UM CASAL HUMANO

Uma perspectiva antropológica

O homem e a mulher procuram-se e formam uma relação única tornando-se um casal que leva ao compromisso de um com o outro e ao casamento. O casamento existe em todas as sociedades. Pode desempenhar um certo número de papeis considerados como vantajosos pela maioria das culturas. Por exemplo, o casamento permite uma herança em linha que dá uma segurança aos direitos de propriedade. Em alguns casos, estes modelos têm grande importância para certas comunidades, especialmente para a responsabilidade e os deveres sagrados, e transmitem-se através de gerações. Os filhos são legitimados e recebem uma identidade na comunidade. Os filhos crescem num ambiente estável. Têm um modelo de amor de um homem e uma mulher. Às vezes, têm também a vantagem de viver em irmandades. O casamento ajuda a consolidar as relações nos e entre os grupos e famílias, é complementar e reforça as outras fontes sociais e econômicas existentes. Também cria unidades de trabalho no lar e o conjunto da unidade torna-se mais eficaz quando se transforma em trabalho de equipa. Os talentos e os conhecimentos essenciais, práticos e sociais são transmitidos aos filhos. Os laços criam-se através das relações interdependentes e, também, assim o esperamos, através do amor e do afeto.

Antes de olharmos para além destes elementos pelo lado sagrado, é das situações humanas correntes, das quais que dependem a vida conjugal e familiar, que o humano e o sagrado se cruzam. Cristo não ensinou, nem viveu no isolamento daqueles que tentam encontrar-se. Pela Sua presença, Ele abençoava o que parecia ser uma situação vulgar, quando as pessoas se debatiam por existir face às dificuldades da vida. O casamento conduz igualmente à verdade apesar de uma das ironias da existência humana que Jesus demonstra através da Sua vida – a Morte e a Ressurreição – a vida vem através do dom.

Aquando das recentes discussões teológicas sobre o tema do casamento, o seu estatuto como sacramento está fundamentado sobre o princípio de que faz parte de uma aliança em que Deus é o terceiro elemento. Já que ele liberta um dividendo sócio- econômico, o matrimônio também toca a nossa necessidade básica de amar e ser amado, quer na intimidade quer em companhia humana. Uma relação de amor mútua e de fidelidade, que é o resultado ideal de qualquer casamento, reflete a relação que Cristo tem com a Sua Igreja e que Deus tem com o Seu povo. O matrimônio é «a gramática que Deus utiliza para falar da Sua aliança com o amor e a fidelidade». O matrimônio é para toda a vida.

A ele se adere livremente e não se deve comprometer a liberdade de cada elemento. É um dom de Deus e uma união de amor. É um momento de graças tornado possível pela vontade do homem e da mulher que se comprometem um com o outro.

A Igreja reconheceu a importância de afirmar o estatuto do Sacramento do Matrimônio face a face com inúmeras normas sócio culturais que o vêem como uma simples união sexual e social. Na realidade muitos setores da sociedade já não vêem o matrimônio como sendo indispensável como elo sólido e a longo prazo entre um homem e uma mulher. Em muitas sociedades, as convenções respeitantes ao casamento e ao período que o precede tornaram-se mais suaves devido aos exemplos muito complicados. Então, quando o matrimônio era apresentado como uma marca de publicidade, a variedade das marcas tornou-se mais numerosa. Na maioria dos países, devido aos movimentos em direção às grandes cidades ou também devido à imigração, a influência ou o suporte que possam ter os amigos e a família alargada tornam-se menos importantes. Devido a esta movimentação, o casamento existe entre pessoas de culturas e regiões diferentes.

Consequentemente, há imensas hipóteses para que os dois elementos não estejam de acordo no casamento, pois os seus pontos de vista são bem diferentes relativamente à família e ao lar.

Presentemente, estes temas são muitas vezes retomados nos programas de preparação para o matrimônio. A necessidade de catequese precedendo o Matrimônio é tão importante como para a preparação das pessoas para outros Sacramentos. Se o casal não realiza a importância que Deus teve na sua união, a possibilidade de uma relação frutuosa para cada um deles ou para os outros pode estar comprometida. Assim, para um casal cuja fé é real, poderão reconhecer a necessidade de Deus para abençoar a sua união de modo que o seu amor não seja apenas selado mas reforçado através dos tempos. O amor nesta instância significa dar um lugar ao outro. Um casal alemão que vive na cidade de Brignt, Victoria, celebrou recentemente o 50º aniversário de casamento. A esposa lembrava-se que, na cerimônia do seu matrimônio, o Padre lhe tinha dito que ela iria aprender o que Jesus quis dizer quando afirmava que era preciso perdoar setenta vezes sete. Na época ficou um pouco céptica dizendo que isso tinha sido há muito tempo.

Agora, ela sabe que o Padre tinha razão. Ela atingiu esse montante antes que o primeiro ano tivesse terminado.

O matrimônio cristão é a resposta ao convite que Deus faz ao casal para participar no Seu projeto para que os humanos sejam co-criadores. Os benefícios da sua relação pode atingir os outros – sobretudo os filhos – e, este é um outro aspecto da sacramentalidade do Matrimônio. A criatividade exprime-se pela hospitalidade. O homem e a mulher descobrem riquezas neles próprios e no seu cônjuge através dos tempos, sobretudo, quando as circunstâncias mudam. Todo o matrimônio é a criação de alguma coisa de novo como a história de cada relação é única e, é aí que o matrimônio recebe a sua riqueza.

A psicologia do casal

Não há propriamente uma «psicologia do casal». Cada casal desenvolve o seu próprio estilo de interação. Existe um processo em que os indivíduos que vivem em casal começam a pensar e a comportar-se tendo em conta o outro; por exemplo, a formação da mentalidade do casal. Alguns «casais» nunca chegam a desenvolver esta mentalidade.

Outros dirão que a independência de cada um é o mais importante no casal. Outros ainda dirão que, numa ordem hierárquica, a relação do casal é a mais importante das relações humanas, porque as pessoas em tais relações podem ser complementares de uma forma interdependente. Numa relação de casal, esta interdependência precisa que o indivíduo continue a proceder quer como casal, quer como indivíduo.

Portanto, o casal, para chegar ao matrimônio, deveria ter a maturidade adequada, a compreensão suficiente da natureza e das exigências do Matrimônio, uma capacidade segundo o ponto de vista psicológico, para se comprometer numa comunidade de esperança e de amor exclusivo, durante toda uma vida e aberto aos filhos.

A nossa visão de vida da família, do matrimônio, ou até da vida em casal (dependendo da ênfase que se quer dar a um ponto específico) baseia-se num ideal de amor. Todavia, para ter utilidade, este ideal deve basear-se sobre a nossa presença real e não sobre a nostalgia do passado. As pessoas mudaram. A sociedade também mudou. Numa época recente, a emancipação da mulher influenciou este processo, o que torna os homens menos seguros do seu papel como maridos, pais ou trabalhadores. Freqüentemente, na publicidade ou telenovelas, são mostrados como bobos. Raramente se mostram homens fortes no papel de heróis. Algumas das conseqüências deste fenômeno estão patentes na deterioração dos rapazes na escola ou até no novo movimento de homens, por exemplo Steve Biddulph.

Também há conseqüências num grande número de mulheres que estão numa idade já avançada sem filhos e se interrogam se seria ajuizado fazer tal escolha. A sexualidade das mulheres mais novas muda igualmente pelo fato de elas se comportarem como os homens, por exemplo, a história de uma noite, sexo sem sentimentos, sexo por divertimento... Os homens obviamente exploram este comportamento e querem a sua própria sexualidade.

Devemos interessar-nos seriamente pelas relações que são iguais e hierárquicas na sua natureza, relações que estão menos centradas sobre os papeis de poder, do que sobre o apoio mútuo e o desenvolvimento pessoal. Evidentemente, devemos interessar-nos na necessidade de aprender e de desenvolver as qualidades necessárias para a relação, para ter casais que adquirem o nosso ideal no matrimônio e na família.

O matrimônio deve ser e pode ser o resultado do amor. Em contrapartida o amor depende de dois aspectos : o amor significa:

1. fidelidade

2. perdão

por sua vez a FIDELIDADE precisa:

1. do suporte do amor

2. do amor que tudo cura

3. de ajudar o outro a crescer

4. da unidade sexual

O amor e a fidelidade podem ser analisados independentemente, e, todos nós poderíamos reconhecer os bons e os maus exemplos em cada uma das partes. E sobre os nossos bons ou maus dias respectivamente, decerto já todos vivemos esta boa ou má prática.

o suporte do AMOR demonstra:

1. disponibilidade, tanto emocional, como física;

2. boa comunicação com o outro;

3. afeto, físico e emocional, demonstrado ao outro;

4. afirmação do valor do outro;

5. resolução de conflitos, pois eles existirão.

Mas como somos imperfeitos – «deficientes» imaturos e ingênuos – nenhum de nós, poderá, até certo ponto, levar a totalidade destes aspectos para uma boa relação. Isso requer que façamos o ensaio do segundo aspecto do amor, sobretudo do perdão.

Devemos compreender e perdoar a inaptidão do outro para estar também disponível no momento em que nós precisamos e jamais guardar ou alimentar feridas.

Marjory e Allen viviam nos arrabaldes, estavam casados há 10 anos e tinham 3 filhos. Allen teve que ir a uma conferência de 3 dias numa outra cidade; a conferência foi-se desenrolando muito bem e na última noite havia um serão de diversão agradável ... bebeu-se demasiado vinho e ... para o final da noite, as pessoas foram-se acasalando ... na manhã seguinte, Allen acordou na sua cama com uma mulher que mal conhecia e recordava-se mal da noite anterior. Mortificado, incomodado, envergonhado regressa a casa e contou a Marjory o que tinha feito. Marjory ficou aterrada, humilhada, traída e furiosa com Allen. Contudo, após uma longa introspeção de cada um, decidiram equacionar a relação entre eles. Passados dez anos, eles ainda estão juntos, o seu amor recíproco cresceu, Marjory conseguiu perdoar a Allen, que, por sua vez, se perdoou a si mesmo. Conseguiram reconciliar-se graças ao amor que um pelo outro era um suporte crescente e uma relação fiel.

Devemos reconhecer a pobreza da comunicação do outro e, também dos seus esforços (habitualmente os do marido). Devemos demonstrar afeto, pois dar o exemplo é melhor para aquele que executa. Devemos receber os atos de afirmação do nosso parceiro, sem criticar a falta e mostrar as nossas. Devemos conhecer a origem dos conflitos ou dos conflitos repetidos e procurar os meios para minimizar as possibilidades que provocam as recaídas nesses conflitos.

Aprendendo a apoiar o nosso amor um pelo outro, graças aos nossos esforços de perdão, desenvolvemos a nossa capacidade de curar o amor.

Ao começar a desenvolver as nossas habilidades de curar, por nosso lado, damos ao nosso parceiro a possibilidade de crescer. Mas quando recusamos perdoar, curar, apoiar, confirmamos o outro num estado de fraqueza e inaptidão; mostramos a nossa fraqueza como casal ; e, no melhor dos casos, ficamos estáticos, encerrados na nossa fraqueza.

Ou pior, o nosso casal começará a desabar. A falta de tolerância de um para com o outro impede que cresçam juntos, mas o fato de estarem determinados a encorajarem os meios para apoiar e curar são essenciais para o crescimento do amor do casal.

E, em quarto lugar, a fidelidade requer uma unidade sexual, o que afirma as pessoas e a sua sexualidade. É fonte de reconciliação após as discussões. É o desenvolvimento da esperança no casal, partindo de um ponto de intimidade partilhada. É a possibilidade de um agradecimento. Falando de unidade sexual, é também, bem melhor, mostrar a unidade do casal com Deus.

E por onde começar?

O crescimento do casal, espiritual e material, será apoiado ainda mais se juntarmos um pouco de subtileza psicológica. Quando esta é ativa ajuda-nos a compreender tanto a importância do amor de si mesmo, quanto do amor aos outros. Quando crescemos, separamo-nos dos nossos Pais – fisicamente, intelectualmente, emocionalmente, socialmente, espiritualmente. O resultado desta separação, um dos elementos importantes do nosso amor, é que nos ensina a tomar posse de nós mesmos. O amor verdadeiro exige que sejamos os nossos próprios mestres e que assumamos totalmente a nossa identidade.

Para muitas pessoas, a relação matrimonial é o espaço onde os indivíduos crescem no amor por si mesmo tanto como no amor pelos outros. Não poderemos amar se nos odiarmos a nós mesmos, se duvidamos do nosso valor, ou se, apenas e só duvidarmos.

Temos que fazer a distinção entre a humildade da nossa própria imagem e o valor da nossa contribuição. Na humildade, realizamos abertamente os nossos limites, uma abertura à aprendizagem, uma atualização ou mudança no desejo de mais servir que mandar, portanto casais que apreciam o nosso valor que não é nem exagerado, nem subavaliado.

Todavia, a humildade não é uma rejeição do nosso valor ou da nossa integridade; isto não é uma desculpa para a nossa existência. Esta mistura de humildade, com o amor de si próprio, é necessária para um amor verdadeiro.

O amor de si mesmo é construído sobre a auto-estima. A auto-estima é primordial no amor pois a nossa capacidade de nos aproximarmos dos outros depende da convicção de que há alguma coisa de positivo a dar aos outros sempre que eles precisam.

Por outro lado, o egoísmo tem uma ligação a si mesmo. É o contrário de disponibilidade.

Está ligado exclusivamente ao fato de receber, de se centrar em si mesmo e de se sentir mais importante que os outros. Há que fazer a distinção entre auto-estima e egoísmo. O primeiro é uma necessidade legítima de conhecer o seu próprio valor; o segundo é uma procura completa, por mais pequena que seja. Podemos amar através da auto-estima, mas com o egoísmo temos necessidade dos outros: ambos estão presentes em cada um de nós e o equilíbrio entre os dois é uma luta constante, sobretudo no matrimônio.

O nosso amor pelos outros precisa de empatia (a nossa capacidade de viver o mundo interior dos outros e de a tal responder). A nossa sociedade baseia-se na convicção de que só a comunicação intelectual nos pode ajudar a encontrar o outro. Mas o centro da nossa atenção aos outros é afetivo e só assim levamos os outros em conta. A empatia conduz à comunicação verbal que nos permite sermos escutados e compreendidos. Mas os nossos sentimentos também devem ser apreciados! Esta atenção ao outro deve fazer-se sem julgamentos.

Para que duas pessoas aceitem livremente o matrimônio por toda uma vida, devemos pensar no enorme compromisso que fazem (um compromisso livre e um cumprimento extraordinário para com o outro) apesar de todas as possibilidades de homem / mulher que poderiam ter sido o / a escolhido / a, a ele ! a ela!

Não existem quaisquer condições (com ou sem filhos, rico ou pobre, doente ou saudável, bons ou maus períodos ... ).

Eles não devem pensar que agem como egoístas se a sua relação se torna o mais importante de tudo. Isto deve estar acima de tudo e de todos. E isto requer o corte dos laços com os pais e a família. As outras relações ou interesses devem ser menos importantes que esta relação única de amor.

As relações de amor romântico ou de escolha / livre / decidida/ de compromisso / de amor são importantes. É vital que o casal revele o seu lado humano sendo romântico, dizendo de qualquer forma: “Amo-te !” – palavras, lisonjas, beijos, jantarzinhos, rosas vermelhas, etc. . Mas é ainda mais importante que eles se amem com total liberdade (1ª Cor.13,1 - 13) e que este amor demonstre paciência, ternura, perdão, que seja verdadeiro, pronto a perdoar, confiante e sempre mais, conforme os sentimentos de cada um, mesmo quando um ou outro estiverem naqueles bons / maus dias.

Devem ver-se um ao outro como parceiros de matrimônio. Cada um recebe e dá dons preciosos. Cada um deve ver-se e ver o outro como um dom providencial de Deus, alguém a honrar e a amar. Devem dar-se conta que um não pode mudar o outro e devem aceitar-se – ele / ela como é, por amor devem antes tentar modificar-se a si mesmo para ser um bom presente ao outro.

Devem encontrar soluções para os problemas e não ao contrário. A sua relação de amor é ainda mais importante que a sua relação com os filhos. Se a sua relação estiver segura, os filhos também o estarão. Se, pelo contrário, a relação entre os pais é incerta ou não existe, os filhos não terão segurança.

A sociologia do casal

Na sociedade pré-industrial, as relações de família eram entendidas como a base dos princípios de organização da vida social e a produção estava centrada dentro de casa. Com a chegada da industrialização, a produção passou a estar centrada fora de casa e o resultado foi aquilo a que se chama a «separação da casa e do trabalho». Isto teve um tremendo efeito sobre as relações familiares e, especialmente, na relação homem / mulher. Ouvi um médico (que visivelmente era um homem muito humilde) contar que o seu filho mais velho, um dia, perguntava à mãe : O Pai é mesmo médico ?. Tinha ouvido as outras crianças falando sobre isso na escola e tudo o que o pai dizia quando saía de casa pela manhã para ir para o hospital ou para o seu consultório era. Bom, meus filhos, tenho que ir para o meu trabalho!

Na nossa sociedade moderna «a família» é freqüentemente descrita como: marido, mulher e filhos. Pensa-se nesta unidade como se fosse um grupo baseado sobre o matrimônio e o parentesco biológico. Em todas as sociedades industrializadas, as mudanças fazem-se e desafiam o ponto de vista dominante da família tradicional. Há menos casamentos, são mais tardios e há menos filhos, ou até não os há, há mais «concubinato». Cada vez mais casais se divorciam . Há muitas teorias sobre o papel da família e do matrimônio. Assim a função das famílias seria útil para:

• reprodução da próxima geração de trabalhadores para a produção capitalista

• instrumento de opressão especialmente para as mulheres Outras teorias descrevem o Matrimônio como fonte de suporte afetivo e uma companhia para toda a vida:

• o romance é conservado e

• há uma afinidade pessoal entre os esposos, num ambiente amoroso, para educar os filhos Entre tantos pontos de vistas e opiniões diferentes, onde está a realidade?

• um refúgio num mundo sem coração ou

• uma prisão opressora, reprimente e confinada?

A resposta a estas questões poderia ser positiva em ambos os casos, num matrimônio moderno.

Os argumentos daqueles que vêem o matrimônio como uma prisão caem pela impropriedade das três razões:

1. O matrimônio constitui a base para se preservar do sistema capitalista opressivo;

2. a situação oprime o indivíduo;

3. a relação conjugal oprime as mulheres.

Primeiro que tudo, olhemos para a vida moderna nesta sociedade moderna que está catalogada assim: sem raízes, competitiva, impessoal, burocrática, desprendida. Neste contexto moderno, onde incessantemente se encontram mudanças e recuos, o matrimônio pode oferecer um antídoto aliando as necessidades básicas do ser humano – que é o amor – com a proximidade no seio de uma relação afetiva.

Esta relação estável e íntima celebra o matrimônio e constrói um ambiente que suporta o casal. Os sociólogos Berger e Kellner (1964) discutem o fato de na sociedade moderna o matrimônio ocupar um lugar privilegiado como «um contrato social» que cria para o indivíduo uma espécie de ordem na qual se pode dar sentido à experiência de uma vida. Eles também afirmam que o mundo público é estranho, incompreensível e anônimo e que muitos são os grupos da sociedade que antigamente prestava socorro e ajuda e que foram devastados pela mobilidade social e geográfica. Apesar de tudo é no seio do Matrimônio que as relações estáveis, afetivas e significativas ainda se encontram.

Este conceito de matrimônio dá-nos uma panorâmica para a descoberta de si próprio e de realização pessoal. Os casais, através de conversas e diálogos, conciliam, pouco a pouco, a sua própria imagem, as suas experiências e as suas interpretações dos seus mundos individuais até à síntese da visão partilhada. Quando a isto se juntam os filhos, o mundo dos casais descobre a sua densidade, a sua plausibilidade e a sua durabilidade.

Falando sobre este ponto de vista, o matrimônio é uma relação de amor, de complemento e de suporte no centro daquilo a que se chama «refúgio de um mundo insensível».

A função do matrimônio mudou no seio da sociedade, bem como a função das pessoas no próprio matrimônio. Como o demonstrou Jack Dominiam, desempenhar o papel determinado para o homem ou a mulher e serem fiéis, fazem uma boa equação para um «bom» casamento. Hoje, não há papeis bem definidos socialmente para as pessoas. As fronteiras são flutuantes. Isto foi um dos fatores que contribuiu para o que certos escritores descreveram como a crise do matrimônio moderno. Todavia, sempre que a crise apresenta um perigo, também pode apresentar uma oportunidade. O casal cristão, hoje, tem a possibilidade de oferecer um modelo do Amor de Deus ao mundo. Ao tornarse uma verdadeira comunidade de amor, ainda que imperfeita, reflete um dos maiores mistérios cristãos – o Espírito Santo, o Pai, o Filho e a relação de amor entre eles, personificada pelo Espírito Santo - refletida e representada humanamente no casal, o marido e a mulher, e a sua relação de amor ou o seu «espírito santo». Citando Jack Dominian «O amor é o espaço de encontro do divino».

Num tempo de grandes mudanças no mundo, como a globalização, a destruição do ambiente e a enorme disparidade entre as pessoas e as nações, é imperativo que os cristãos vivam o mundo do Amor de Deus. Isto significa que os casais cristãos precisam viver a sua vocação com fidelidade, com grande generosidade e com paixão de que são capazes para poderem dar aos outros um caminho para encontrarem a estabilidade e o suporte, mas também uma forma de conhecer Deus. Eu / Nós, como casais, podemos esperar isto e, mais uma vez, o mundo pode dizer : Olhem como estes cristãos se amam um ao outro”.

Pat e Marguerita Goggin