DECÁLOGO DA FAMÍLIA

1. Formas de conduzir a família por um caminho de aperfeiçoamento constante não é tarefa fácil. As exigências da vida atual (trabalho, horários diferentes…) podem dificultar a colaboração e interação. Por isso, é necessário estabelecer ordem e prioridades em relação a todas as obrigações, tarefas, tempos livres e aprender a viver com tudo isso. Deve ser superada a maneira de pensar e atuar em que cada membro apenas cumpre uma tarefa específica e isolada dos outros: o pai trabalha e ganha, a mãe cuida da casa e dos filhos, os filhos estudam e obedecem. É preciso refletir que o valor da família se baseia fundamentalmente na presença física e espiritual das pessoas com disponibilidade para a convivência e o diálogo, fazendo esforço por cultivar pessoalmente os valores e assim transmiti-los e ensiná-los.

2. A primeira coisa que devemos resolver numa família é o egoísmo: o meu tempo, a minha diversão, os meus gostos, o meu descanso… Se cada um só pensa em si, se o pai chega e se acomoda, se a mãe se fecha na cozinha, se os filhos se agarram ao televisor ou computador, como encontrar tempo para conversar e partilhar? A generosidade faz-nos superar o cansaço para escutar os problemas das crianças ou jovens. Mas há que promover: - iniciativas de encontro, convivência e lazer; - a atenção ao que possa impedir a convivência, v.g. no uso ordenado da televisão… A união familiar não se faz numa fotografia. Vai-se tecendo todos os dias com pequenos pormenores de atenção e carinho.

3. Outra idéia fundamental é que em casa todos são importantes: ninguém é melhor ou superior. Deve-se valorizar o esforço e a dedicação postos no trabalho, no estudo, na ajuda da casa. Quando cada membro da família se sente apreciado, respeitado e compreendido, melhora a auto-estima, melhora a convivência e fomenta o espírito de serviço.

4. Seria utópico pensar que a convivência quotidiana está isenta de diferenças, desacordos e até discussões. A solução não está demonstrar quem manda ou tem razão, mas em mostrar que somos compreensivos e temos auto-domínio para controlar os desgostos e o mau gênio. Todo o conflito cujo resultado é desfavorável a uma das partes diminui a comunicação e a convivência. Há que aprender a exercitar a arte do diálogo  e da reconciliação.

5. É importante sublinhar que os valores que se vivem em casa e se transmitem aos outros como uma forma natural de vida, isto é, pelo exemplo, com o testemunho de vida.

6. Muitas famílias encontram na fé e nas práticas da fé um guia e uma força para elevar a sua qualidade de vida. É que não existe verdadeira qualidade de vida sem vida espiritual de qualidade. Na vivência da fé forma-se a consciência para viver os valores diante de Deus e no serviço aos irmãos. Por isso, na fé encontra-se uma motivação mais elevada e mais íntima para formar, cuidar e proteger a família.

7. A família tem a responsabilidade de oferecer uma educação integral, que englobe as várias dimensões da pessoa humana: o desenvolvimento físico, intelectual, moral e espiritual. Neste caso os pais são os primeiros, embora não os únicos educadores dos filhos. Compete-lhes exercer com sentido de responsabilidade a ação educativa em estreita e vigilante colaboração com as instituições educativas.

- Há que propor algumas regras fundamentais de comportamento e não deixar entregue ao desenvolvimento espontâneo das suas inclinações. O facilitismo não é caminho de educação.

- Há que cuidar da educação cívica, das boas maneiras para não caírem na insolência, má educação, agressividade.

- Os pais têm uma particular responsabilidade no campo da educação da afetividade e da sexualidade. Para um crescimento equilibrado, os filhos deviam aprender de modo ordenado e progressivo o sentido e o significado da sexualidade humana e os valores humanos e morais que com ela estão relacionadas, evitando visões distorcidas. A melhor educação é a educação no amor e para o amor verdadeiro.

8. Para que uma família seja feliz não é preciso calcular o número de pessoas necessárias para consegui-lo, se cada um dos membros assume com responsabilidade e alegria o papel que lhe compete desempenhar, procurando o bem estar, o desenvolvimento e a felicidade dos outros.

9. Toda a família unida é feliz para além da situação econômica: os valores humanos não se compram; vivem-se e transmitem-se como o dom mais precioso que podemos dar. Não existe a família perfeita, mas sim aquelas que lutam e se esforçam por sê-lo.

10. Espiritualidade de comunhão, como alma de toda a vida familiar.

António Marto - bispo de Viseu