APRENDIZADO  POLÍTICO

Com o início do horário eleitoral gratuito, intensifica-se a campanha para as eleições municipais. Ela se constitui em termômetro para aferir o grau de maturidade política em que estamos, ao mesmo tempo em que se torna escola de aperfeiçoamento da prática democrática.

O horário eleitoral gratuito é embrião do que poderia ser o financiamento público das campanhas eleitorais, visando a igualdade de condições entre todos os concorrentes. Na verdade, este esboço de financiamento público das campanhas é realizado através dos meios eletrônicos de comunicação, TV e Rádio. Em princípio, eles são concessões públicas, e por isto o poder público solicita que prestem este serviço. Ele acaba trazendo uma sobrecarga considerável na programação, e um esforço adicional, sobretudo para as pequenas emissoras de rádio, que deveria ser melhor reconhecido. Em todo o caso, pela maneira como as emissoras de rádio respondem à intimação para colaborar com a campanha eleitoral já é uma demonstração de responsabilidade política, que mereceria uma resposta adequada dos candidatos pelo empenho em utilizar bem esse espaço.

Salta logo aos olhos o desafio de discernir a verdade das aparências. Como uma mercadoria que precisa ser bem apresentada, os programas podem se tornar simplesmente um produto dos “marqueteiros”, escondendo as fragilidades do candidato e a inconsistência de sua articulação política.

Oficialmente, os candidatos representam um partido, ou uma coligação partidária. Temos aí talvez a fraqueza maior de nossa prática democrática, na pouca valorização dos partidos políticos. Pois os partidos têm a incumbência de articular forças políticas, de formular propostas concretas para a solução dos problemas, e de forjar pessoas capazes de efetivar estas propostas.

Sem uma articulação consistente, não se leva adiante nenhum plano político. Os partidos são a instância com a vocação de oferecer um suporte permanente para os administradores públicos.

Muitos eleitores nem sabem de que partido é o candidato em quem vão votar. Este é um voto cego. Do ponto de vista político, é muito enganador o ditado que acabou se fixando na tradição, segundo o qual “devemos votar na pessoa e não no partido”. E' claro que o candidato precisa ser uma pessoa capaz de exercer o cargo que pleiteia. Mas a política se faz com articulação, e não isoladamente. Por isto, para votar bem, é preciso saber com quem está articulado o candidato. Daí a importância dos partidos e das coligações partidárias.

Neste ano, por coincidência, pude ver de perto as eleições na França. Eram regionais, portanto parecidas com as eleições municipais que temos agora entre nós. Para valorizar um ritual antigo, não quiseram adotar a votação eletrônica, mesmo que a França tenha, evidentemente, todas as condições técnicas para organizar urnas eletrônicas. Fiz questão de acompanhar um eleitor, na hora da votação. Mesmo podendo especificar os nomes dos candidatos aos diversos cargos, no segundo turno o voto era dado simplesmente a uma coligação, em vista do programa de governo que ela apresentava.

A coerência precisa se manifestar na sintonia entre o voto para prefeito e o voto para vereador. Pois o poder executivo precisa contar com o apoio do poder legislativo. Por isto, em princípio, quem vota num candidato a prefeito, deveria votar num candidato a vereador do mesmo partido ou da mesma coligação partidária.

A hora é de reflexão. Enquanto os candidatos falam, os eleitores precisam pensar.

D. Demétrio Valentini

bispo de Jales (SP)