DEMOCRACIA  EM  TEMPO  DE  ELEIÇÕES

O melhor dos sistemas de governo, conhecidos e já experimentados, ainda é a democracia. Sobretudo, porque nela a fonte do poder é o povo. À medida que amadurece a consciência da cidadania, o povo vai conseguindo ter os governantes a que aspira ver no poder. Cidadania implica direitos e deveres. Entre eles, o de maior responsabilidade é o voto.

Votar não pode trazer nenhuma semelhança com jogar na loteria, mercadejar, trocar favores. É direito e dever, a um só tempo, a serem exercidos sem nenhuma coação, mas com plena liberdade. Verdadeiro ato moral, mais do que exigência de leis. Nem pode considerar-se ato indiferente. Ou se vota bem ou se vota mal. Posso enganar-me com o candidato, o que não posso é enganar minha consciência.

Inútil alguém aspirar por aquilo que não sabe alcançar. Não há quem não queira ser governado por políticos honestos, competentes e trabalhadores. De suma importância, no entanto, saber escolhê-los. Aí está o grande problema de uma democracia: não deixar-se enganar, nem corromper. Por outro lado, os partidos devem ajudar os eleitores a escolher bem, apresentando candidatos aceitáveis no que respeita ao trato com o bem-comum, que é a finalidade de toda ação política. Infelizmente, na sua maioria, lançam candidatos que não defendem idéias, mas só prometem obras, mais parecidos com gerentes de empresas do que governantes do povo. Oferecem aos eleitores listas de nomes que atraem votos por serem conhecidos, os quais mal ouviram falar de justiça social, desenvolvimento integral e direitos humanos.

Aparentemente, tudo parece ser feito democraticamente, dentro da lei e em convenções partidárias. Mas quem disse ser democrática a nossa lei eleitoral? É correta a maneira como se distinguem os partidos em fortes e fracos? Os partidos fortes, em geral, apóiam-se no poder econômico. A eles todos os privilégios e aos fracos, nem sequer o direito de um dia poderem tornar-se fortes. Partido que tem mais voto é chamado de partido forte. Em princípio não há o que discutir. Discutível, sim, o modo como um partido se torna forte. O caminho da compra de votos, do voto de cabresto e do voto manipulado pelo poder dos meios de comunicação social deslegitimiza qualquer eleição. Os que se elegem por esses procedimentos corruptores não merecem o mandato no qual se investem e, com certeza, o exercerão da mesma forma que o alcançaram.

Comovente e eloqüente, ao mesmo tempo, uma campanha eleitoral pela qual o candidato esforça-se por dar-se a conhecer junto aos eleitores. Oferece-lhes seus dons, sua competência e seu trabalho para melhor servir ao bem do povo. Vai aos eleitores pedir o voto, entra na casa do pobre, abraça-o, come com ele e ... depois o esquece. Mas não se pode deixar de reconhecer que a beleza da democracia está nesse pedido do voto. Pedido que é promessa de trabalho pelo bem-comum. Trabalho que tem sentido de doação pelo próximo e de sacrifício dos interesses particulares; trabalho que, todos reconhecem, merece ser remunerado mas não pode ser fonte de enriquecimento.

Ao aproximar-se o “dia das eleições”, triste ouvir o eleitor, agoniado, desabafar: “Não sei em quem votar.” Uma campanha eleitoral com enormes gastos e que ocasiona tal reação em pessoas bem intencionadas, o que pode significar? Não se pode perder a esperança, nem cair no derrotismo.

A democracia só se aperfeiçoa à medida que for sendo exercitada. Se olharmos para trás, quando se começou a praticá-la em nosso país, comprovaremos que não deixou de haver progresso. No tempo do Império, o negro era excluído da lista dos eleitores. Igual situação a do pobre, ainda que fosse branco. Mulheres também não votavam. Só votavam: homens, brancos e ricos. Com a abolição, 1888, e em seguida, a República, 1889, teoricamente, os pobres e os negros tornaram-se eleitores. Mas, na prática, era outra coisa. O voto não sendo secreto, ninguém se encorajava a votar contra o candidato do “coronel”. Somente a partir de 1934, as mulheres conquistaram o direito de votar. Os analfabetos, com a Constituição de 1988, passaram a gozar desse direito. Hoje, o voto é para todos, tornou-se também secreto e já atinge os menores acima de 16 anos. Mas, para que as eleições sejam realmente legítimas, falta o mais difícil: pôr fim à corrupção.

A política é a mais nobre das atividades humanas. Cuida do bem da sociedade como um todo. Não permitamos seja enxovalhada. O verdadeiro político é um empenhado realizador de utopias. No Reino de Deus, o joio e o trigo crescem juntos. Conforme a lição da parábola de Jesus (Mt. 13,24 - 30), antes do tempo da colheita, há sempre o perigo de se tomar um pelo outro. Ninguém é totalmente bom, ninguém somente mau. Ajudar os bons a perseverar no bem e os maus à conversão para o bem, espinhosa missão, recebida do Senhor da história, a que a Igreja se propõe enquanto sinal do Reino. Inclusive no embaraçoso campo da política.

Dom Eduardo Koaik

bispo de Piracicaba - SP