A MÃE PÁTRIA E AS ELEIÇÕES

Nós a saudamos, no Hino Nacional, com a maior declaração de amor: "Pátria amada, idolatrada!"  Seus filhos, os nascidos e adotados, cantam felizes: "nossa vida em teu seio (tem) mais amores."  Chamam-na de "terra adorada", com "risonhos lindos campos",  com "formoso céu em que resplandece a imagem do cruzeiro" e  um "futuro que espelha grandeza".  A louvação à Mãe Pátria nunca é demais, sobretudo quando vem acompanhada pela prestação de serviços que lhe são devidos e não são negados a nenhum de seus filhos.

Amá-la, de verdade, é praticar a justiça e a solidariedade para com todos os seus filhos. Os índios, os negros, os brancos de diferentes origens e todos quantos vibram de amor patriótico ao cantar o Hino Nacional não podem permanecer indiferentes e alheios frente aos graves problemas que a Mãe Pátria carrega sobre seus já encurvados ombros por mais que ela seja "gigante pela própria natureza": o trabalho infantil, os menores abandonados, o desemprego, a concentração de renda, a má distribuição da terra, o analfabetismo, a violência, a corrupção, a impunidade, a expansão do narcotráfico, a falta de moradias, de escolas e hospitais, a dívida externa, e outros muitos, quase todos eles empunhados como bandeira de luta pelo resgate das dívidas sociais.

A Mãe Pátria, porque é mãe, mais do que ninguém sabe ver nos filhos os valores do passado e do presente que os identificam, na diversidade das etnias, na unidade da língua e na riqueza de suas expressões culturais. Como toda mãe, olha com esperança a construção de um futuro de grandeza para o povo

E uma grande oportunidade para podermos demonstrar nosso amor à pátria é a participação consciente na escolha dos nosso governantes. Dia 3 de outubro próximo, teremos, em todo o Brasil, eleições municipais. Nós, os eleitores, devemos tratá-las com a responsabilidade de quem foi chamado a influir decisivamente no destino do povo. Não podemos perder a oportunidade que a democracia nos proporciona de escolher os melhores, entre os candidatos a prefeito e vereadores que se apresentam para assumir o poder político do nosso município. Quem são os melhores? São aqueles que fazem da vida política não uma profissão, mas uma verdadeira vocação; aqueles que encaram o exercício do mandato não como meio de ganhar a vida, mas como um serviço ao bem comum.

O voto é mais do que uma arma, ainda que poderosa, de defesa da democracia. É, sobretudo, o mais sagrado direito e o mais grave dever no exercício da cidadania. Em momento como esse, a Igreja Católica não pode deixar de afirmar sua presença. É sua missão, confiada por Jesus Cristo, compartilhar “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem”, conforme reitera o Concílio Vaticano II. Propõe-se, pois, a colaborar no esclarecimento do eleitorado, oferecendo-lhe orientações que visam ao voto consciente e responsável.

Para votar bem é preciso que a escolha do candidato se faça a partir do seu programa, do seu respeito ao pluralismo cultural e religioso, do seu comportamento ético e de suas qualidades, do seu compromisso com a justiça e a causa dos pobres.

Evidente que a Igreja Católica aconselha seus fiéis a não votar em candidatos que colidem com seus ensinamentos de ordem moral e social. Considera sua missão promover a participação dos católicos na vida política com vistas a afirmar as bases de uma sociedade verdadeiramente democrática. A Igreja nega-se a interferir diretamente na política partidária indicando candidatos, mas tem como obrigação sua ajudar, com reflexões críticas, os eleitores a tomarem suas decisões.

Peçamos a Deus que ilumine o eleitor a votar no candidato certo, naquele que vê o seu mandato como serviço ao povo. Quem participa da política com o propósito de ajudar na transformação dessa realidade entende e se sente fortalecido na sua opção, quando se fala que “a política é forma sublime de exercer a caridade.” Eleger candidatos que pensem e trabalhem pelo bem estar do povo é tão meritório quanto dar a vida pela pátria.

dom Eduardo Koaik

bispo de Piracicaba - SP