DESAFIOS DA FAMÍLIA NO SÉCULO XXI

UMA MUDANÇA DE ATITUDE PESSOAL

Sabemos que todos os problemas educativos são sempre, em última instância, questão de falta de “bom amor”, e assim é relativamente claro o modo como temos de procurar comportar-nos para resolver as situações menos favoráveis que possam surgir no lar.

Temos sempre de olhar, antes de mais, para nós mesmos, para cada um, para melhorar a nossa atitude e as nossas disposições e a qualidade do nosso querer: A resolução de qualquer dificuldade que afete uma família encontra normalmente o seu ponto de partida e o seu motor insubstituível numa mudança estritamente pessoal -minha- que produza, como conseqüência, uma elevação do amor recíproco... acima de tudo entre os cônjuges, pois de uma boa sintonia na vida matrimonial depende o desenvolvimento de todos e de cada um dos membros da família.

Recordemos, então, que a essência do matrimônio é o amor e que o momento decisivo de todo o amor é a entrega que se configura de uma maneiro muito particular e intensa entre os esposos, pois ambos se dão e recebem na sua própria pessoa totalmente, sem reservas: cada um se oferece a si mesmo sem condições à pessoa amada, ao mesmo tempo que a acolhe também sem reservas.

Deste modo, a chave do êxito da convivência matrimonial consiste em nos libertarmos dos laços que nos atam ao próprio “eu”-os nossos caprichos, os nossos critérios, o nosso afã de nos impormos e de termos razão - de modo que se torne viável uma entrega cada vez mais intensa ao nosso cônjuge, para que nos possamos dar verdadeiramente e, simultaneamente, irmo-nos desprendendo e esvaziando de nós próprios para dar espaço ao outro no nosso interior, e poder acolhê-lo sem restrições.

Como fazê-lo? Lutando por melhorar a nossa própria conduta e aprendendo a perdoar e a pedir perdão.

TRÊS AVISOS

Prestemos atenção a estas três sensatas anotações de Ugo Borghello: “Perante qualquer dificuldade na vida de relação, todos deveriam saber que existe uma única instância com o dever de atuar para que a situação melhore: as próprias pessoas envolvidas na relação. Isto é sempre possível mas, normalmente, pretende-se que seja o outro cônjuge a mudar, o que quase nunca se consegue”.

“É decisivo ter uma vontade radical de entrega de si ao outro. Muitas vezes, os cônjuges dedicam-se a julgar e medir o amor do outro, a doação do outro, descuidando assim da doação incondicional de si próprios. O dom de si só pode exigir-se a si mesmo, enquanto que o dom do outro nāo se consegue pela exigência, mas criando um clima de doação. Como repetia São João da Cruz: “onde nāo há amor, pōe amor e encontrarás amor”: o amor atrai o amor.

“É inútil e contraproducente pretender, seja interiormente ou por manifestações verbais, que o outro ou a outra mude, do modo como eu o digo e porque eu lho digo. É preciso favorecer e contribuir para a melhora, mas sem a “pretender” e, muito menos, exigir. É preciso valorizar tudo aquilo que acontece no outro ou na outra e não basta amar e ter carinho; é preciso que o outro se sinta amado e estimado. Pode se afirmar, sem medo de errar, que muitas famílias fracassam porque, devido muitas vezes, a um orgulho semi-consciente, cada um está convencido de que é o outro que deve mudar, ou pelo menos que deve ser o primeiro a fazê-lo”.

Daqui resulta um princípio muito claro, que o próprio Borghello enuncia assim: “Se queres mudar o teu cônjuge, muda tu primeiro, em alguma coisa”. E explica: “Existe sempre alguma coisa no tom de voz, no modo de recriminar, de apresentar um problema, que eu posso melhorar. Normalmente, basta que eu o faça para que a outra pessoa também mude”.

Se assim não acontecer após alguns dias de mudança efetiva da minha parte, é conveniente falar: reconhecer os próprios erros passados, fazer notar que, desde há algum tempo a esta parte tem havido alguns progressos e, logo de seguida, pedir ao cônjuge uma pequena transformação que torne mais fácil amá-lo com os seus defeitos. A partir daqui, se o outro está de acordo, o mais importante está ganho. Sem dúvida, seria exagerado pretender que, a partir desse momento, não se caia mais no defeito admitido. Basta que lute.

O importante, na arte do diálogo, é que cada um reconheça defeitos os próprios, sem necessidade de se encarniçar nos do outro. Quem nunca tiver tentado modificar o seu próprio modo de atuar para ajudar os outros a fazê-lo, basta que procure fazê-lo e notará, de imediato, uma melhoria perceptível e, nalguns casos, assombrosa.

O PERDÃO COMOVE AS ENTRANHAS DO MUNDO

Suponhamos uma família numerosa reunida no fim do dia, à volta da mesa, para jantar. A conversa corre, como de costume, entre os episódios do dia, recordações, projetos de cada um... E, também como de costume, entrecortada por alguma discussão, sobretudo entre as crianças. Mas essa noite, por qualquer razão, o pai está tenso e, perante a disputa dos pequenos, não sabe reagir, como das outras vezes, com uma piada discreta que tire importância ao assunto, distenda de novo o ambiente e dê por terminada a questão. Pelo contrário, eleva o tom de voz, recrimina os revoltosos e sufoca o agradável clima do jantar em comum...

A māe, delicadamente, entra em cena, mas não consegue restabelecer a harmonia e o bom humor. Quem mais sofre com tudo isso é logicamente o pai. Talvez se desculpe perante os filhos reconciliados... mas nem por isso recupera completamente a paz. E chega a hora de deitar-se. É o momento decisivo e, na calma sossegada do leito, procura desculpar-se perante a esposa... Mas esta nem o deixa falar: um beijo transbordante de compreensão e ternura fecha a boca arrependida e um abraço mais eloqüente que qualquer palavra encerra para sempre o assunto.

Que sentimentos se cruzam no marido? Os de uma profunda gratidão apaixonada, muito superior à dos dias que passam sem desavenças. Na verdade, como comenta com muita acuidade Marta Brancatisano, num dos livros mais atraentes que se escreveram sobre o casamento, “ser amados quando somos os heróis ou os primeiros da aula, nem sequer nos dá muita satisfação; mas ser amados quando somos e nos comportamos como uns vermes... ah! isso sim, é qualquer coisa que comove as entranhas do mundo, que provoca um espanto capaz de dar nova vida a quem recebe um amor assim”. Uma nova vida que facilita imenso a mudança pessoal, a melhoria decisiva..., capaz de resolver todas as contrariedades da vida em família.

Em resumo, o maior desafio e a condição irrenunciável da felicidade numa família está em convencer-se de que a chave para superar 99% dos problemas que surgem no lar consiste em empenhar-se pessoalmente – cada um! – em incrementar a categoria do seu próprio amor, esquecendo-se de si e pondo em surdina os seus “direitos”. Isto vale tanto para o que se refere ao casal, como para as relações com os filhos e dos irmãos entre si. Lutando por modificar a nossa conduta, tornando mais pura e eficaz a nossa entrega, enriquecer-se-á, primeiro que tudo, a vida conjugal e, através dela, a do conjunto da família... e, a longo prazo, a da humanidade inteira.

PARA TRANSFORMAR O MUNDO

No contexto dos desafios que se colocam à família, João Paulo II, quase no início do seu pontificado, em 1979, fixava este principio esclarecedor e inquestionável: “Tal a família, tal a nação, porque tal é o homem”. Atualmente, o alcance desta afirmação cresceu. De fato, daquilo que cada um de nós faça no seio do seu próprio lar depende, não só a boa saúde da nossa família e dos nossos respectivos países, mas, em virtude das profundas transformações ocorridas nas últimas décadas (a famosa globalização), o bem-estar da humanidade no seu conjunto.

Por isso, temos de persuadir-nos de que cada qual enobrecer o seu amor é aquilo que assume uma importância maior e incomparável, e tem a longo prazo, no seio de cada casal, uma eficácia insuspeitada... para o aperfeiçoamento das relações entre todos os homens. Neste sentido, são quase proféticas e extremamente eficazes as convicções que o mesmo João Paulo II manifestou no último jubileu das famílias, em 15 de outubro de 2000: “Ao ser humano, não bastam as relações simplesmente funcionais. São necessárias relações interpessoais, cheias de interioridade, gratuidade e espírito de oblação. Entre estas, é fundamental a que se realiza na família, não só nas relações entre os esposos, mas também entre eles e os seus filhos”. E acrescentou a seguir, com o vigor a que nos habituou e como que para explicitar o sentido mais profundo das suas palavras: “Toda a grande rede das relações humanas nasce e regenera-se continuamente a partir da relação na qual um homem e uma mulher se reconhecem feitos uma para o outro e decidem unir as suas vidas num único projeto de vida”.

Tudo isso depende do crescimento do amor conjugal: “de um homem e de uma mulher”, de tudo o que cada um dos esposos faça através do seu carinho. Mas, infelizmente, nos nossos dias, o casamento não goza da boa saúde que seria de desejar. Considero, por isso, que a nossa principal missão neste início de milênio consiste em divulgar a conhecida exortação do Papa na encíclica Familiaris Consortio: “Família, torna-te naquilo que és!”. Para além de a divulgar, devemos traduzi-la em outra mais concreta e exigente, dirigida de maneira imperiosa a cada cônjuge: torna-te naquilo que és! E procura, mediante uma purificação do teu amor pessoal, fazer do teu casamento o que, pela sua natureza, está chamado a ser.

Eis a forma mais rápida e eficaz (e a mais acessível) de contribuir para a felicidade de todos os homens.

Tomás Melendo

Catedrático de Filosofía (Metafísica)

Diretor dos Estudios Universitarios sobre la Familia da Universidade de Málaga, Espanha