiro e propõe a reformulação partidária no país; por outro lado, repercute nas atividades da Igreja Católica. Esta, a partir de 1979, foi perdendo a sua fisionomia de privilégio e atuação como instituição, quando se processou a “rearticulação de muitas entidades na esfera da sociedade civil, (...) muitos dos seus militantes abandonaram-na”, indo aliar-se aos partidos políticos em ascensão. Esse quadro refletiu-se em embates políticos e religiosos e num esvaziamento da Igreja que, aos poucos, sentia minar o seu campo para os partidos em ascensão.

A Renovação Carismática pode ser vista pela ótica de um movimento com uma estrutura de serviços isolada das atividades da Arquidiocese. Isto nos leva a entender o distanciamento dos praticantes desses cultos das pastorais, canalizando as suas atividades para uma religiosidade apenas de louvores. Um ritual católico muito louvativo que se repete nos grupos de oração, no encontro anual, nos cursos de preparação e seminários. São práticas religiosas que se voltam para um verdadeiro fanatismo aos dons do Espírito Santo

Maria da Conceição Silva - Unesp

Mestra em História e Cultura pela UNESP/Franca/SP. Professora de Prática de Ensino de História 

no Departamento  de Educação da Faculdade de Educação, Ciências e Letras de Itapuranga.

Professora de História da Igreja Contemporânea no Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás