A importância da Educação financeira

Todo cidadão tem o direito de protestar contra o uso de crianças em peças publicitárias que considerem abusivas. Basta acionar o CONAR (Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária) para insistir que a veiculação do anúncio seja suspensa.

Como lidar com um mundo onde somos condicionados a viver para consumir? Procurando manter os pés no chão. É bom que não se perca de vista que, em princípio, não há nada de errado em consumir. Muito ao contrário. Além de prazeroso, o consumo é necessário, já que traz vigor a economia criando empregos e gerando renda. De fato, o consumo começa a se delinear como problema, a partir do momento em se constitui centro das atenções, valores e energia de nossas vidas. A construção da nossa identidade não deveria estar embasada nos bens materiais, porém percebemos que este equívoco vem se tornando cada vez mais comum. É somente uma questão educacional ou faz parte da sociedade do consumismo?

Do meu ponto de vista, as causas se misturam. De um lado, se há um evidente apelo à construção da identidade social a partir do consumo - sou o que consumo -, de outro é preciso admitir que no Brasil temos sido, para dizer pouco, displicentes ao não preparar adequadamente nossas crianças para lidar com situações desse tipo. Como resultado, criamos um ciclo em que a educação, além de não se interpor às provocações da sociedade consumista, muitas vezes acaba por reproduzi-las, inclusive no ambiente escolar. Qual é a medida para diagnosticarmos quando a questão “finanças” está fugindo da normalidade independentemente da condição econômica de cada um? A não ser nos casos de flagrante mau-caratismo, onde esse pudor não atinge nunca, de modo geral as pessoas angustiam-se ao perceberem-se inábeis para lidar com as finanças.

É bom frisar que quem não sabe lidar com dinheiro não o saberá ganhando R$ 200,00, R$  2.000 ou R$ 20.000. Independente da quantia, os problemas seguirão aparecendo e, quase sempre, com gravidade cada vez maior. Saber ganhar, gastar e poupar, tudo isso sob o signo da ética, são habilidades que todos nós podemos e precisamos desenvolver, de modo a manter em equilíbrio nossas vidas. Como a relação entre pais e filhos pode ficar prejudicada quando o consumismo passa a ser uma medida de amor? De maneiras muito dolorosas.

De um lado, filhos acostumados a ter tudo quanto peçam e até ao que nem precisaram pedir, já na adolescência tendem a padrões de comportamento que incluem apatia; impulsos auto-destrutivos (notadamente o uso de drogas); baixa resistência a frustrações de todo tipo, além de acentuada imaturidade afetiva. Além disso, a relação com os pais assume termos de chantagem, num jogo perverso em que nunca se sabe ao certo "quem está chantageando quem". Há um grande apelo na utilização de crianças em anúncios publicitários que cresce e se torna mais sutil a cada dia. Como você vê esta questão? É sem dúvida um assunto muito controverso. Alguns países europeus, por exemplo, simplesmente proibiram a participação de crianças menores de 12 anos em anúncios publicitários.

Existe, inclusive, forte pressão para que essa medida seja estendida a toda Europa. A simples divulgação dessa notícia no Brasil criou tamanho burburinho, que as agências de publicidade correram a defender com estardalhaço seus interesses, de modo a afastar a idéia de uma proibição desse tipo por aqui. Ainda assim, todo cidadão tem o direito de protestar contra o uso de crianças em peças publicitárias que considerem abusivas.

Basta acionar o CONAR (Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária) para insistir que a veiculação do anúncio seja suspensa. Quem aprende melhor a lidar com o dinheiro: a criança se educada na mais tenra idade ou o adulto que perdeu uma condição financeira estável e tranqüila, algo muito comum no momento atual? Por várias razões, a criança. Em primeiro lugar, se os pais adotam o sistema de mesada, estão dando chance aos filhos de, ocasionalmente, falirem. E se há uma fase boa na vida para ir a falência é na infância. Sem risco de ser processado, ver terminado o casamento, perder a casa ou passar pelo constrangimento de ter o nome incluído nas listas da Serasa ou SPC, falir com tão pouco dinheiro ensina a evitar as grandes falências na vida adulta, que envolveriam muito mais dinheiro e sofrimento. Além disso, o modo como cada um de nós lida com dinheiro costuma ser fixado até por volta dos 5, 6 anos de idade. A partir daí, a tendência a repetir os mesmos padrões de comportamento, sem conseguir estabelecer modificações realmente consideráveis, vai se consolidando no decorrer da vida.

É exatamente por isso que, não raro, encontramos pessoas que alternam, repetidamente, períodos de abundância e falência, sem que pareçam capazes de aprender qualquer coisa com uma ou outra fase. Quais os propósitos da mesada? A mesada, tal como um antibiótico, na dose certa e na hora certa, é um instrumento extraordinário para se levar adiante à educação financeira dos filhos. Entretanto, na hora e na dose erradas traz tanto prejuízo que era melhor que nem fosse dada. Dar mesada exige um grande compromisso dos pais com a educação financeira da criança e, por isso mesmo, não é nada fácil de ser dada da maneira correta. Antes de instituir esse sistema, convêm que o casal tenha clareza do modo e das razões por que pretende lançar mão dele. Qual a importância da educação financeira para a criança? Além de desenvolver um modo saudável, responsável e ético na relação com o dinheiro, a educação financeira prepara para desafios muito específicos ao tempo que vivemos. Não por acaso, mesmo nos países em que ela é um assunto há muito tempo incorporado ao cotidiano, o interesse pela educação financeira vem ganhando força extra. E isso tem a ver com a antevisão de dois cenários.

O primeiro deles, mostra que, se o futuro seguir o que a medicina apregoa hoje, nossas crianças poderão viver até os 120, 130 anos. Quase o dobro, portanto, da expectativa de vida atual. Em conseqüência, serão velhinhos por muito mais tempo. Para que possam viver a velhice com dignidade precisarão ter sido capazes de construir uma boa poupança (que não se vai esperar dos governos saídas para esse impasse). O segundo cenário aponta para o agravamento de uma situação que já observamos hoje: a diminuição, no mundo inteiro do mercado de trabalho. A tendência, aliás, é que venha a ficar cada vez mais restrito com o desaparecimento de várias carreiras profissionais, do modo como as conhecemos hoje.

A superposição dessas duas condições, crescimento da expectativa de vida e restrição crescente do mercado de trabalho, reforçam a necessidade de, sem mais demora, ensinar a nossas crianças a ganhar, gastar e poupar, sem com isso deixar que aprendam a doar não apenas dinheiro, mas também tempo e talento. No início do ano letivo, o material escolar impacta sobremaneira no orçamento da maior parte das famílias brasileiras, mesmo aqueles que tem seus filhos em colégios particulares sofrem com o apelo pelo material mais elaborado, caro, sofisticado, muitas vezes importado. Quais são as recomendações que você faria aos pais? Independente de quanto seja a renda familiar, os pais devem estabelecer e deixar muito claro para os filhos que existem limites para o consumo. Não dá para perder de vista que no “contrato” de todo filho existe uma cláusula que permite a ele perturbar a cabeça dos pais com pedidos de toda ordem. Isso é direito de filho.

Obrigação de pai é fazer valer o bom senso, o que pode implicar em frustrar as exigências das crias, praticamente o tempo todo. Paciência. A isso se dá o nome de educar, e é exigência obrigatória, primordial, de nosso “contrato” como pais. É isso que garantirá, no futuro, filhos equilibrados, responsáveis e maduros em relação ao dinheiro, prontos para tomar as rédeas das próprias vidas.

Cássia D'Aquino Filocre

Educadora com especialização infantil e autora de livros sobre Educação financeira