A FAMÍLIA FAZ BEM OU MAL À SAÚDE MENTAL?

A sociedade glorifica a família e recomenda, enfaticamente, que o amor aos pais deve ser sempre incondicional. Dos pais aos filhos, o amor deve ser obrigatório, entre os irmãos o amor deve ser

 compromissado, como um pacto de fraternidade e, finalmente, entre os pais, o amor deve ser bastante teatralizado.

A sociedade não quer, de jeito nenhum, que se acredite na possibilidade dos pais maltratarem os filhos, sendo que a maioria de suas atitudes, sejam elas hostis ou não, inquestionavelmente, são para o bem dos filhos. A sociedade entende, a seu modo, quando os filhos dizem, em alto e bom som, que amam seus pais “apesar de tudo”... Certamente vão para o céu.

Mas a psiquiatria suspeita, ou melhor, a psiquiatria sabe como são e quais são as conseqüências dos complexos e dos vínculos ambivalentes que ligam filhos aos pais e vice-versa, como esses relacionamentos são cheios de ódios, amores, culpas e conflitos. Como os sentimentos são dissimulados sob a capa das boas intenções, mascarados por doenças psicossomáticas, teatralizados nas chantagens emocionais e assim por diante.

A psiquiatria sabe de tudo e, se a situação continua assim (ao longo das gerações), é porque a psiquiatria também sabe que, na maioria das vezes, seria uma catastrófica heresia desmascarar todo mundo. Aliás, todos, até você que está lendo, concordam com o que dissemos, DESDE QUE OCORRA NA FAMÍLIA DOS OUTROS. São poucos os honestos... Bem, por ora vamos deixar essa questão de lado.

Para estudos psicodinâmicos com a família deve ser levado em conta não só a família nuclear (pais e irmãos), mas o parentesco ampliado em duas ou três gerações ascendentes. Tal inclusão se justifica pelas peculiaridades das situações vividas e, principalmente, revividas em espelho entre os filhos e os pais, entre os cônjuges e suas projeções.

Essas projeções se dão, normalmente, da mãe para a esposa e do pai para o marido. Sabemos ser comum que filhas de alcoólatras se casam com outro alcoólatra, que filhos superprotegidos se casam com esposas protetoras e submissas. Por causa dessa perpetuação das relações familiares é que, muitas vezes, o filho está vivendo uma situação cujo início se deu duas gerações antes.

Recomendamos o filme Festen (The Celebration, em inglês e Festa em Família, em português) do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg, como um bom exemplo do ambiente hipócrita-neurotizante do seio familiar e dos esforços de seus membros em manter ocultas, à sete chaves, todas as mazelas que descaracterizam a harmonia ideal. Outro filme que retrata bem essas mazelas familiares é o italiano Parente Serpente, de Mario Monicelli, mestre da sátira e da comédia de costumes. (veja o resumo) .

Será a família, quem faz mal à pessoa?

Qualquer psiquiatra atento, invariavelmente terá uma dúvida crucial ao longo de sua carreira: qual seria a real influência da família sobre o estado emocional de uma pessoa? Essa dúvida se manifesta diariamente, durante anos, sempre que um paciente insinua sobre suas aflições decorrerem de relações problemáticas, passadas, presentes ou num suposto futuro, com seus pais, cônjuge, filhos, irmãos e/ou avós.

Como se não bastasse essa diversidade incômoda de parentes que podem ser responsabilizados por angústias e transtornos emocionais, muitos também atribuem suas angústias, não a esses parentes, mas à falta deles: “fui criado por tios”... “a ausência de meu pai (ou mãe) me fez muita falta...”. Mas..., que diabos? Parece que a família faz mal, tanto por sua presença, quanto por sua ausência, de forma que a pessoa parece estar sempre e sofregamente, preso à sua família ou em busca de uma.

Talvez a questão toda decorra da incansável busca do ser humano, pelo equilíbrio entre aquilo que é desejável e aquilo que é possível ou, melhor ainda, talvez decorra do distanciamento, lamento e mágoa das pessoas diante das situações possíveis, reais e concretas, tomando como parâmetro exclusivo de felicidade aquilo que seria desejável.

Os sentimentos que as famílias despertam nos psiquiatras são variados e curiosos. Inicialmente, de modo geral, há uma tendência em condenar as famílias, supondo que a maioria dos sofrimentos do cliente possa decorrer de dinâmicas familiares grosseiramente doentias.

Em seguida, observando-se melhor o cotidiano, os psiquiatras constatam uma série de casos incongruentes; famílias aparentemente bem estruturadas podem abrigar pessoas com sérios problemas emocionais e comportamentais, enquanto, por outro lado, pessoas sem nenhuma estrutura familiar podem, aparentemente, desenvolver-se de forma maravilhosa.

Considerando essas curiosas observações, juntamente com aquilo que dissemos antes, sobre a família fazer mal, tanto por sua presença quanto por sua ausência, podemos estar cometendo um engano grosseiro ao procurar, exclusivamente na dinâmica familiar, as responsabilidades pelos estados emocionais e pela tonalidade afetiva das pessoas.

Talvez o cerne do problema esteja na pessoa e não na família. Ou, com certo medo de sermos injustos, talvez a família ou a falta dela desencadeiem reações não-normais em pessoas previamente susceptíveis.

De fato, há suspeitas sobre tipos de pais que contribuem para problemas emocionais dos filhos. Vejamos a lista (abaixo) paradoxal e muito curiosa das características atribuídas aos pais que seria capazes de causar eventuais desconfortos emocionais nos filhos:

Causariam sofrimento emocional os pais...

1 – omissos e ausentes

2 – tiranos e opressores

3 – que exigem muito

4 – que não exigem nada

5 – que nutrem fortes expectativas sobre os filhos

6 – que não se interessam tanto pelos filhos

7 – que se separam para não brigarem mais

8 – que não se separam mas brigam

9 – que só pensam em dinheiro

10 – que não ensinam a valorizar o dinheiro

11 – muito enérgicos (que limitam muito)

12 – muito camaradas (não dão limites)

13 – que não entendem (ou não querem entender) os filhos

14 – que interferem muito e querem saber de tudo

15 – que proíbem muito

16 – que permitem muito

17 – que nunca estão satisfeitos

18 – que acham que está sempre tudo muito bom

19 – etc.

20 – anti etc.

Ora, diante de tamanha diversidade de atitudes atribuídas ao mau desenvolvimento emocional dos filhos, é lógico considerar que o “defeito” estaria mais na pessoa do filho que nas atitudes dos pais.

A medicina não pode achar que a hipertensão, por exemplo, seja causada por uma dieta rica em sal, ou por excesso de absorção desse sal, ou por excesso de água, por falta de eliminação dessa água, por excesso de preocupações, pelo tédio de não ter o que fazer, por condições climáticas, por razões étnicas, por estresse, por questões familiares, etc. A medicina não deve calcar suas investigações exclusivamente em como a pessoa fica hipertensa mas, sobretudo, porque fica hipertensa essa determinada pessoa. Ou seja, a medicina deve investigar predominantemente o hipertenso, mais do que seu entorno, já que esse entorno é compartilhado por muitas outras pessoas sem hipertensão. 

Nessa linha de raciocínio, chegamos a suspeitar que uma família provedora do bom crescimento emocional e desenvolvimento psíquico satisfatório de seus membros não é, obrigatoriamente, aquela com ausência de conflitos. Aceitando a idéia de Féres-Carneiro (1992), pode ser que o potencial para um bom crescimento emocional e um satisfatório desenvolvimento psíquico esteja centrado nas possibilidades que a família tem de encontrar alternativas para a solução se seus problemas e dos problemas de seus membros.

A lógica e sensatez parecem deixar claro que uma família intacta, porém cheia de conflitos e tensa, pode ter menos possibilidades de propiciar saúde a seus filhos que outra família com menos conflitos e mais estável, independente da família ser original ou reconstituída (recasada). Parece, também, que a capacidade de harmonia do vínculo conjugal e, conseqüentemente, do núcleo da família, pode ser considerado um indicador de saúde emocional dos pais, com reflexos sobre o bem estar dos filhos (Wagner, Ribeiro, Arteche, Bornholdt, 1999).

Ainda através da lógica e da sensatez, os fatos observados no cotidiano clínico sugerem que, embora possa ser importante o clima emocional do ambiente familiar no desenvolvimento psicológico e emocional dos filhos, essa importância se realça na medida em que as alterações familiares tendem aos extremos. No caso da expressiva maioria das famílias, onde se constata uma dinâmica e estrutura familiar estatisticamente comum (sem extremos), parece que saúde emocional dos filhos também se mantém sem extremos.

Além dos aspectos familiares que se reconhecem importantes na saúde mental de seus membros, talvez a outra variável igualmente ou mais importante ainda, seja a constituição da personalidade das próprias pessoas. Às vezes, tentando um misto de ironia e brincadeira, costumo perguntar ao paciente que atribui todos os seus males a algum aspecto familiar que acha relevante, quem é o psiquiatra dos irmãos dele.

Sim, porque se ele está procurando tratamento para um estado emocional “seguramente” decorrente de algum acontecimento familiar, sendo seus irmãos participantes da mesma família e, muito possivelmente, terem vivenciado o mesmo ambiente, então, certamente estão às voltas com algum outro psiquiatra. Quase sempre os outros irmãos (ou a grande maioria deles) estão bem.

Esse enfoque é importante, na medida em que muitos pais se afligem diante das dúvidas sobre conseqüências de possíveis falhas suas no desenvolvimento dos filhos. Ora, todos sabemos que, numa mesma família, entre os irmãos pode haver desenvolvimentos emocionais diferentes, apesar de todos eles vivenciarem o mesmo ambiente. Isso sugere que fatores pessoais possam ser determinantes tão ou mais importantes que o ambiente familiar.

A observação clínica cotidiana dos fatos permite arriscar ser perfeitamente possível, existirem bons níveis de saúde emocional familiar, a despeito de expressões domésticas de agressividade, raiva e hostilidade. Podemos encontrar famílias com tais componentes psicodinâmicos e, concomitantemente, com expressivas manifestações de carinho, fraternidade, coesão, apoio mútuo, ternura e afeto.

Assim sendo, considerando a importância da família e da personalidade no desenvolvimento emocional saudável de seus membros, podemos perguntar agora; como é esta família que faz bem à saúde? Como é esta família que faz mal à saúde?

Será a pessoa, quem faz mal à família?

Muitas vezes nos deparamos com famílias muito bem organizadas e estruturadas mas, não obstante, promovedoras de grande desconforto emocional em seus membros, geradoras de conflitos, de crises emocionais, depressão, recorrência à drogas e até suicídio.

De antemão podemos dizer que as atitudes de diálogo, compreensão, intencionalidade comum e cumplicidade dos problemas influem mais que a própria estrutura familiar no bem estar emocional de seus membros. Isso significa que não basta a família manter-se sem brigas, se a ausência das desavenças significa apatia, indiferença e distância entre seus membros. Às vezes alguns clientes parecem surpresos ao descobrirem problemas emocionais e comportamentais em familiares, uma vez que “nunca nem discutimos em casa, doutor...”, ou ainda, apesar “de estarmos casados há mais de 20 anos, sem brigas e sem desavenças...”.

A literatura médica tem acompanhado (ainda discretamente) as contundentes transformações da estrutura familiar que vem acontecendo nas últimas décadas. Entre essas transformações estruturais, as famílias recasadas ou reconstituídas ocupam lugar de destaque.

A tradicional estrutura do tipo pai-mãe-filhos tem sido substituída por mãe-filhos, pai-filhos, pai-madrasta-filhos ou mãe-padrasto-filhos (Wagner e col.,1999), exigindo de todos os membros da família uma adaptação aos novos papéis e à nova estrutura. Alguns autores vêm nesse processo de transição um esforço adaptativo e, conseqüentemente, um momento de crise (Costa, 1991, 1992). Mas esses momentos de crise podem ser superados quando os membros da família com nova estrutura, construírem um ambiente de cordialidade, tolerância, compreensão e carinho.

Assim como os primeiros anos de casamento são marcados por uma atmosfera de compreensão e felicidade entre o casal e, mais adiante, entre o casal e os filhos, também os primeiros tempos do re-casamento podem comportar esse clima, o qual expressa o sadio desejo de "dar certo".

Dessa forma, podemos dizer que quando a intencionalidade dos membros da família (original ou reconstituída) for expressa em atitudes dirigidas para “que tudo deve ser feito para dar certo”, e o empenho das pessoas seja no sentido de “sermos felizes”, muito estará sendo feito para o bem estar emocional de todos.

Portanto, muito além da estrutura familiar, as atitudes de seus membros são determinantes para o bem estar geral. Para isso os membros devem compreender a realidade da família e, compreender a realidade da família, significa estabelecer limites entre o possível e o ideal, entre como gostaríamos que fosse e como é de fato, entre o que pode ser mudado e o que é desse jeito. Algumas coisas dependem do destino, algumas outras das pessoas...

Enfim, compreender a realidade da família é uma das formas que favorecem o bem estar de seus membros e a saúde emocional de todos. Todas atitudes que contribuem para relações mais harmoniosas, que resultam em maior tolerância e compreensão na tentativa de construção ou reconstrução da família, parecem contribuir para a sensação de bem-estar de todos os membros.

Ballone GJ, Ortolani IV - A família faz mal à Saúde?

Referências

Féres-Carneiro, T. (1992). Família e saúde mental. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 8, 485-493

Wagner A, Ribeiro LS, Arteche AX, Bornholdt EA (1999) -Configuração familiar e o bem-estar psicológico dos adolescentes - Psicol. Reflex. Crit. v.12 n.1 Porto Alegre.

Scazufca M (1998) - Avaliação de emoção expressa (EE) em familiares de pacientes psicóticos - Revista de Psiquiatria Clínica (25) 6 - novembro/dezembro

Brown, G.W. – Experiences of Discharged Chronic Schizophrenic Patients in Various Types of Living Groups. The Milbank Memorial Fund Quarterly 37:105-131,1959