QUEM NÃO  PODE  SER  POLÍTICO

Pelo voto o povo tem o poder de dar chances a pretendentes a cargos públicos. Como também, pela urna, tem o poder de “entregar o boné” a algum político que já cansou, e não explicou a que veio. Mas por mais que exista a preocupação constitucional, de esclarecer a opinião pública, sempre “escapa” alguém, que jamais deveria ter galgado os degraus do poder.

Hoje quero andar, por um pouco que seja, pelos terrenos escorregadios da escolha de homens e de mulheres, que almejam prestar serviços à população . Não é fácil escolher. Os recursos disponíveis para embaralhar as verdadeiras intenções do concorrente, são quase infinitos. A começar pela onipotência do dinheiro. A abundância perdulária da propaganda, a onipresença e a multiplicação dos out-doors, os carros de som insistentes, a corrupção eleitoral refinada, convencem. Nos meus já longos anos de vida cívica, não me lembro de “proletários” do poder econômico, serem elevados à administração pública. A menos que tenham tal charme pessoal, a ponto de serem verdadeiros fenômenos, e se imporem pela simples presença. Mas já vi inúmeras nulidades, guindadas às alturas da confiança pública, porque vieram envoltos nos brilhos enganosos de recursos financeiros.

Antes de dizer quem não deve ser aceito pelo povo como político, direi duas qualidades positivas, que devem acompanhar um bom político. Sim, eu creio em bons políticos, apesar de algumas experiências amargas. E a primeira qualidade, queremos emprestá-la do evangelho: “quem quiser ser o primeiro, seja o servidor de todos” (Mc. 10,43).Trata-se do desejo de trabalhar pelo bem comum, de ser servidor dos demais, de relativizar os interesses pessoais. A segunda qualidade, quase um corolário da primeira, deve ser a honestidade, a lisura no trato dos assuntos públicos. Um político descobre mil chances de locupletar-se e não deixar rastos.(Pelo menos é o que muitos imaginam). A estatura moral deve ser tamanha, que ultrapasse tais tentações, mantendo sua postura nos limites da justiça e do respeito pelo semelhante.

Quero agora dizer ao caro leitor, duas qualidades negativas, que tolhem qualquer possibilidade de alguém ser bom político. A primeira é a característica de extravasar o ódio em cima dos adversários. Há gente que vive motivada pela raiva, cuja conversa revolve lembranças negativas. Jamais é capaz de se deliciar com o aspecto alegre da vida, ou de ver os acontecimentos com bom humor. A sua ocupação é demonstrar ódio pelo semelhante e planejar a destruição e o aniquilamento completo dos seus contendores. Como político, ungido pelas urnas, continuará a fazer a mesma coisa.

O segundo perigo que acompanha um mau político, é o espírito de vingança. Seu tempo integral é voltado para a preparação de armadilhas, com as quais deseja “dar o troco” aos seus adversários. Querer “dar tombo”, “passar a perna”, “enviar uma lembrança”, perseguir os amigos do adversário, premiar seus inimigos, e até usar de forma indevida a Lei da Corrupção Eleitoral, tudo se torna lícito. Enfim, o vingativo vive num mundo sórdido de querer dar umas boas risadas, e de sentir um prazer mórbido ao ver suas vítimas gemerem no pó da humilhação. Tais candidatos não podem receber o beneplácito dos cidadãos, porque, elevados ao poder, vão reduzir a pó os melhores servidores do bem público, e distinguir com favores públicos os piores elementos da sociedade.Ser político bem sucedido, e ser pessoa votada ao ódio e à vingança não é a mesma coisa. Basta olhar para o exemplo de vida de Tancredo Neves e de Juscelino Kubitschek.

dom Aloísio Roque Oppermann scj

arcebispo de Uberaba - MG