CARTA PASTORAL

Fé e política - Orientações sobre as eleições municipais - 2004

No dia 3 de outubro próximo serão realizadas as eleições em todo o Brasil para a escolha dos prefeitos e vereadores de nossos municípios. A escolha destes governantes políticos está diretamente ligada ao presente e ao futuro de nossas comunidades. Por isso, é muito importante a palavra da Igreja na orientação e formação da consciência, estimulando uma participação de qualidade do nosso povo no processo eleitoral. Falando aos bispos brasileiros em Salvador, na Bahia, no dia 6 de julho de 1980, o papa João Paulo II deixou bem claro que a Igreja, “não tem a pretensão de intrometer-se na política, não aspira participar da gestão dos assuntos temporais. Sua contribuição específica será a de fortalecer as bases espirituais e morais da sociedade, fazendo o possível para que toda a atividade no campo do bem comum se processe em sintonia e coerência com as diretrizes e exigências de uma ética humana e cristã”. Esta posição clara do Santo Padre sintetiza um ensinamento central na Doutrina Social da Igreja: os bispos, sacerdotes e religiosos não devem se comprometer com a atividade político-partidária. Este é o campo próprio da atividade dos cristãos batizados, os cidadãos e cidadãs chamados a buscar a promoção do bem comum através da sua prática de vida e da participação nas diversas instâncias políticas. Diante disso, cabe a mim como bispo e também aos padres, sermos educadores para a paz e a justiça, agentes do diálogo, incentivadores de nossas comunidades e com elas construtores de uma sociedade mais justa. Assim, compreendendo o papel da Igreja na dinâmica da disputa eleitoral na sociedade, ofereço as seguintes recomendações:

- Aos sacerdotes e religiosos não convém, em público, especialmente por ocasião das celebrações religiosas, manifestar opiniões ou assumir posições em favor de partidos, candidatos ou propostas concretas e programas de governo;

- Aos líderes das pastorais e movimentos não convém usar seu cargo na Igreja para fazer política, sendo recomendável que os que pleiteiam algum cargo deixem as suas funções na Igreja durante o período da campanha eleitoral.

O papa Paulo VI, escrevendo em 14 de maio de 1971, por ocasião do 80º aniversário da Encíclica “Rerum Novarum”, dava uma diretriz luminosa para a ação política dos cristãos: “Tomar a sério a política nos seus diversos níveis, é afirmar o dever de todos os homens de reconhecer a realidade concreta e o valor da liberdade de escolha que lhes é proporcionada para procurar realizar juntos o bem da cidade, da nação e da humanidade. A política é uma maneira exigente, se bem que não seja a única, de viver o compromisso cristão a serviço dos outros”.

Desta obrigação de participar responsavelmente como um dever da consciência cristã – decorrem as orientações que ofereço aos fiéis da diocese de Toledo:

- Votar conscientemente é um dever de todos, mesmo dos que se acham desencantados com a atuação dos políticos;

- Deve-se votar somente naqueles candidatos comprometidos com o bem comum, que não prometam o que não poderão cumprir, que não busquem a popularidade fácil, que demonstrem capacidade e competência para o cargo pleiteado;

- Não votar nos candidatos mentirosos, reconhecidamente corruptos, cuja campanha se reduza a criticar e a atacar os outros candidatos, que assumam posições contra a moral cristã no campo do direito à vida, da justiça social, da liberdade da pessoa e da honestidade e transparência no trato do dinheiro público;

- É importante procurar conhecer a história dos candidatos, suas ligações políticas e seus compromissos com grupos e interesses, não votando em candidatos que oferecem vantagens ou favores pessoais em troca do voto.

As paróquias e comunidades devem facilitar a comunicação dos candidatos com os fiéis, desde que as reuniões e encontros não aconteçam no interior das igrejas ou capelas, como ambientes sagrados (podem usar salões e salas), e não represente privilégio dado a alguns candidatos e não a outros, mostrando que a Igreja, como tal, não toma partido.

Que o espaço dado seja para apresentar o programa e dar-se a conhecer, não para discursos que venham denegrir ou atacar pessoas ou propagar idéias contrárias aos ensinamentos da fé e da moral cristã.

Não recomendo o uso das dependências paroquiais para comícios políticos. Para lançamento de candidatos ou reuniões partidárias fica a critério dos párocos e administradores.

Que no exercício do dever democrático sintamos a proteção materna da Mãe Aparecida no ano do centenário da sua coroação como Rainha e Padroeira do Brasil. Rezemos pela nossa Pátria a fim de construirmos juntos um país de paz e justiça para todos.

Que Deus Pai abençoe e proteja o bom povo brasileiro, especialmente o povo de nossa diocese.

Com minha benção, em união de orações.

dom Anuar Battisti

bispo da diocese de Toledo (PR)