FÉ  E  POLÍTICA

Há realidades que conservam sua identidade no plano do ser e do agir, quando se relacionam; outras revelam, de imediato, uma contraposição. As primeiras, precisamente por se distinguirem, coexistem e podem enriquecer-se mediante a reciprocidade de suas contribuições. Nessa perspectiva, pode-se compreender a relação entre Fé e Política. Na verdade, são realidades distintas, sob o aspecto ontológico e científico, embora sejam claros os seus vínculos, quando enxergamos a natureza da fé e lemos a prática política dos cidadãos.

Por sinal, nos primeiros tempos do cristianismo, havia uma consciência bem formada, nesse sentido, como encontramos na “Carta a Diogneto”, no século II: “Os cristãos não se diferenciam dos outros homens nem pela pátria nem pela língua nem por um gênero de vida especial. De fato, não moram em cidades próprias, nem usam linguagem peculiar, e a sua vida nada tem de extraordinário. A sua doutrina não procede da imaginação fantasista de espíritos exaltados, nem se apóia em qualquer teoria simplesmente humana, como tantas outras. Moram em cidades gregas ou bárbaras, conforme as circunstâncias de cada um; seguem os costumes da terra, quer no modo de vestir, quer nos alimentos que tomam, quer em outros usos; mas o seu modo de viver é admirável e passa aos olhos de todos por um prodígio. Habitam em suas pátrias, mas como de passagem; têm tudo em comum como os outros cidadãos, mas tudo suportam como se não tivessem pátrias. Todo país estrangeiro é sua pátria e toda pátria é para eles terra estrangeira. (...) Obedecem às leis estabelecidas, mas com seu gênero de vida superam as leis.” Como se pode ver, além da face espiritual, a fé iluminou a vida social e a presença política dos primeiros cristãos na cidade e no meio rural.

A política é um dado inerente à condição dos cidadãos; dessa maneira, não pode jamais ser considerada um adendo na vida dos cristãos porque cristianismo e cidadania exigem-se, respectivamente, como iluminação e como exercício político responsável. O cotidiano dos cristãos, como nos tempos de Diogneto, é vivido na polis, na cidade, no espaço habitado, de modo que as responsabilidades decorrentes da fé cristã, ao lado da dimensão sacra e misteriosa, também apontam para as ações cidadãs.

A Igreja no Brasil tem plena consciência dessa realidade e o tem demonstrado, ordinariamente e em circunstancias especiais, em seu anúncio profético, em sua palavra catequética e em sua ação pastoral; o Documento 67 da CNBB, lançado por ocasião das eleições de 2002, ainda perfeitamente aplicável às eleições 2004, é um exemplo concreto da missão da Igreja frente ao contexto sócio-político do País. O calendário político brasileiro é peculiar em 2004 por se tratar de um ano eleitoral com repercussão direta em todos os Municípios.

Os cristãos participam da atividade política em decorrência das exigências da sua fé e não devem se envolver no processo eleitoral apenas por força dos ditames da legislação. A fé, por conseguinte, ilumina a participação política dos cristãos brasileiros, tanto naquele Município mais destacado no cenário nacional quanto naquele de menor peso social.

Fé e Política são realidades que devem ser entendidas no nível da concepção e no plano da interação, nas situações concretas em que vive o cristão que é, ao mesmo tempo, cidadão. Na vida dos discípulos de Jesus, o divórcio entre esses dois componentes essenciais se deve, em certo momento da história, à acentuação da dimensão espiritual da fé, mas também à interiorização de um conceito desvirtuado de política, em razão dos desmandos administrativos patrocinados dos políticos. A mudança dessa ordem de compreensão acontecerá na medida em que os cristãos assumirem os compromissos políticos, iluminados pelos valores da fé e movidos pelos princípios da ética.

A ótica que impele os cristãos nessa desafiante atuação política não pode ser simplesmente a conquista do poder porque nessa aventura, reconhecidamente, se envolvem todos aqueles que buscam seus interesses, mesmo que, para isso, utilizem práticas criminosas, como a compra de votos e a utilização da máquina administrativa, banidas pela Lei 9.840/99.

Dom Genival Saraiva de França

Bispo de Palmares (PE)