A DIFERENÇA DE SEXOS, SER PARA O OUTRO

Por que crê que a carta sobre a colaboração entre homens e mulheres foi mal recebida por muitos meios de comunicação?

Porque estamos perigosamente acostumados aos fatos mais dramáticos e escandalosos que os meios de comunicação nos apresentam diariamente, postos convenientemente em cena para satisfazer a morbidez de um grande público: um marido pega uma arma e mata sua mulher em um ataque de raiva; outro atira seu parceiro pela janela; um terceiro fere a sua companheira gravemente com uma faca.

Tais cenas podem ocorrer em qualquer cidade tranqüila e pacífica, onde os vizinhos se reúnem rapidamente para expressar seu grande assombro e desconcerto. E depois de escutar lamentos mais ou menos eloqüentes, passamos a outra notícia, com a firme decisão de que a sociedade deve proteger mais as mulheres…

Neste ambiente não surpreende que a Congregação para a Doutrina da fé se tenha referido em uma Carta especial tanto a homens como a mulheres. Não é seu propósito defender unicamente a dignidade feminina, como o fez o Papa João Paulo II, com grande sensibilidade, há 16 anos, na carta apostólica «Mulieris dignitatem», documento que causou admiração inclusive entre alguns círculos feministas mais radicais.

Hoje, ao contrário, além de assinalar claramente os direitos legítimos da mulher - e empenhar-se para que sejam respeitados nos cinco continentes -, é necessário falar também dos deveres de ambos sexos.

Dito de um modo mais fascinante, chegou a hora de recordar às pessoas sua grande missão neste mundo. Todas elas foram criadas para ser «águias», capazes de voar muito alto, para o sol, e não deveriam diminuir a si mesmas, comportando-se como «galinhas» que não fazem mais que pelejar sem cessar e ciscar os grãos que encontram no solo.

Vê continuidade entre esta Carta e a «Mullieres dignitatem»?

Tanto a «Mulieres Dignitatem» como a recente Carta sobre a colaboração se remontam aos textos do Gênesis para assinalar o grande valor do ser humano.

«Façamos o homem à nossa imagem e semelhança» (Gênesis 1, 26), disse Deus no momento culminante de sua obra criadora. O relato criador dá testemunho de uma diferença originária entre o homem e a mulher. «Então, Yahveh fez cair um profundo sono sobre o homem, o qual dormiu. E lhe tirou uma das costelas, preenchendo o vazio com carne. Da costela que Yahveh havia tomado do homem, formou uma mulher, e a levou ante o homem. Então, este exclamou: “Esta vez sim que é osso de meu osso e carne de minha carne”».

Esta será chamada mulher, porque do homem foi tomada (Gn. 2,21 - 23).

Alguns interpretam isso como uma suposta subordinação da mulher.

Deste texto não se pode deduzir de nenhuma maneira que a mulher esteja subordinada ao homem ou que seja inferior a ele (uma simples «costela») já que Adão, antes do sono, não fazer referência ao varão, mas à pessoa humana enquanto tal.

O autor do Gênesis não fala da diferença sexual (Adão tem ainda sua «costela»), mas que assinala que o homem (homem e mulher) é sonho da criação que rodeia. Ali está também presente a mulher que dá nomes aos animais, e se encontra só, sem uma companhia adequada.

O sono de Adão solitário expressa o mistério: é Deus mesmo que atua na criação do ser humano; e seus planos estão muito acima dos nossos. Na Sagrada Escritura, o sono, não rara vezes, é espaço de revelação. (Baste recordar os sonhos de Jacó ou de José). E, finalmente, «depois do sono» aparece a diferença sexual: Adão e Eva se reconhecem como iguais e complementares. Por isso se pode dizer que Deus criou o homem e a mulher em um único ato misterioso. Não há direita sem esquerda, não há acima sem abaixo e tampouco existe o homem sem a mulher.

Aqui se vê com clareza que a diferença sexual não é nem irrelevante nem adicional, e tampouco é um produto social, mas que deriva da própria intenção do criador.

A Carta insiste no papel da mulher de acolher o outro. Você assinala que também o homem é um ser para o outro. Pode explicar mais?

Ao criar o ser humano como homem e mulher, Deus quis que o ser humano se expressasse de dois modos distintos e complementares, igualmente belos e valiosos.

Certamente, Deus ama tanto a mulher como o homem. Deu a ambos a dignidade de refletir sua imagem e chama ambos para a plenitude.

Mas, por que os fez diferentes? A procriação não pode ser a única razão, já que esta seria também possível de forma partenogenética ou assexuada, ou por outras possibilidades como as que se podem encontrar, em grande diversidade, no reino animal. Estas formas alternativas são ao menos imagináveis e dariam testemunho de uma certa auto-suficiência.

A sexualidade humana, ao contrário, significa uma clara disposição para o outro. Manifesta que a plenitude humana reside precisamente na relação, no «ser para o outro». Impulsiona a sair de si mesmo, buscar o outro e alegrar-se com sua presença. É como o selo de Deus do amor na estrutura mesma da natureza humana.

Ainda que cada pessoa seja querida por Deus «por si mesma» e chamada à plenitude individual, não pode alcançá-la, mas senão em comunhão com outros. Está feita para dar e receber amor. Disto nos fala a condição sexual que tem um imenso valor em si mesma.

Ambos sexos estão chamados pelo mesmo Deus a atuar e a viver conjuntamente. Essa é sua vocação. Pode-se inclusive afirmar que Deus não criou homem e mulher para que gerem novos seres humanos, mas que, ao contrário, o ser humano tenha a capacidade de gerar para perpetuar a imagem divina que ele mesmo reflete em sua condição sexuada.

A sexualidade fala por sua vez de identidade e alteridade. Homem e mulher têm a mesma natureza humana, mas a têm de modos distintos, recíprocos.

A carta toma o Gênesis como matriz. Em que ponto está a exegese nestas questões?

Segundo algumas interpretações antigas, Adão sai ao encontro de Eva tal como Deus sai ao encontro da humanidade. Portanto, o homem seria ativo, representado Deus; a mulher, ao contrário, seria passiva, representando a humanidade. Para superar esta argumentação, não é preciso repetir os grosseiros protestos feministas a esse respeito.

Basta apelar a nossa experiência diária para destacar que a mulher não é passiva em absoluto. Em todo caso, é receptiva em sua feminilidade, sendo imagem de Deus igual que o homem. O amor perfeito consiste em dar e receber, inclusive na intimidade divina. O poder receber também é uma exigência do amor e, para nós, pode ser inclusive mais custoso que dar, porque exige humildade.

O amor ao que ambos estão chamados se expressa em uma entrega livre e recíproca. Mas esta só é possível se for mútua também a disposição a receber. Assim a receptividade, junto à entrega, aparece como outro elemento constitutivo da comunhão, que, por certo, tem efeitos positivos em ambas direções. Pois ao receber, enriquece-se, fortalece e faz feliz também o outro, dado que a receptividade em si é já um dos maiores dons que se pode conceder a outra pessoa.

Assim se vê a receptividade também aponta a uma atividade, mas a uma atividade que aceita, interioriza e está ao serviço do aprofundamento da ação do outro.

Só se pode compreender integramente a receptividade reconhecendo nela uma maneira especial de atividade, de expressão, de criatividade.

O homem tende constitutivamente à mulher, e a mulher ao homem. Não buscam uma unidade andrógena, como sugere a mítica visão de Aristóteles no «Banquete», mas sim se necessitam mutuamente para desenvolver plenamente sua humanidade. A mulher é dada como «ajuda» ao homem, e vice-versa, o que não equivale a «servo», nem expressa nenhum desprezo. Também o salmista diz a Deus: «Tu és minha ajuda».

A reciprocidade se expressa em múltiplas situações diversas da vida, em uma pluralidade policromática de relações interpessoais, como as da maternidade, a paternidade, a filiação e fraternidade, a colegialidade e amizade e tantas outras, que afetam contemporaneamente cada pessoa. Alguns destacam, portanto, que se trata de uma reciprocidade assimétrica.

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