20 dicas para melhorar a alimentação do seu filho

 

Mãe nunca é tão mãe como na hora em que dá de comer ao filho. Contabilize a quantidade de vezes em que você negociou (Só mais um pouquinho, vai!), fez alguma brincadeira (Olha o aviãozinho!) ou lançou mão de uma chantagem 'do bem' (Quem não come o salgado não ganha o doce!) esta semana. De fato, não há tarefa para a qual uma mãe se dedique com mais afinco. Pode-se atribuir o bom e velho instinto materno, já que alimentação e sobrevivência estão diretamente ligadas. Muitas vezes, no entanto, a relação da mãe com a alimentação do filho é puramente emocional. 'A maioria acha que a criança não come o suficiente', atesta o nutrólogo Mauro Fisberg, chefe do Centro de Atendimento e Apoio ao Adolescente da Universidade Federal de São Paulo e coordenador do Centro de Pesquisas Aplicadas à Saúde e Nutrição da Universidade São Marcos. 'Só que isso, normalmente, não corresponde à realidade. Crescimento e desenvolvimento adequados indicam se a alimentação está correta.' Difícil mesmo é ver uma mãe satisfeita com essa explicação.

 

Em geral, quando a mãe reclama que o filho não come, está se referindo ao fato de ele rejeitar um grupo de alimentos: frutas, verduras e legumes. É uma verdadeira queda-de-braço, em que os adultos não conseguem respeitar as vontades da criança, o que leva muitas vezes a criança a comer mal e errado. Se nós trocamos arroz, feijão e bife por um sanduíche, eventualmente, as crianças também têm suas vontades. Só que a capacidade de a mãe tolerar a recusa do filho é muito menor do que a teimosia dele. E as crianças resistem bem comendo mais ou menos até (acredite!) 15 dias. Haja coração. CRESCER falou com especialistas e selecionou as melhores dicas para lidar com a questão. Bom proveito!

 

1) TOMA O LEITINHO

O leite, rico em cálcio, é um dos alimentos mais importantes na vida dos bebês, fundamental para o crescimento e o fortalecimento dos ossos. Mas até completar 1 ano de vida, ele não deve ingerir leite de vaca in natura: além de aumentar a chance de provocar reações alérgicas, esse leite não tem os nutrientes em quantidades adequadas. Os pediatras costumam recomendar os modificados, em pó. Normalmente bem aceito, o leite torna-se um problema quando a criança, maior, não quer experimentar outros alimentos. Ou, ao contrário, se tem aversão a ele.

 

Leite de mais

Crianças que ingerem grandes quantidades de leite tendem a comer menos nas refeições. Procure diminuir o volume e a freqüência. Evite leite após as refeições, pois o cálcio diminui a absorção do ferro.

 

Leite de menos

A recusa do leite pode estar associada com intolerância à lactose, que causa desconforto intestinal. A intolerância pode ter uma característica genética e é mais freqüente em alguns povos, como os orientais. É possível encontrar no mercado até iogurte sem lactose. O cálcio também está presente em alguns peixes, em vegetais como a couve e no tofu.

 

2) DEPOIS DO ALEITAMENTO

A partir do sexto mês, a Organização Mundial da Saúde recomenda a introdução de outros alimentos, além do leite materno (dependendo do pediatra, isso pode acontecer a partir do quarto mês). Normalmente, suco, fruta e papinha são dados pela ordem mais aceita. Nesse momento, os estoques de ferro do bebê, provenientes da gestação, já estão em baixa e passam a ser repostos pela ingestão de carnes vermelhas e verduras de folhas verde-escuras, como brócolis, couve, etc. O ferro, aliás, é melhor absorvido se for incluída vitamina C na refeição, em um suco de laranja, por exemplo.

 

3) REGRA BÁSICA

Não se desespere! Se o seu filho não comeu em uma das cinco refeições do dia, mantenha as quantidades habituais na seguinte e evite guloseimas fora de hora. Se a fome apertar, lembre-o de que isso, provavelmente, tem relação com o tal almoço pela metade. Acredite, se eles descobrem que uma mãe aflita abre exceções (às vezes bem mais sedutoras), a história tende a se complicar cada vez mais.

 

4) INSISTA!

Às vezes, é preciso expor a criança de 10 a 15 vezes ao mesmo alimento até que ela o aceite. É uma espécie de defesa diante de algo que pode fazer-lhe mal. Um dia, ela adora determinado alimento. Depois de um tempo, passa a odiá-lo. E o contrário também acontece. A criança é muito instável em seus apetites e gostos. Paciência. Jamais tire de vez do cardápio o alimento que foi recusado. Ele pode voltar a ser apreciado quando você menos imagina. Experimente oferecer esses ingredientes em outros formatos. Que tal um pastel, croquete ou sanduíche com recheio de verduras e legumes? Cheeseburger com alface e cenoura ralada? Omelete com escarola, queijo e peito de peru? Substitua a massa da lasanha por abobrinha fatiada. Sucos podem mesclar frutas e hortaliças, como o de goiaba com agrião e melão.

 

5) REFORCE ATITUDES POSITIVAS

Não torne o horário da refeição um tormento.

Evite frases do tipo: Se comer tudo, mamãe vai ficar feliz, Se não comer, vai para a cama agora, Só sairá da mesa se comer tudo. Prefira dizer: Nem vou lhe dizer que comer verdura é importante para você crescer porque é inteligente e sabe disso ou Você não é obrigado a comer, mas um bifinho ajuda a crescer, ficar forte e saudável. Quando seu filho comer de forma equilibrada e saudável, não deixe de elogiar.

 

6) O AVIÃOZINHO

Quem começa fazendo aviãozinho pode se ver obrigado a construir até nave espacial para o filho comer! Essas atitudes desviam a atenção e comprometem a percepção dos alimentos. Saiba que, nos primeiros meses de vida, o bebê tem um reflexo de cuspir o alimento que encosta na ponta da língua. A dica é colocar o alimento no canto da boca com uma colher pequena.

 

7) VITAMINADOS SÃO BENÉFICOS?

Depende. Alimentos enriquecidos com vitaminas e minerais podem ser úteis em casos de deficiência nutricional. Mas é preciso escolher bem. Muitos deles não passam de um monte de açúcar, gordura, corantes e aromas artificiais, adicionados de vitaminas e minerais.

 

8) COMER PRA QUÊ?

Quando a criança começa a se mover com mais desenvoltura - entre 3 e 5 anos -, diminui o seu interesse pela comida, que até então era uma grande fonte de prazer. Tente se conformar. Nessa fase, elas estão muito mais preocupadas em explorar o mundo! Uma dica é deixar seu filho, literalmente, pôr a mão na massa. Ele vai adorar!

 

9) PRATO (PER)FEITO!

Numa dieta saudável, não podem faltar carboidratos (encontrados nos cereais, macarrão, batata, mandioca, pães e farinhas), gorduras (óleos vegetais, azeite, manteiga), proteínas (carnes, frango, peixes e ovos - antes dos 10 meses, use apenas a gema), vitaminas e minerais. As mães tendem a desprezar os carboidratos e as gorduras por acreditar que eles 'só' fornecem calorias. Um engano. As proteínas - importantes no crescimento - são como os tijolos de uma casa, mas os carboidratos e gorduras são a argamassa, fixam os tijolos. Não exclua nenhum grupo. O ideal é equilibrar a alimentação. Falta de carboidrato, por exemplo, causa desânimo e dor de cabeça. Gorduras ajudam na absorção de algumas vitaminas, mas com a epidemia de obesidade, é preciso maneirar. Asse em vez de fritar, tire a pele das aves.

 

Se no café-da-manhã ele só tomou leite (proteína) com cereais (carboidratos), significa que estão faltando vitaminas e minerais. Então, no lanche da manhã, ofereça sucos, por exemplo. A carência desse grupo faz com que a criança se canse com mais facilidade e fique suscetível a doenças. Falta de vitaminas B1 (fígado, leite, aves, peixes, leguminosas, grãos integrais), B12 (carne, fígado, ovos, leite e derivados), C (limão, laranja, tomate, folhas verdes), ácido fólico (miúdos, folhas verde-escuras, abacate, damasco), ferro, zinco (carnes, grãos integrais, fígado), cobre (grãos integrais, legumes, nozes) e magnésio (cereais integrais, pipoca, germe de trigo) pode levar à falta de apetite.

 

10) DEVAGAR

Respeite o tempo do seu filho: ele é diferente do seu. Reserve um intervalo para que a refeição transcorra sem pressa. Não demonstre irritação ou ansiedade no momento da recusa. A criança deve se sentir confortável e tranqüila no momento da refeição.

 

11) QUANTO É SUFICIENTE?

Ofereça os alimentos em quantidades pequenas para encorajar a criança a comer. Muitas mães se baseiam no tamanho do prato ou da mamadeira na hora de estimar se o filho está comendo bem. Mas esses utensílios não devem ser usados como referência, pois em sua maioria são feitos por designers, que raramente fazem pesquisas com uma amostragem significativa de crianças. Além do mais, os tamanhos variam conforme a indústria e a época.

 

12) ESQUEÇA AS TABELAS

Os valores diários de nutrientes para cada faixa etária são úteis para os especialistas como um parâmetro da necessidade média da população. Dificilmente um leigo consegue equacionar todas as necessidades do filho sem causar algum desequilíbrio. Exemplo: se ficar atento só à quantidade de cálcio, acabará se esquecendo do ferro, fósforo, sódio, cobre, etc. São muitas variáveis! De acordo com especialistas, 30 variedades de alimentos por dia, incluindo azeite, sal e temperos como salsinha, são suficientes para fornecer todos os nutrientes. Em uma sopa de legumes, podem ser incluídos até dez ingredientes. O que também vale para a necessidade calórica, que varia conforme a atividade do bebê. Só para ter uma idéia, veja a média de calorias diárias para cada faixa etária:

 

- 6 a 12 meses - 900 calorias

- 1 a 3 anos - 1.300

- 4 a 6 anos - 1.800

- 7 a 10 anos - 2.000

 

13) DESCOBRINDO CORES, SABORES, AROMAS E TEXTURAS

Quando chegar a hora de passar do leite para a fruta, apresente as novidades separadamente, para que a criança identifique os sabores. As papinhas devem ser amassadas com o garfo (jamais no liquidificador) para estimular a mastigação. Não se esqueça de condimentos, como azeite, cebola, alho e sal. Um prato bonito e variado estimula o apetite. Se for divertido, mais ainda. De vez em quando, vale fazer junto com o filho desenhos com a comida, como carinhas, barquinhos, etc. O arroz pode ser misturado com beterraba ou cenoura, ou purê de folhas como almeirão ou agrião cozidos e batidos no liquidificador. Assim os alimentos ficam diferentes e não perdem as vitaminas pelo cozimento. Outra idéia é cozinhar o espinafre e batê-lo junto à massa da panqueca ou do nhoque.

 

14) SINAL VERMELHO

Os salgadinhos do tipo chips e isotônicos têm alto teor de sódio. Em excesso, elevam a pressão arterial. Modere. Para hidratar, prefira água-de-coco ou sucos naturais. Diet ou light não são necessários, a não ser em casos em que há prescrição médica.

 

15) POR QUE INTEGRAL É MELHOR?

Os alimentos integrais, ao contrário dos refinados, mantêm nutrientes importantes para a saúde, como fibras, vitaminas e minerais.

 

16) APOSENTE A CHANTAGEM

Dizer que só ganha sobremesa quem come todo o prato ensina apenas que a refeição é um meio para chegar a algo realmente desejado. Se você quer afastar seu filho da obesidade, não supervalorize os doces. Caso contrário, você pode estar condicionando seu filho a buscar premiação na comida. Dê-lhe abraços, beijos e muita atenção. Sem açúcar, mas com afeto.

 

Isadora, 6 anos, tem suas preferências e aversões. Não gosta de alface e tomate, mas adora arroz, feijão, bife, batata e brócolis. Ok. Hoje em dia tem mais paciência à mesa e domina bem o garfo e a faca, conta a mãe, Amanda Cimarys Camargo

 

17) CONTROLE OS SUPRIMENTOS

Você é quem decide o que comprar e servir aos seus filhos. Apesar dos clamores pelo que é menos nutritivo, quando a criança tiver fome, vai comer o que estiver na geladeira. Evite ter em casa salgadinhos, refrigerantes, chocolates, biscoitos. Quando oferecer, separe uma porção, jamais entregue o pacote inteiro.

 

18) ORGÂNICOS

Apesar de não haver estudos que relacionem o aparecimento de doenças ao consumo de alimentos não-orgânicos, pois isso depende de vários fatores, entre eles os genéticos, o bom senso recomenda que menos química é melhor. O fato de não conterem agrotóxicos também não os torna a única opção no mercado para quem se preocupa com a saúde, já que uma boa higiene dos vegetais é capaz de retirar quase todos os resíduos. Lavar os morangos com água, por exemplo, elimina 90% do agrotóxico da fruta. É bom colocar os vegetais de molho durante 15 minutos, de preferência no bicarbonato de sódio ou solução clorada.

 

19) EXEMPLO É FUNDAMENTAL!

Se você faz careta para fígado, espinafre, jiló ou qualquer outro alimento, saiba que as chances de o seu filho comer essas coisas são mínimas. Se você come em frente da TV, não espere que o seu filho sente à mesa com prazer! Alimentar não é apenas nutrir. É ensinar a comer, uma relação que vai repercutir para sempre em sua saúde e seu estilo de vida.

 

20) NA HORTA OU NA GÔNDOLA

Aproxime seu filho dos vegetais. Se tiver um quintal, convide-o a plantar. Pode ser até mesmo em vasos. Na impossibilidade, leve-o à feira ou ao supermercado. Mostre cada alimento e deixe-o escolher.

 

Fontes: Mauro Fisberg, nutrólogo, autor de Atualização em Obesidade na Infância e Adolescência (Editora Atheneu); nutricionistas Camila Leonel Mendes de Abreu, Cristina Teruko Kariya (Instituto da Criança); Hellen Daniela de Souza Coelho (Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo); Jocelem Mastrodi Salgado, professora da Escola Superior de Agricultura (Esalq/USP) e autora de A Alimentação Que Previne Doenças do Pré-Natal ao 2o Ano de Vida (Editora Madras); Maria Luiza de Brito Ctenas, autora de Crescendo com Saúde (C2 Editora) e Priscila de Mattos Machado Andrade.

retirado da Revista Crescer