APRESENTAÇÃO DO SENHOR

Embora esta festa de 2 de fevereiro caia fora do tempo de natal, é parte integrante do relato de natal. É uma faísca do natal, é uma epifania do quadragésimo dia. Natal, epifania, apresentação do Senhor são três painéis de um tríptico litúrgico.

É uma festa antiqüíssima de origem oriental. A Igreja de Jerusalém já a celebrava no século IV. Era celebrada aos quarenta dias da festa da epifania, em 14 de fevereiro. A peregrina Eteria, que conta isto em seu famoso diário, acrescenta o interessante comentário de que se "celebrava com a maior alegria, como se fosse páscoa"'. De Jerusalém, a festa se propagou para outras igrejas do Oriente e do Ocidente. No século VII, se não antes, havia sido introduzida em Roma. A procissão com velas se associou a esta festa. A Igreja romana celebrava a festa quarenta dias depois do natal.

Entre as igrejas orientais esta festa era conhecida como "A festa do encontro" (em grego, Hypapante), nome muito significativo e expressivo, que destaca um aspecto fundamental da festa: o encontro do Ungido de Deus com seu povo. São Lucas narra o fato no capítulo 2 de seu evangelho. Obedecendo à lei mosaica, os pais de Jesus o levaram ao templo quarenta dias depois de seu nascimento para apresentá-lo ao Senhor e fazer uma oferenda por ele 1.

Esta festa começou a ser conhecida no ocidente, a partir do século X, com o nome de Purificação da bem-aventurada virgem Maria. Foi incluída entre as festas de Nossa Senhora. Mas isto não totalmente correto, já que a Igreja celebra neste dia, essencialmente, um mistério de nosso Senhor. No calendário romano, revisado em 1969, o nome foi mudado para "A Apresentação do Senhor". Esta é uma indicação mais verdadeira da natureza e do objeto da festa. Entretanto, isso não quer dizer que subestimemos o papel importantíssimo de Maria nos acontecimentos que celebramos. Os mistérios de Cristo e de sua mãe estão estreitamente ligados, de maneira que nos encontramos aqui com uma espécie de celebração dupla, uma festa de Cristo e de Maria.

A bênção das velas antes da missa e a procissão com as velas acesas são características chocantes da celebração atual. O missal romano manteve estes costumes, oferecendo duas formas alternativas de procissão. é adequado que, neste dia, ao escutar o cântico de Simeão no evangelho (Lc 2,22-40), aclamemos a Cristo como "luz para iluminar às nações e para dar glória a teu povo, Israel".

Significado da festa

A festa da Apresentação celebra uma chegada e um encontro; a chegada do Salvador esperado, núcleo da vida religiosa do povo, e as boas-vindas concedida a ele por dois representantes dignos da raça eleita, Simeão e Ana. Por sua proveta idade, estes dois personagens simbolizam os séculos de espera e de fervoroso anseio dos homens e mulheres devotos da antiga aliança. Na realidade, representam a esperança e o anseio da raça humana.

 

Ao reviver este mistério na fé, a Igreja dá novamente as boas-vindas a Cristo. Esse é o verdadeiro sentido da festa. É a "Festa do Encontro", o encontro de Cristo e sua Igreja. Isto vale para qualquer celebração litúrgica, mas especialmente para esta festa. A liturgia nos convida a dar as boas-vindas a Cristo e a sua mãe, como o fez seu próprio povo de então: "Ó Sião, enfeita teu quarto nupcial e dá boas-vindas a Cristo Rei; abraça a Maria, porque ela é a verdadeira porta do céu e traz o glorioso Rei da luz nova"2.

 

Ao dramatizar desta maneira a lembrança deste encontro de Cristo com Simeão, a Igreja nos pede que professemos publicamente nossa fé na Luz do mundo, luz de revelação para todo povo e pessoa.

Na belíssima introdução à benção das velas e a procissão, o celebrante lembra como Simeão e Ana, guiados pelo Espírito, vieram ao templo e reconheceram a Cristo como seu Senhor. E conclui com o seguinte convite: "Unidos pelo Espírito, vamos agora à casa de Deus dar as boas-vindas a Cristo, o Senhor. O reconheceremos na fração do pão até que venha novamente em sua glória".

Refere-se claramente ao encontro sacramental, ao que a procissão serve de prelúdio. Respondemos ao convite: "Vamos em paz ao encontro do Senhor"; e sabemos que este encontro será na eucaristia, na palavra e no sacramento Entramos em contato com Cristo através da liturgia; por ela temos também acesso a sua graça. Santo Ambrósio escreve deste encontro sacramental em uma página insuperável: "Te revelaste face a face, ó Cristo. Em teus sacramentos te encontro".

Função de Maria. A festa da apresentação é, como dissemos, uma festa de Cristo antes do que qualquer outra coisa. É um mistério de salvação. O nome "apresentação" tem um conteúdo muito rico. Fala de oferecimento, sacrifício. Recorda a auto-oblação inicial de Cristo, palavra encarnada, quando entrou no mundo: “Eis-me aqui para fazer tua vontade". Aponta à vida de sacrifício e à perfeição final dessa auto-oblação na colina do Calvário.

Dito isto; temos que passar a considerar o papel de Maria neste acontecimentos salvíficos. Depois de tudo, ela é a que apresenta a Jesus no templo; ou, mais corretamente, ela e seu esposo José, pois ambos pais são mencionados. E perguntamos: Tratava-se exclusivamente de cumprir o ritual prescrito, uma formalidade praticada por muitos outros pais? Ou guardava uma significação muito mais profunda que tudo isto? Os padres da Igreja e a tradição cristã respondem que sim.

Para Maria, a apresentação e oferenda de seu filho no templo não era um simples gesto ritual. Indubitavelmente, ela não era consciente de todas as implicações nem da significação profética deste ato. Ela não contemplar todas as conseqüências de seu fiat na anunciação. Mas foi um ato de oferecimento verdadeiro e consciente. Significava que ela oferecia seu filho para a obra da redenção com a que ele estava comprometido desde o princípio. Ela renunciava a seus direitos maternais e a toda pretensão sobre ele; e o oferecia à vontade do Pai. São Bernardo expressou muito bem isto: "Oferece teu filho, santa Virgem, e apresenta ao Senhor o fruto bendito de teu ventre. Oferece, para reconciliação de todos nós, a santa Vítima que é agradável a Deus".

á um novo simbolismo no fato de que Maria coloca a seu filho nos braços de Simeão. Ao agir desta maneira, ela não o oferece exclusivamente ao Pai, mas também ao mundo, representado por aquele ancião. Dessa maneira, ela representa seu papel de mãe da humanidade, e nos lembra que o dom da vida em através de Maria.

Existe uma conexão entre este oferecimento e o que acontecerá no Gólgota quando serão executadas todas as implicações do ato inicial de obediência de Maria: "Faça-se em mim segundo tua palavra". Por essa ração, o evangelho desta festa carregada de alegria não nos exime da nota profética: "Eis que este menino está destinado para a queda e ressurgimento de muitos em Israel; será sinal de contradição, e uma espada atravessará tua alma, para que sejam descobertos os pensamentos de muitos corações" (Lc. 2,34 - 35).

O encontro futuro. A festa de hoje não se limita a nos permitir reviver um acontecimento passado, mas nos projeta para o futuro. Prefigura nosso encontro final com Cristo em sua segunda vinda. São Sofrônio, patriarca de Jerusalém desde o ano de 634 até sua morte, em 638, expressou isto com eloqüência: "Por isso vamos em procissão com velas em nossas mãos e nos apressamos carregando luzes; queremos demonstrar que a luz brilhou para nós e significar a glória que deve chegar através dele. Por isso vamos juntos ao encontro com Deus".

A procissão representa a peregrinação da própria vida. O povo peregrino de Deus caminha penosamente através deste mundo do tempo, guiado pela luz de Cristo e sustentado pela esperanças de encontrar finalmente ao Senhor da glória em seu reino eterno. O sacerdote diz na benção das velas: "Que quem as levas para enaltecer tua glória caminhemos no caminho de bondade e vamos à luz que brilha para sempre".

A vela que levamos em nossas mão lembra a vela de nosso batismo. E o sacerdote diz: " guardem a chama da fé viva em seus corações. Que quando o Senhor vier saiam a seu encontro com todos os santos no reino celestial". Este será o encontro final, a apresentação , quando a luz da fé se converter na luz da glória. Então será a consumação de nosso mais profundo desejo, a graça que pedimos na pós-comunh4ao da missa:

Por estes sacramentos que recebemos, enche-nos com tua graça, Senhor, tu que encheste plenamente a esperança de Simeão; e assim como não o deixaste morrer sem ter segurando Cristo nos braços, concede a nós, que caminhamos ao encontro do Senhor, merecer o prêmio da vida eterna.

Homilia do Santo Padre João Paulo II

na solenidade da apresentação do Senhor no templo

1. "Levaram o Menino a Jerusalém, a fim de O apresentarem ao Senhor, conforme o que está escrito na Lei do Senhor" (Lc. 2,22).

Quarenta dias depois do Natal, a Igreja hoje revive o mistério da Apresentação de Jesus no Templo. Revive-o com a admiração da Sagrada Família de Nazaré, iluminada pela plena revelação daquele "Menino" que como a primeira e a segunda leitura acabaram de nos recordar é o juiz escatológico prometido pelos profetas (cf. Ml. 3,1 - 3), o "Sumo Sacerdote misericordioso e fiel", que veio para "expiar os pecados do povo" (Hb. 2,17).

O Menino, que Maria e José levam com emoção ao Templo, é o Verbo encarnado, o Redentor do homem da história!

Hoje, comemorando o acontecimento que nesse dia teve lugar em Jerusalém, também nós somos convidados a entrar no Templo, para meditar sobre o mistério de Cristo, unigênito do Pai que, com a sua Encarnação e a sua Páscoa, se tornou o primogênito da humanidade redimida.

Desta maneira, nesta festividade prolonga-se o tema de Cristo luz, que caracteriza as solenidades do Natal e da Epifania.

2. "Luz para iluminar as nações e glória do teu povo, Israel" (Lc. 2,32). Estas palavras proféticas são proferidas pelo velho Simeão, inspirado por Deus, quando toma o Menino Jesus nos seus braços. Ele preanuncia, ao mesmo tempo, que "o Messias do Senhor" realizará a sua missão como um "sinal de contradição" (Lc. 2,34). Quanto a Maria, a Mãe, também Ela participará pessoalmente na paixão do seu Filho divino (cf. Lc. 2,35).

Por conseguinte, na solenidade do dia de hoje, celebramos o mistério da consagração: consagração de Cristo, consagração de Maria e consagração de todos aqueles que se põem no seguimento de Jesus por amor do Reino.

3. Enquanto saúdo com fraterna cordialidade o senhor cardeal Eduardo Martínez Somalo, que preside a esta celebração, sinto-me feliz por poder encontrar-me convosco, queridos Irmãos e Irmãs que um dia, próximo ou distante no tempo, fizestes o dom total de vós mesmos ao Senhor, na opção da vida consagrada. Enquanto dirijo a cada um a minha saudação repleta de afeto, penso nas grandes coisas que Deus realizou e continua a fazer em vós, "atraindo para si mesmo" toda a vossa existência.

Juntamente convosco louvo ao Senhor, porque Ele é um amor tão excelso e belo a ponto de merecer a dádiva inestimável de toda a pessoa, na imperscrutável profundidade do coração e no desenvolvimento concreto da vida quotidiana, ao longo das várias etapas da vida.

O vosso "eis-me!", modelado em conformidade com o de Cristo e da Virgem Maria, é simbolizado pelos círios que, nesta noite, iluminaram a Basílica do Vaticano. A solenidade de hoje é dedicada de modo particular a vós, que no Povo de Deus representais com singular eloqüência a novidade escatológica da vida cristã. Sois chamados a ser luz de verdade e de justiça, testemunhas de solidariedade e de paz.

4. Ainda está viva a recordação do Dia de Oração pela Paz, vivida há dez dias em Assis. Para essa extraordinária mobilização em favor da paz no mundo, eu sabia e sei que posso contar de maneira especial convosco, caríssimas pessoas consagradas. A vós, também nesta ocasião, exprimo a minha profunda gratidão.

Em primeiro lugar, obrigado pela oração. Quantas comunidades contemplativas, inteiramente votadas à oração, batendo de dia e de noite à porta do coração do Deus da paz, cooperam para a vitória de Cristo sobre o ódio, a vingança e as estruturas de pecado!

Além de o fazer com a oração, muitos de vós, caríssimos Irmãos e Irmãs, edificam a paz com o testemunho da fraternidade e da comunhão, difundindo no mundo como fermento o espírito evangélico, que leva a humanidade a caminhar para o Reino dos céus. Obrigado também por isto!

Além disso, em numerosos campos não faltam religiosos e religiosas que oferecem o seu compromisso efetivo pela justiça, trabalhando no meio dos marginalizados, intervindo nas raízes dos conflitos e contribuindo, desta forma, para edificar uma paz substancial e duradoura. Onde quer que a Igreja se encontra comprometida em defender e promover o homem e o bem comum, ali estais também vós, queridos consagrados e estimadas consagradas. Vós que, para serdes de Deus de modo integral, sois também totalmente dos irmãos. Todas as pessoas de boa vontade vos estão muito gratas por isto.

5. O ícone de Maria, que contemplamos enquanto oferece Jesus no Templo, prefigura o ícone da crucifixão, antecipando também a sua chave de leitura, Jesus, Filho de Deus, sinal de contradição. Com efeito, é no Calvário que alcança o seu cumprimento a oblação do Filho e, unida a esta, também a da Mãe. A mesma espada atravessa ambos, a Mãe e o Filho (cf. Lc 2, 35). A mesma dor. O mesmo amor.

Ao longo deste caminho, a Mater Iesu tornou-se Mater Ecclesiae. A sua peregrinação de fé e de consagração constitui o arquétipo para a peregrinação de cada batizado. É-o de maneira singular para quantos abraçam a vida consagrada.

Como é consolador saber que Maria está ao nosso lado, como Mãe e Mestra, no itinerário de consagração! Além do plano afetivo, encontra-se ao nosso lado mais profundamente a nível da eficácia sobrenatural, demonstrada pelas Escrituras, pela Tradição e pelo testemunho dos Santos, muitos dos quais seguiram Cristo no caminho exigente dos conselhos evangélicos.

Ó Maria, Mãe de Cristo e nossa Mãe, agradecemos-te o cuidado com que nos acompanhas ao longo do caminho da vida, enquanto te pedimos: neste dia volta a apresentar-nos a Deus, nosso único bem, a fim de que a nossa vida, consumida pelo Amor, seja um sacrifício vivo, santo e do seu agrado.

Assim seja!

2 de fevereiro de 2002

 

 

A cooperação da mulher no mistério da Redenção

1. As palavras do velho Simeão, anunciando à Maria sua participação na missão salvífica do Messias, manifestam o papel da mulher no mistério da redenção.

Com efeito, Maria não só uma pessoa individual; também é a "filha de Sião", a mulher nova que, ao lado do Redentor, compartilha sua paixão e gera no Espírito os filhos de Deus. Essa realidade se expressa mediante a imagem popular das "sete espadas" que atravessam o coração de Maria. Essa representação destaca o profundo vínculo que existe entre a mãe, que se identifica com a filha de Sião e com a Igreja, e o destino de dor do Verbo encarnado.

Ao entregar a seu Filho, recebido pouco antes de Deus, para consagrá-lo a sua missão de salvação, Maria se entrega também a esta missão. Trata-se de um gesto de participação interior, que não é só fruto do natural afeto materno, mas que sobretudo se expressa no consentimento da mulher nova à obra redentora de Cristo.

2. Em sua intervenção, Simeão indica a finalidade do sacrifício de Jesus e do sofrimento de Maria: se darão "a fim de que se revelem todas a intenções de muitos corações" (Lc. 2,35).

Jesus, "sinal de contradição" (Lc 2,34), que implica a sua mãe em seu sofrimento, levará os homen a tomar posição a respeito dele, convidando-os a uma decisão fundamental. Com efeito, "está posto para queda e elevação de muito em Israel" (Lc. 2,34).

Assim pois, Maria está unida a seu Filho divino na "contradição", com vistas à obra da salvação.

Certamente, existe o perigo de queda para quem nao acolhe a Cristo, mas um efeito maravilhoso da redenção é a elevação de muitos. Este mero anúncio acende grande esperança nos corações aos quais já testemunha o fruto do sacrifício.

Ao colocar sob o olhar da Virgem estas perspectivas da salvação antes da oferta ritual, Simeão parece sugerir a Maria que realize esse gesto para contribuir ao resgate da humanidade. De fato, não fala com José nem de José: suas palavras se dirigem a Maria, a quem associa ao destino de seu Filho.

3. A prioridade cronológica do gesto de Maria no ofusca o primado de Jesus. O concílio Vaticano II, ao definir o papel de Maria na economia da salvação, lembra que ela "entregou totalmente a si mesma (...) a pessoa e a obra de seu Filho. Com ele e em sua dependência, colocou-se (...) a serviço do mistério da redenção" (Lumen gentium, 56).

Na apresentação de Jesus no templo, Maria coloca-se a serviço do mistério da Redenção com Cristo e em sua dependência: com efeito, Jesus, o protagonista da salvação, é quem deve ser resgatado mediane a oferenda ritual. Maria está unida ao sacrifício de seu Filho pela espada que lhe atravessará a alma.

O primado de Cristo não anula, mas sustenta e exige o papel próprio e insubstituível da mulher. Implicando a sua mãe em seu sacrifício, Cristo quer revelar as profundas raízes humanas dele mesmo e mostrar uma atencipação do oferecimento sacerdotal da cruz.

A intenção divina de solicitar a cooperação específica da mulher na obra redentora se manifesta no fato de que a profecia de Simeão se dirige somente a Maria, apesar de que José também participa do ritual da oferenda.

4. A conclusão do episódio da apresentação de Jesus no templo parece confirmar o significado e o valor da presença feminina na economia da salvação. O encontro com uma mulher, Ana, encerra esses momentos singulares, nos quais o Antigo Testamento quase se entrega ao Novo.

Assim como Simeão, esta mulher não é uma pessoa socialmente importante no povo eleito, mas sua vida parece possuir um grande valor aos olhos de Deus. São Lucas a chama "profetisa", provavelmente porque era consultada por muitos por causa da seu dom de discernimento e pela vida sana que levava sob inspiração do Espírito do Senhor.

Ana era de idade avançada, pois tinha oitenta e quaro anos e era viúva há muito tempo. Consagrada totalmente a Deus, "não se afastava do templo, servindo a Deus noite e dia em jejuns e orações" (Lc. 2,37). Por isso, representa a todos os que, tendo vivido intensamente à espera do Messias, são capazes de acolher o cumprimento da Promessa com grande júbilo. O evangelista refere que, "como se apresentasse naquela mesma hora, louvava a Deus" (Lc. 2,38).

Vivendo de forma habitual no templo, pôde, talvez com maior facilidade que Simeão, encontrar a Jesus no ocaso de uma existência dedicada ao Senhor e enriquecida pela escuta da Palavra da oração.

Na alvorada da Redenção, podemos ver na profetisa Ana todas as mulheres que, com a santidade de sua vida e com sua atitude de oração, estão disposta a acolher a presença de Cristo e louvar diariamente a Deus pelas maravilhas que realiza sua eterna misericórdia.

5. Simeão e Ana, escolhidos para o encontro com o Menino, vivem intensamente esse dom divino, compartilham com Maria e José a alegria da presença de Jesus e a difundem seu ambiente. De forma especial, Ana demonstra um zelo magnífico ao falar de Jesus, testemunhando assim sua fé simples e generosa, uma fé que prepara outros a acolher o Messias em sua vida.

A expressão de Lucas: "Falando do menino a a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém" (Lc. 2,38), parece acreditá-la como símbolo das mulheres que, dedicando-se à difusão do Evangelho, suscitam e alimentam esperanças de salvação.

Catequese de. João Paulo II na audiência geral de quarta-feira - 8 de janeiro

 

 

Maria, mãe animada pelo Espírito Santo

1. Como coroamento da reflexão sobre o Espírito Santo, neste ano a Ele dedicado no caminho rumo ao grande Jubileu, elevamos o olhar para Maria. O consentimento por ela expresso na Anunciação, há dois mil anos, representa o ponto de partida da nova história da humanidade. Com efeito, o Filho de Deus encarnou e começou a habitar no meio de nós, quando Maria declarou ao anjo: «Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38).

A cooperação de Maria com o Espírito Santo, manifestada na Anunciação e na Visitação, exprime-se numa atitude de constante docilidade às inspirações do Paráclito. Consciente do mistério do seu Filho divino, Maria deixava-se guiar pelo Espírito para se comportar de modo adequado à sua missão materna. Como verdadeira mulher de oração, a Virgem pedia ao Espírito Santo que completasse a obra iniciada na concepção, para que o Menino crescesse «em sabedoria, idade e graça diante de Deus e dos homens» (ibid., 2, 52), Sob este aspecto, Maria apresenta-se como um modelo para os pais, mostrando a necessidade de recorrer ao Espírito Santo para encontrar a via justa na difícil tarefa educativa.

2. O episódio da apresentação de Jesus no templo coincide com uma intervenção importante do Espírito Santo. Maria e José tinham ido ao templo para «apresentar» (cf. ibid., 2, 22), isto é, para oferecer Jesus, segundo a lei mosaica que prescrevia o resgate dos primogênitos e a purificação da mãe. Vivendo profundamente o sentido deste rito, como expressão de sincera oferta, eles foram iluminados pelas palavras de Simeão, pronunciadas sob o impulso especial do Espírito.

A narração de Lucas sublinha de maneira expressa a influência do Espírito Santo na vida deste ancião. Ele recebera do Espírito a garantia de não morrer sem ter visto o Messias. E precisamente, «impelido pelo Espírito, veio ao templo» (ibid., 2, 27), no momento em que Maria e José levavam para lá o Menino. É, pois, o Espírito Santo que suscita o encontro. É Ele que inspira ao velho Simeão um cântico que celebra o futuro do Menino, que veio como «luz para iluminar as nações» e «glória para o povo de Israel» (ibid., 2, 32). Maria e José maravilham-se destas palavras que ampliam a missão de Jesus a todos os povos.

É ainda o Espírito que faz com que Simeão pronuncie uma profecia dolorosa: Jesus será «sinal de contradição» e «uma espada trespassará a alma» de Maria (ibid., 2, 34.35). Através destas palavras, o Espírito Santo prepara Maria para a grande provação que a espera, e confere ao rito da apresentação do Menino o valor de um sacrifício oferecido por amor. Quando Maria recebeu o seu Filho dos braços de Simeão, compreendeu que O recebia para O oferecer. A sua maternidade envolvê-la-ia no destino de Jesus e toda a oposição a Ele haveria de se repercutir no seu coração.

3. A presença de Maria junto da Cruz é o sinal de que a Mãe seguiu até ao fim o itinerário doloroso, traçado pelo Espírito Santo pela boca de Simeão.

No Calvário, das palavras que Jesus dirige à Mãe e ao discípulo predileto, emerge outra característica da ação do Espírito Santo: Ele assegura fecundidade ao sacrifício. As palavras de Jesus manifestam precisamente um aspecto «mariano» desta fecundidade: «Mulher, eis aí o teu filho» (Jo 19, 26). Nestas palavras, o Espírito Santo não aparece expressamente. Mas a partir do momento que o evento da Cruz, como a inteira vida de Cristo, se desenrola no Espírito Santo (cf. Dominum et vivificantem, 40-41), precisamente no Espírito Santo o Salvador pede à Mãe que consinta ao sacrifício do Filho, para se tornar a mãe de uma multidão de filhos. A esta suprema oferta da Mãe de Jesus, Ele assegura um fruto imenso: uma nova maternidade destinada a estender-se a todos os homens.

Da Cruz o Salvador queria derramar sobre a humanidade rios de água viva (cf. ibid., 7, 38), isto é, a abundância do Espírito Santo. Mas desejava que esta efusão de graça estivesse ligada ao rosto de uma mãe, a sua Mãe. Maria aparece já como a nova Eva, mãe dos vivos, ou a Filha de Sião, mãe dos povos. O dom da Mãe universal estava incluído na missão redentora do Messias: «Depois, Jesus, sabendo que tudo estava consumado...», escreve o Evangelista após a dupla declaração: «Mulher, eis aí o teu filho» e «Eis aí a tua mãe» (ibid., 19, 26-28).

Desta cena pode-se intuir a harmonia do plano divino em relação ao papel de Maria na ação salvífica do Espírito Santo. No mistério da Encarnação a sua cooperação com o Espírito tinha desempenhado um papel essencial; também no mistério do nascimento e da formação dos filhos de Deus o concurso materno de Maria acompanha a atividade do Espírito Santo.

4. À luz da declaração de Cristo no Calvário, a presença de Maria na comunidade à espera do Pentecostes assume todo o seu valor. São Lucas, que chamara a atenção para o papel de Maria na origem de Jesus, quis ressaltar a sua presença significativa na origem da Igreja. A comunidade é composta não só de Apóstolos e Discípulos, mas também de mulheres, entre as quais Lucas nomeia unicamente «Maria, a mãe de Jesus» (At. 1,14).

A Bíblia não nos oferece outra informação sobre Maria após o drama do Calvário. Mas é muito importante saber que Ela participava na vida da primeira comunidade e na sua oração assídua e unânime. Sem dúvida, ela esteve presente na efusão do Espírito, no dia do Pentecostes. O Espírito que já habitava em Maria, tendo realizado nela maravilhas de graça, agora desce de novo ao seu coração, comunicando dons e carismas necessários para o exercício da sua maternidade espiritual.

5. Maria continua a exercer na Igreja a maternidade que lhe foi confiada por Cristo. Nesta missão materna, a humilde escrava do Senhor não se põe em concorrência com o papel do Espírito Santo; ao contrário, ela é chamada pelo mesmo Espírito a cooperar com Ele de modo materno. Ele desperta continuamente na memória da Igreja as palavras de Jesus ao discípulo predilecto: «Eis aí a tua mãe», e convida os crentes a amarem Maria como Cristo a amou. Todo o aprofundamento do vínculo com Maria permite ao Espírito uma acção mais fecunda para a vida da Igreja.

Quarta-feira 9 de dezembro de 1998

 

Homilia do papa João Paulo II

na festividade da apresentação do Senhor no templo

1. "Quando se cumpriu o tempo da sua purificação, segundo a lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para O apresentarem ao Senhor" (Lc 2, 22). O Menino Jesus entra no Templo de Jerusalém nos braços da Virgem Mãe.

"Nascido de mulher, nascido sujeito à Lei" (Gl. 4, 4), Ele segue o destino de cada primogénito varão do seu povo: segundo a Lei do Senhor, deve ser "resgatado" com um sacrifício, quarenta dias depois do nascimento (cf. Êx. 13,2.12; Lv. 12,1 - 8).

Aquele recém-nascido, aparentemente em tudo semelhante aos outros, não passa despercebido: o Espírito Santo abre os olhos da fé ao velho Simeão, que se aproxima e, tomando o Menino nos braços, reconhece nele o Messias e louva a Deus (cf. Lc. 2,25 - 32). Este Menino profetiza ele será luz das gentes e glória de Israel (cf. ibid., v. 32), mas também "sinal de contradição" (Ibid., v. 34) porque, segundo as Escrituras, realizará o juízo de Deus. E à Mãe admirada, o piedoso ancião prediz que isto acontecerá através de um sofrimento, em que também Ela há-de participar (cf. ibid., v. 35).

2. Quarenta dias depois do Natal, a Igreja celebra este sugestivo mistério gozoso que, de certa forma, antecipa o sofrimento da Sexta-Feira Santa e a alegria da Páscoa. A tradição oriental denomina esta solenidade como a "festa do encontro" porque, no espaço sagrado do Templo de Jerusalém, tem lugar o abraço entre a bondade de Deus e a expectativa do povo eleito.

E tudo isto adquire significado e valor escatológico em Cristo: Ele é o Esposo que vem cumprir a aliança nupcial com Israel. Muitas pessoas são chamadas, mas quantas estão efectivamente prontas a recebê-lo, com a mente e o coração vigilantes (cf. Mt 22, 14)? Na liturgia do dia de hoje contemplamos Maria, modelo daqueles que esperam e abrem com docilidade o coração para o encontro com o Senhor.

3. Nesta perspectiva, a festividade da Apresentação de Jesus no Templo revela-se particularmente adequada para acolher o louvor reconhecido das pessoas consagradas e, com razão, é desde há alguns anos, que se celebra precisamente nesta data a "Jornada Mundial da Vida Consagrada". A imagem de Maria que, no Templo, oferece a Deus o Filho, fala com eloquência ao coração dos homens e das mulheres que fizeram total oblação de si mesmos ao Senhor, mediante os votos de pobreza, castidade e obediência pelo Reino dos Céus.

O tema da oferenda espiritual mistura-se com o tema da luz, intoduzido pelas palavras de Simeão. Assim, a Virgem manifesta-se como um candelabro que apresenta Jesus, "Luz do mundo". Juntamente com Maria, milhares de religiosos, religiosas e leigos consagrados estão reunidos no dia de hoje, no mundo inteiro, para renovar a sua consagração, tendo nas mãos os círios acesos, expressão da sua ardente existência de fé e de amor.

4. Também aqui, na Basílica de São Pedro, se eleva nesta tarde uma solene acção de graças a Deus pelo dom da vida consagrada, tanto na Diocese de Roma como na Igreja universal. Saúdo com profunda cordialidade o Senhor Cardeal Eduardo Martínez Somalo, Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, assim como os seus colaboradores. Saúdo-vos com afecto também a todos vós, Irmãos e Irmãs, religiosos, religiosas e leigos consagrados! Com a vossa numerosa, devota e alegre esperança, vós assumis nesta assembleia litúrgica o rosto da Igreja-Esposa que, como Maria, está totalmente orientada para a plena conformação com a Palavra divina.

Do alto dos seus nichos, ao longo das paredes desta Basílica, os Fundadores e as Fundadoras de muitos dos vossos Institutos velam sobre vós. Eles recordam o mistério da comunhão dos Santos, em virtude da qual, na Igreja peregrina, se renova de geração em geração a escolha de seguir Cristo com uma especial consagração, segundo os múltiplos carismas suscitados pelo Espírito. Ao mesmo tempo, estas veneráveis figuras convidam-nos a dirigir o olhar para a Pátria celestial onde, na assembleia dos Santos, muitas almas consagradas louvam em plena bem-aventurança o Deus Uno e Trino a quem, na terra, amaram e serviram com o coração livre e indivisível.

5. Pobreza, castidade e obediência são as características distintivas do homem redimido, interiormente resgatado da escravidão do egoísmo. Livres para amar, livres para servir: assim são os homens e as mulheres que renunciam a si mesmos pelo Reino dos Céus. Seguindo Cristo, crucificado e ressuscitado, eles vivem esta liberdade como solidariedade, assumindo os pesos espirituais e materiais dos seus irmãos.

Trata-se do multiforme "servitium caritatis", que se exerce no claustro e nos hospitais, nas paróquias e nas escolas, no meio dos pobres e dos migrantes, e também nos novos areópagos da missão. De numerosas formas, a vida consagrada é epifania do amor de Deus no mundo (cf. Exortação Apostólica Vita consecrata, cap. III).

Com a alma reconhecida, no dia de hoje damos graças a Deus por cada um deles. Por intercessão da Virgem Maria, o Senhor enriqueça cada vez mais a sua Igreja com este grandioso dom. Para o louvor e a glória do seu amor, e para a difusão do seu Reino. Amen!

Fonte: http://www.acidigital.com/fiestas/apresentacao/index.html