CORPUS CHRISTI NA HISTÓRIA

 

Depois da primeira Missa celebrada no Cenáculo de Jerusalém pelo próprio Cristo, as suas palavras: “Tomai e comei, tomai e bebei, isto é o meu Corpo, este é o cálice do meu Sangue derramado por vós, fazei isto em memória de mim” continuam ecoando, respeitadas pela Igreja há vinte séculos. Lê-se em Atos dos Apóstolos, escrito pelo médico, historiador e evangelista São Lucas que na Igreja Nascente os Apóstolos “partiam o Pão de casa em casa”. A celebração da Eucaristia, sacrifício da Nova Aliança de Deus com os Homens, Ceia Sagrada e Sacramento, reunia as primeiras comunidades de Jerusalém e da Ásia Menor.

 

No princípio do século II o filósofo leigo, depois mártir, São Justino, narra em sua “Apologia” que “no dia do sol”, o nosso domingo, os cristãos vindos dos campos e das cidades se reuniam para a Celebração da Eucaristia. Havia as leituras bíblicas, a oferenda do pão e do vinho, o ofertório, a consagração e a comunhão à semelhança do que temos hoje. O “Pão eucaristizado” refere ele, além de distribuído aos fiéis era levado pelos diáconos e acólitos aos confessores da fé, fortalecendo-os para o martírio.

 

Através dos séculos onde se formava uma nova comunidade cristã, a Celebração da Eucaristia tornava-se o “centro e ápice” da vida da Igreja. A leitura de Inácio de Antioquia, bispo e mártir do século II, de outros Padres da Igreja dos primeiros séculos, entre eles Tertuliano e Irineu, nos revela que a fé comum da Igreja era que se tornava presente real, sacramental e misteriosamente, o Cristo total na hóstia e vinho consagrados.

 

Essa sempre foi, desde o princípio, a fé da Igreja comum, também, aos cristãos ortodoxos do Oriente a partir do século XI. E, com alguns enfoques diferentes, até mesmo dos protestantes do século XVI. O Concílio de Trento realizado nesse século definiu que o Pão e o Vinho consagrados transubstanciam-se no Corpo e Sangue de Cristo. Permanecem as espécies, os acidentes do pão e vinho substituídos pela substância do Corpo e Sangue de Cristo.

 

O culto à Eucaristia sempre foi central na vida da Igreja e das Comunidades. Desde o século VI os monges beneditinos centralizam no “Opus Dei”, a celebração solene da Eucaristia, toda a sua vida dedicada à oração e ao trabalho. Desde a Renascença foram se introduzindo na Igreja novas expressões do culto à Eucaristia negada, pela primeira vez, pelos albigenses do século XIII. Multiplicaram-se por todas as igrejas, casas religiosas e comunidades os sacrários cercados de amor e fé, visitados pelos fiéis em adoração ao Senhor presente nas reservas eucarísticas.

 

Com São Pedro Julião Eymard, no século XIX e as Congregações por ele fundadas, os (as) Sacramentinos, nas grandes capitais da Europa, América e mundo passaram a ter os seus Templos Votivos dedicados ao Santíssimo Sacramento, com a adoração diurna e, freqüentemente, também, noturna, ao Santíssimo Sacramento.

Os Congressos Eucarísticos internacionais, nacionais e diocesanos tornaram-se periódicos a partir do século XIX, levando multidões às praças e ruas das maiores cidades dos vários continentes. De um ou outro participaram Papas como Paulo VI e João Paulo II. No Brasil já se realizaram 14, o último na cidade de Campinas, estando em preparação o próximo para o ano de 2005 em Florianópolis (SC).

 

A festa litúrgica de Corpus Christi remonta ao ano de 1264, em que se realizava o conhecido milagre de Bolsena. A primeira dessas festas foi celebrada na cidade belga de Liège estando em suas origens uma religiosa e o arcebispo daquela cidade. Seria um dia para o culto público e oficial, com procissões e Missas solenes. Nesse mesmo ano o Papa Urbano IV estendia a comemoração de Corpus Christi a toda a Igreja. Hoje é das festas mais belas e participadas do ano eclesiástico. As procissões são presididas pelas maiores autoridades religiosas de cada cidade, pelo Papa em Roma e pelos Bispos em suas Dioceses.

 

Urbano IV confiou a Santo Tomás de Aquino, maior gênio da cristandade no segundo milênio, a elaboração dos textos para a Missa e o Breviário de ontem, a Liturgia das Horas dos nossos dias. A seqüência de sua autoria “Lauda Sion Salvatorem” é uma jóia do hinário católico à qual pode ser comparada o clássico “Panis Angelicus”, cantado em grandes ocasiões nas igrejas de todo o mundo.

 

Os tapetes floreais, com expressivos símbolos eucarísticos – o Cordeiro Imolado, o Pelicano que se sacrifica pelos filhotes, o cesto com pães – vieram acrescentar um novo esplendor à celebração do Corpus Christi. Também eles são uma significativa expressão da fé e do amor da Igreja ao dom que Cristo fez de si mesmo, realizando o que prometeu na sinagoga de Cafarnaum, instituído na Última Ceia no Cenáculo de Jerusalém.

 

“Eu sou o Pão Vivo descido do Céu. Quem comer da minha Carne e beber do meu Sangue terá a vida em si e Eu o ressuscitarei no último dia. O meu Corpo é em verdade uma comida e o meu Sangue é em verdade uma bebida” (Jo 6). Só nos resta, a nós cristãos, agradecer o dom da Eucaristia que realiza a promessa de Cristo “Estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28).

Dom Amaury Castanho