SEXTA-FEIRA SANTA

O primeiro dia do tríduo pascal

 

A sexta-feira santa, que a Igreja celebra hoje, é uma composição de vários elementos de estilo e prudência bem diversos. A Igreja não vê esse dia como de pranto e luto, mas como dia de amorosa contemplação do sacrifício cruento de Jesus, fonte de nossa salvação. Ela não faz na sexta-feira santa um funeral, mas celebra a morte vitoriosa do Senhor. Por isso, fala-se de paixão “beata” e “gloriosa”.

O elemento fundamental e universal da liturgia desse dia é a proclamação da Palavra, dado que a Igreja, por antiqüíssima tradição, não celebra neste dia a eucaristia. Compõe-se o rito de três partes: a liturgia da Palavra, a adoração da cruz e a cerimônia da comunhão.

a) A liturgia da Palavra

A ação litúrgica atual conserva a forma antiga de celebração da Palavra. A reunião compreendia – já em seus inícios – um serviço de leituras, cantos e preces que se conservou substancialmente até agora. Deparamos assim com a entrada em silêncio, que nos conduz no tempo em que não havia antífona de entrada. Depois da prostração e de breve oração passa-se diretamente às leituras.

Propõem-se duas orações introdutórias à escolha. Na primeira pede-se ao Senhor que em sua misericórdia santifique e proteja sempre a sua família ela na qual Jesus inaugurou em seu sangue o mistério pascal; a segunda se inspira por inteiro em 1Cor 15, 45-49.

A primeira leitura é um bom trecho do quarto cântico do Servo de Iahweh, o mais rico de ensinamento e o mais importante do ponto de vista teológico. A Igreja lê nesse dia a palavra profética de Isaías. É o Novo Testamento que dá pleno sentido à personalidade do Servo sofredor, vendo-a realizada na pessoa de Jesus; por isso antigamente se chamava esse cântico “o evangelho da paixão e morte de Jesus”.

A igreja oferece a primeira resposta à palavra de Deus valendo-se do salmo 30, cujo versículo 6 Jesus pronunciou na cruz (Lc23, 46). Com isso a liturgia atribui a Jesus o salmo inteiro, encontrando nele a descrição de sua paixão e de seu pleno abandono nas mãos do Pai.

Toma-se a segunda leitura da carta aos Hebreus (4, 14-15; 5, 7-9). Depois de Isaías nos apresentar o “o homem das dores”, o texto de Hebreus ressalta que a figura do Servo encontra realização não só em Jesus, mas também no “sumo sacerdote” a quem se deve a nossa fidelidade e confiança. Como resposta à palavra do apóstolo e preparação à escritura da narrativa da paixão, a assembléia canta o texto de Paulo aos Filipenses ( 2, 8-9), glorificando o Senhor por sua palavra.

O evangelho é o relato de Jo 18, 1-19.42 que a igreja reserva, não sem motivos, para esse dia precisamente pela perspectiva com que o apóstolo apresenta a vida e a morte de Jesus.

A liturgia da sexta-feira santa quer ajudar-nos a compreender os sinais da divindade e glória de Jesus, fixando nossa atenção não tanto na descrição de seu sofrimento humano mas na apresentação daquele aspecto.

Depois da leitura da Sagrada Escritura e da homilia, a liturgia da Palavra termina com as orações solenes (=Oração Universal) segundo o esquema ordinário da antiga prece litúrgica: convite, intenções, prece em silêncio, unificação ("coleta") das preces por parte do presidente da assembléia reunida.

A oração universal ou dos fiéis chegou-nos, por meio da liturgia da sexta-feira santa, em sua forma mais rica e clássica. O formulário atual data do séc. V, mas o estilo das preces que o compõem é sem dúvida mais antigo. O missal de Paulo VI introduziu alguns retoques a esse venerando formulário para adaptá-lo à situação presente.

Não devemos deixar de assinalar a teologia que emerge do lugar que essas orações solenes ocupam depois da proclamação da palavra de Deus. A assembléia, iluminada e interpelada pela palavra, abre-se à caridade orando pela igreja, pelo papa, pelas ordens sagradas, e por todos os fiéis, pelos catecúmenos, pela unidade dos cristãos, pelos judeus, pelos não-cristãos, pelos que não crêem em Deus, pelos governantes e pelos atribulados...

b) A adoração da cruz

Nesse momento da celebração deveria começar a liturgia eucarística. Mas na sexta-feira santa a Igreja não celebra a ceia do Senhor. A liturgia volta-se toda ela para o sacrifício cruento de Jesus, e não para o rito que é seu memorial. Em lugar da Eucaristia fazem-se a apresentação e a adoração da cruz.

Esse rito nasce como conseqüência da proclamação da paixão de Jesus. É como que uma celebração épica da vitória de Jesus Cristo sobre o mundo e o pecado mediante a cruz. Canta Jesus Cristo sofredor e já proclama sua ressurreição valendo-se de belíssima antífona de origem bizantina: “Adoramos tua cruz , Senhor, louvamos e glorificamos tua ressurreição Veio do lenho da cruz alegria para o mundo inteiro”. Como se percebe a Igreja não separa a morte da ressurreição de Jesus.

As origens históricas desse rito devem sem dúvida ser buscadas em Jerusalém, onde o encontramos já no séc. IV, sendo-nos conhecido graças à Egéria e Cirilo de Jerusalém . Passou muito cedo ao Ocidente, ao passo em que outros lugares ele vai sendo cada vez mais dramatizado segundo um esquema igualmente provindo de Jerusalém, mas de época posterior ao séc. IV. Hoje o rito latino reproduz um cerimonial solene que se caracteriza pelo cântico do traiságio bizantino e pelos “impropérios” (diálogos literários entre Jesus e o povo), com evidente inspiração oriental, levados a Roma em torno do séc. IXX, talvez via Benevento.

Ao terminar a adoração, põe-se a cruz sobre o altar, que é símbolo do sacrifício e sacerdócio de Jesus Cristo. A assémbleia contempla seu Senhor. (Jo 19,37).

c) O rito da comunhão

Retomando a parte da habitual celebração da eucaristia que sucede ao cânon, e começando pelo pai-nosso, sem o rito da paz ou o Cordeiro de Deus, que tinham sido feitos na eucaristia em que as hóstias foram consagradas, essa parte da celebração não passa de mero rito de comunhão.

Parece que no antigo uso romano havia dupla tradição segundo a qual o papa e seus ministro não faziam a comunhão na sexta-feira santa , ao passo que o resto do clero e o povo podiam fazê-la em outras igrejas. No séc. XII, Inocêncio III estabeleceu que tanto o povo como os ministros não comungavam, reservando a comunhão somente ao presidente da celebração. Ora, essa disposição encontrou resistências notáveis até o extremo de encontrarmos testemunhas da prática anterior ainda aos séc. XVI – XVII.

Em 1955, com a reforma da semana santa feita por Pio XII reintroduziu-se, após discussões inflamadas, a prática da comunhão na sexta-feira santa.

Abre-se com certeza o perigo de desenfoque do ponto culminante do tríduo: a participação na eucaristia da vigília pascal e o significado do alitúrgico. Não obstante, se apresentarmos a realidade de modo adequado, será possível ressaltar o aspecto positivo do rito: toda comunhão feita fora da missa sempre é comunhão com Cristo que se oferece por nós em sacrifício ao Pai. E é esse o aspecto específico a sublinhar.

A solene ação litúrgica da paixão e morte do Senhor termina com uma oração e com a benção pronunciada sobre o povo.

O jejum pascal

Como sinal exterior da participação interior do sacrifício de Jesus (2 Cor 4, 11), e como de sinal que chegamos aos dias em que nos tiraram o Esposo (cf. Lc 5, 33 – 35), a sexta-feira santa é dia de Jejum.

A tradição do jejum pascal e antiqüíssima. Tertuliano e Hipólito atestam que em Roma a celebração anual de páscoa começava com o jejum na sexta-feira santa que se prolongava por todo o sábado até a celebração da eucaristia da vigília pascal na noite do sábado para o domingo. A duração de jejum nessa época restringia-se no tempo a dois dias somente, mas estendia-se e praticava-se de forma muito rigorosa.

A constituição sobre a liturgia do Vaticano II (SC 110) ratifica a prática primitiva para a sexta-feira santa e aconselha-a para o sábado. Esse jejum chama- se pascal para que nos faça perceber o “transitus”, a passagem da paixão à alegria da ressurreição. Compreende-se, por isso, que não se tenha o jejum pascal como elemento secundário mas como parte integrante da celebração do tríduo sacro.