E  POLÍTICA

Discurso do vice-presidente da CNBB, dom Marcelo Pinto Carvalheira, durante a reunião da Presidência e CEP com os Parlamentares, em Brasília (DF), no auditório Dom Helder Câmara, na sede da CNBB, no dia 1º de abril de 2003

Precisamos resgatar o interesse do povo, eu diria até o encantamento, pela boa política. Resgatar a esperança através de políticos comprometidos (assim têm refletido os nossos grupos de “Fé e Política”, em conjunto com associações de bairro e movimentos sociais).

Para parlamentares que têm fé cristã, ou, de qualquer modo, estão dentro da nossa cultura, permeada pelo fermento da fé cristã, pensei que seria de bom alvitre discorrer sobre a política, tendo, como referência, a palavra e a práxis de Jesus. Afinal, o comportamento e a Palavra de Jesus de Nazaré, em suas linhas essenciais constituem elemento normativo para a existência cristã e, por conseguinte, para o nosso compromisso político.

I

Jesus é apresentado no Evangelho, conforme as genealogias descritas pelos evangelistas Mateus e Lucas como um autêntico judeu, descendente de Abraão, da Tribo de Judá, da progênie de Davi. Integrado no seu povo, Ele vivia no regime teocrático do judaísmo regime de absoluta unidade entre a Religião e o Estado (o Sumo Sacerdote era a maior autoridade religiosa e também, com o Sinédrio, a suprema autoridade do Estado. Essa situação era respeitada pelo Procurador Romano).

Portanto, religião e política se confundiam. Qualquer comportamento irreligioso ou considerado blasfemo era tido também como subversivo. Daí entendemos a polêmica provocada por Jesus, sendo desaprovado como antipolítico, quando deixando de lado as normas humanas: curava no sábado, dia de repouso sagrado, privilegiava o amor e se declarava Filho de Deus e igual a Deus. Aliás, basta olharmos para o Crucifixo sinal cristão hoje espalhado por todo o mundo, o Crucifixo, digo, com um homem moribundo pendurado por cravos, é um símbolo originariamente político. Na verdade, o anúncio do Seu Reino era tomado como sendo competição com César; havia a inscrição cravada no topo da Cruz como sua sentença condenatória “Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus” (curioso é que alguns, naquele tempo, ainda reclamaram a Pilatos: “não diga assim, mas escreva: “ Ipse dixit” , isto é, “foi ele que disse isso...”). Entendemos, portanto, o quanto Jesus era político. Ele o era enquanto rompia com a ordem social vigente (ordem, aliás, que contrariava a própria Palavra de Deus nas Escrituras). Mas praticar a religião de outra maneira, como fazia Jesus, era política de oposição. Por outro lado, o que fazia também Jesus era dessacralizar o poder político: Ele não pensava em poder religioso teocrático (há, por exemplo, uma diferença entre Jesus e os “zelotes”, revolucionários do Seu tempo).

Do ensinamento evangélico, como sabemos, convém “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 15-22). O Estado que age retamente, no seu próprio âmbito de competência, atendendo à índole moral da práxis política, nada tem a temer daquele outro ensinamento apostólico: “é preciso obedecer a Deus mais do que aos homens” (At 5, 29). Os campos político e religioso estão ligados entre si, por causa de razões de consciência de que fala São Paulo, ao fim da Carta aos Romanos.

Pela sua referência ao bem comum dos homens que vivem em comunidade, a práxis política não tem apenas dimensões morais, mas ela mesma é práxis moral, embora nem todas as práxis morais sejam práxis políticas.

A chamada “laicidade” para a doutrina católica fiel à mentalidade de Jesus de Nazaré é entendida como autonomia dos campos civil e político em relação aos setores religiosos eclesiásticos, mas não em relação ao campo moral, pois ela está voltada essencialmente para o bem comum, que implica em busca da justiça, da liberdade, da paz, da igualdade, do respeito à vida humana. Pontos comuns entre Religião e Política não impedem sua distinção e autonomia recíproca. Essa laicidade, portanto, não significa ateísmo, nem agnosticismo do Estado. Na verdade, a laicidade já é um valor adquirido pela Igreja e pertence ao patrimônio da civilização (cf. “Nota Doutrinal da Congregação da Doutrina da Fé”, fevereiro de 2003).

II

Voltando ao comportamento prático de Jesus, convém notar alguns dados importantes para a compreensão do nosso tema e que são incontestáveis na práxis de Jesus:

Primeiro , Jesus convivia na companhia dos pobres e oprimidos. Assim, por exemplo, quando Mateus, no capítulo 8, fala dos Seus primeiros milagres, refere-se a curas de pessoas marginalizadas. Ele se define, na prática, do lado dos pobres. Jesus não exige necessariamente que as pessoas mudem de estado social (como Nicodemos e Zaqueu), mas que sejam solidários com os despossuídos e injustiçados, assumindo suas causas.

Segundo , Jesus tem uma atitude crítica frente aos poderosos. Aliás, os chefes do poder só conseguiram apanhar Jesus às ocultas, comprando um dos Seus discípulos, na traição.

Terceiro , afinal, é importante entendermos que Jesus não teve uma ambição de poder político, embora Ele não fosse um alienado, um indiferente; e, por outro lado, nunca foi contra o poder, enquanto tal, mas foi, sim, contra o poder-dominação. Ele propõe o poder-serviço. “Quem quiser ser o maior, diz Jesus , seja aquele que serve... Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir ” (Mt 20, 26-28).

Quarto . Se podemos dizer que Jesus teve uma atuação política, Ele a teve, mas a nível profético, foi um “revolucionário” profético. Explico: Ele falou tendo em vista o histórico real. Profeta, portanto, não é aquele que simplesmente advinha o futuro, como trivialmente se concebe, mas aquele que vê a história concreta, inclusive o porvir, a partir de Deus, na luz de uma esperança viva, motor da história.

O Profeta atinge questões concretas da vida do povo: denuncia o mal e anuncia o bem, aponta as feridas da sociedade. Mas o Profeta é, sobretudo, o homem da esperança, o homem da utopia, o que enxerga caminhos novos para os indivíduos e para o convívio social. Donde é claro: o que é estritamente religioso deve ser explicitado pela Igreja, mantendo a devida distinção dos campos; no entanto, o que é religioso não deve aparecer como algo autônomo ou paralelo ao histórico. Para os profetas, a religião em concreto é a forma de viver a realidade histórica em seu sentido último e conforme a vontade de Deus. Por isso, meter-se em política, atendendo a seu aspecto ético, pertence também ao profeta. Tudo aquilo que é político, econômico e social é substancial para a história e, portanto, sobre isso versa também a vontade profética de Deus. Era desse modo que atuavam, por exemplo, os profetas bíblicos.

A título de ilustração, lembro os profetas como Moisés, Elias, Elizeu e os que escreveram livros, como Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel e, entre os chamados profetas menores, lembro Amós, no século VIII antes de Cristo; num tempo de graves desordens sociais, políticas e econômicas do povo de Deus, ele clamava: “Vede as numerosas desordens e as violências... Existem os que estão em leitos de marfim, estendidos em seus divãs, comem cordeiros do rebanho... e novilhos do curral e bebem crateras de vinho... não se preocupam com a ruína do povo” (cf. capítulos 2, 3 e 6 de Amós).

De Amós a Jesus e até hoje persistem os exploradores do povo, os que pretendem manobrar até o conjunto dos povos e promovem guerras insensatas, esmagando populações inteiras... O modelo concreto de Jesus, como os profetas bíblicos, apresenta, no fundo, uma revolução integral. Assim, Sua proposta trazia implicações e efeitos políticos. Leva-nos, inclusive, a assumir o chamado “macro amor” que tem em vista também as estruturas do Estado e da Sociedade, com suas regras e leis, não se contentando apenas com magras reformas assistenciais e meras ações emergenciais. Por isso, penso que tanto os evangelizadores diretos na Igreja, como os políticos comprometidos com o povo devem possuir rasgos proféticos. Pastores e Políticos comprometidos com o povo devem ser Profetas a seu modo, no âmbito da sua competência, dentro do seu campo.

III

Neste horizonte profético, entretanto, a grande idéia, a visão absolutamente dominante da pregação de Jesus e convém ressaltar isso de modo absoluto é a proposta do Reino de Deus que é fundamentalmente dom e também interpelação radical da vida humana. Este Reino de que fala o Evangelho (conceito já existente no Antigo Testamento) é uma realidade envolvente, desígnio livre e gratuito de Deus, que dá o sentido último da história para o seguidor de Jesus: é no horizonte do Reino que o discípulo de Jesus pode definir o caráter e o sentido da sua vida. “O Reino de Deus, diz o Evangelho numa parábola , é como um tesouro escondido no campo. Alguém que o encontra vai vender todos os bens para comprá-lo” (Mt 13, 44). A recordação da mensagem e da práxis de Jesus vê no Reino, anunciado pelo Evangelho, como que uma antecipação prática de um reino universal de justiça, de paz e de amor, de todos e para todos. Não é sem razão que na oração mais comum e eficaz dos cristãos, porque proposta pelo próprio Jesus, vem a súplica central pelo Advento do Reino de Deus: “Venha a nós o Vosso Reino!”

Na questão que hoje aqui nos congrega, isto é, Fé e Política, nós, ministros da Igreja e políticos militantes, assim como os demais membros do Povo de Deus e os cidadãos da Pátria comum, somos convocados a inspirar-nos em Jesus, no mundo atual, segundo as urgências de hoje. Se a nossa fé teologal, por acaso, for fraca, não desanimemos, vamos nos encontrar certamente com Ele, no serviço prático do próximo.

“Vinde, recebei o Reino que vos foi preparado... O que fizestes pelo menor dos meus irmãos, foi por mim que o fizestes” , diz Jesus no Seu famoso discurso sobre o julgamento final (cf. Mt 25, 32s).

Brasília, 1 de abril de 2003

Dom Marcelo Pinto Carvalheira - Arcebispo da Paraíba

Vice-Presidente da CNBB