A IGREJA E AS ELEIÇÕES

O ano de 2002, do ponto de vista político, tem especial importância para os brasileiros, pois, em outubro, haverá eleições nacionais e estaduais para os Poderes Executivo e Legislativo.

 

No sistema democrático, o voto é a maneira de o cidadão exercer o direito e o dever cívico de escolher, com liberdade e responsabilidade, os governantes.

 

O homem é um animal político (Aristóteles). É um ser social. Por isso, deve participar da vida da pólis . Como cidadão, deve interessar-se por tudo o que se refere à vida da comunidade e colaborar para o bem-estar de todos (Tomás de Aquino).

 

A Igreja nutre preferência pela democracia. João Paulo II, na Encíclica Centesimus Annus (nº46), diz que a Igreja vê a democracia de maneira positiva “na medida em que assegura a participação dos cidadãos nas opções políticas e garante aos governados a possibilidade quer de escolher e controlar os próprios governantes, quer de os substituir pacificamente, quando tal se tornar oportuno; ela não pode, portanto, favorecer a formação de grupos restritos de dirigentes, que usurpam o poder do Estado em favor dos seus interesses particulares ou dos objetivos ideológicos”.

 

Mahatma Ghandi dizia que são suficientes poucas coisas para arruinar e destruir uma nação e, entre elas, citava a política sem princípios, o prazer sem consciência, a riqueza sem trabalho, o conhecimento sem qualidade e o convívio sem moralidade.

 

A democracia deve encarnar e promover a liberdade, a verdade, a justiça e os autênticos valores culturais e religiosos do povo. Se não o faz, transforma-se rapidamente em anarquia ou ditadura, abertas ou disfarçadas.

 

O maior problema do Brasil, no sentido mais amplo do termo, é de natureza política. Para solucioná-lo, urge a substituição da crescente decepção do povo diante dos políticos e das instituições por uma vigorosa retomada de critérios éticos como base de toda a ação humana. “A falta de referências éticas leva à degradação, manifestada pela avidez desenfreada da riqueza, do poder e do prazer, onde só contam as vantagens pessoais, o lucro, a produtividade e as leis do mercado, que passam a ser parâmetros absolutos, não levando em conta a dignidade das pessoas e o bem do povo. A crise, nas suas raízes, é também de ordem religiosa, com enfraquecimento da fé e de vivência concreta do Evangelho, e conseqüente desagregação das famílias, em prejuízo especialmente da juventude” (CNBB – Declaração do Conselho Permanente, ago/99).

 

A CNBB está divulgando o documento “ Eleições 2002 – propostas para a reflexão ”, nº 67, (Ed. Paulinas), com o objetivo de despertar a consciência dos cidadãos sobre a importância das próximas eleições. A Igreja não propõe aos eleitores o nome de nenhum candidato ou partido político, mas lhes apresenta, sim, princípios e critérios para que, à luz da doutrina cristã, votem em candidatos honestos, competentes, com passado de serviço à comunidade, ao Estado e ao País. Com o documento, a Igreja quer colaborar para o restabelecimento da dignidade da política como serviço de caridade, abnegação e solidariedade.

 

“É preciso expurgar as eleições de toda espécie de corrupção eleitoral, que instrumentaliza a pobreza do povo e usa o poder econômico e a máquina administrativa para assegurar a continuidade do poder político nas mãos de quem o exerce em proveito próprio, de grupos corporativos ou de organizações partidárias” (CNBB – Declaração do Conselho Permanente, ago/99).

 

A dimensão ética exige, de cada cidadão, a participação no processo eleitoral que se expressa, sobretudo, por meio do voto. Este não é, portanto, facultativo. A abstenção ou a anulação do voto favorecerão, certamente, os candidatos que não gostaríamos de ver no poder. Se nos omitirmos, não teremos, depois, o direito de nos lamentarmos ou de criticar os eleitos pelo mau desempenho na vida pública.

 

Na hora de votar, temos de ter presente que o voto não tem preço, mas conseqüências para cada cidadão e para o País.

 

Dom Raymundo Damasceno Assis

Bispo Auxiliar de Brasília

Secretário-Geral da CNBB