PENTECOSTES

 

Repletos do Espírito Santo

“Quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um barulho como o sopro de um forte vendaval, e encheu a casa onde eles se encontravam. Apareceram então umas línguas de fogo e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram repletos do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme a inspiração do Espírito”. (At 2,1-4)

 

Com estas palavras, o autor dos Atos dos Apóstolos narra a experiência profunda da efusão do Espírito Santo sobre os seguidores de Jesus. Evento de ontem e de hoje, a solenidade cristã chamada Pentecostes, cujo nome se refere à festa judaica homônima, marca a conclusão plena do Mistério Pascal de Cristo. O envio do Espírito, prometido por Jesus durante seu itinerário histórico (Lc 24, 49; Jo 16,7), conclui, de certa forma, a ação salvífica da humanidade, realizada em Jesus Cristo.

 

O texto

O relato não pretende, entretanto, ser historicamente comprovado, mas traduz, de maneira simbólica, a percepção da comunidade cristã diante de seu dinamismo evangelizador. Cada palavra, gesto e símbolos, usados pelo escritor sagrado, remete-nos à uma dimensão profunda da vida de fé e merecem ser dissecados, para uma maior compreensão do texto.

 

Antes, porém, convém ressaltar que a plasticidade do evento narrado por Lucas tem características singulares. Podemos ver sua originalidade contrapondo-a ao relato do evangelista João, no qual o momento da efusão do Espírito sobre a comunidade dos crentes acontece no alto da cruz e no dia da ressurreição (Jo 19,30; 20,21). Mas não é demais afirmar que, em ambos os autores, existe uma inspiração teológica comum: o envio do Espírito Santo sinaliza o nascimento das comunidades (eclesias) cristãs.

 

Mas voltemos ao relato de Lucas. O texto, de magnífica inspiração, serve de maneira paradigmática ao propósito das comunidades de compreender sua vocação missionária. De acordo com Lucas, foi no dia de Pentecostes que o Espírito Santo invadiu a vida de todos da comunidade cristã. O que significa relacionar a efusão do Espírito com a festa de Pentecostes?

 

Pentecostes e Pentecostes

Pentecostes era a festa judaica que fazia memória do evento da Aliança entre Javé e o Povo de Israel, aos pés do Monte Sinai, momento em que a libertação do Egito atingiu seu maior significado teológico. Entre raios, trovões e tremores de terra, Javé entregou ao povo judeu seu maior tesouro religioso, a Lei (cf. Ex 19).

 

Lucas reconstrói esta experiência da história de Israel com referenciais cristãos: no seu Pentecostes não há povo eleito, pois todos são convidados a conhecer, em sua própria língua (cultura), a Boa Nova de Jesus Cristo. As imagens nas quais Deus se manifesta são deveras semelhantes, mas a intenção significativa do texto é absolutamente outra. O Pentecostes cristão é a festa da universalidade da mensagem de salvação de Cristo e supera todo particularismo judaico.

 

Os símbolos usados

Como exemplo, podemos falar do símbolo do fogo, tão caro ao universo de significados da experiência de vida semita. O fogo manifesta a presença de Deus, bastando-nos lembrar Moisés diante da sarça ardente (Ex 3, 1-6). O fogo é movimento, impulso, purificação (Is 66,15-16). Todo crente entendia perfeitamente o significado de ser invadido por divinas línguas de fogo. Já não há como ficar impassível diante da efusão do Espírito de Deus. É preciso anunciar o Evangelho (At 2,4). Outros símbolos marcantes são os que se referem à comunicação provinda do Espírito: línguas, ruídos, voz, palavras. É muito claro que o ator central do Pentecostes é o mesmo Espírito Santo de Deus, que entabula um diálogo profícuo com todos os que se dispõem de coração a escutá-lo. E a ação do Espírito através dos discípulos produz abundantes frutos de conversão (At 2,41).

 

Não se pode deixar de mencionar o contraste intencional entre Babel e Pentecostes, tão claramente expressos no texto. Para os judeus, Babel foi sempre símbolo da desarmonia e da confusão, a expressão do orgulho humano em querer subir até a morada de Javé e dominá-lo. Ao mostrar a harmônica variedade das línguas, compreensíveis pelas nações reunidas (referência aos lugares onde já existiam comunidades cristãs florescentes), fica claro que uma nova fase da história da humanidade está se iniciando. Agora é Deus mesmo, que através do Espírito, desce até os homens e mulheres de todos os cantos da terra, unindo-os ao redor da uma Nova Aliança em Jesus Cristo.

 

Pentecostes e Missão

E o que significa celebrar Pentecostes na nossa vida de cristãos? Certamente significa recordar o dinamismo missionário das comunidades primitivas, a ânsia saudável de pregar a Boa Nova, a certeza absoluta de que Jesus Cristo abençoava o projeto de formação de comunidades vivas e atuantes em todas as partes do mundo conhecido. Pentecostes é a solenidade da constituição carismática da Igreja, a festa da universalidade do projeto de Redenção, a celebração da igualdade entre os fiéis e da diversidade dos dons dispensados sobre os homens.

 

Em Pentecostes, a Igreja toma consciência de sua vocação missionária, que se concretiza pelo testemunho qualificado, em nome de Jesus Cristo, para todas as nações, culturas e povos. A catolicidade e a ecumenicidade da Igreja é pentecostal, ou seja, só é entendida a partir da ação singular do Espírito sobre os fiéis cristãos.

 

Pentecostes recorda-nos o mistério pascal de Cristo e lhe dá garantia. Pela liturgia, a Igreja, invocando o Espírito Santo, torna presente, no sacramento da Eucaristia, o mesmo Cristo morto e Ressuscitado, sob as formas do pão e do vinho. É o Espírito que suscita vocações, anima as comunidades, distribui dons e carismas. O Espírito renova constantemente, desde Pentecostes, a vida eclesial. Por isso, a liturgia de Pentecostes canta em uníssono: “Envia teu Espírito Senhor e renova a face da terra”. Os verbos, no presente, certificam nossa fé na ação contínua e frutuosa do Espírito no nosso meio. No Espírito é possível compreender nossa Fé Trinitária.

Fr.Evaldo César de Souza CSSR

ecesouza@yahoo.com.br