OS  DIREITOS  DA  CRIANÇA

Nós crianças, pedimos que os adultos pensem um pouco nos direitos que temos de viver de um jeito legal com mais atenção para aquilo que nos importa de verdade.

    Art. 1 - Termos o direito de dar a nossa própria opinião e não sermos sempre odebientes só porque o outro é grande, forte e apela aos berros dizendo que é pai, mãe, professoras, essas coisas...

    Art. 2 - Poder ficar triste quando os pais se separam e a gente fica sabendo que vai ter que viver só com um deles, e que o outro só vai se poder ver de vez em quando... E ninguém quer saber com qual se preferiria ficar, e se é bom ver alguém que a gente ama num domingo sim, noutro não...

    Art. 3 - De chorar por aquela dor, que dói e dói fundo... De ficar magoado, triste com coisas que deixam a gente muito, mas muito sentido mesmo, e que são coisas lá de dentro da gente. (Feito quando a professora amada do ano passado que hoje é "tia de outras crianças e aquela fingida parece gostar muito delas do jeitinho que dizia que gostava da gente...).

    Art. 4 - De sofrer porque o amigo mais querido mudou de cidade; porque se descobre que Papai Noel não existe; que Deus não ajuda mesmo quem cedo madruga, e que cão que ladra morde, e bravo... Que não dá mais para acreditar que vivemos num de paz e fraternidade, como uns insistem em dizer...

    Ter dúvidas sobre coisas e as pessoas... de repente se perguntar se fantasma existe; de duvidar quando disseram que o avô amado morreu e virou estrela no céu: mas estrela não dá presentes, não conta histórias engraçadas, não traz sorvete pra gente se lambuzar inteiro, nem ensina a roubar no jogo de baralho... Porque às vezes avô é melhor que pai.

    Art. 5 - De ficar chateado quando não percebem que a brincadeira acaba quando ela acaba e não quando resolvem que é hora de terminar... De ficar irritado quando dão opiniões sobre coisas de que não têm a menor idéia... De não querer ser ridicularizado em público quando contam uma besteira que a gente fez, de não ser chamdo por um apelido cretino... De bater a porta com toda força quando se está morto de raiva, prá todo mundo ficar sabendo... De querer ficar invisível e sumir ou poder ser muito, muito forte prá poder esmurrar todos, assim de igual para igual...

    Art. 6 - De ter ciúmes da irmã pequena e da prima que todo mundo adora na família... De ter de fazer de tudo prá olharem um pouquinho só prá gente e depois de muito esforço, receber um carinho tipo distraído... De não gostar de receber coisas usadas pelos outros que não servem mais pra ninguém...

    Art. 7 - De conversar horas e horas com o traveseiro, mesmo porque ninguém presta atenção no que a gente tem para falar... ou ter um amigo invisível para os outros(mas visível prá gente) e nem por isso ficarem achando que se ficou biruta e ficarem trocando olhares do tipo "coitadinho"... De ter um bichinho de estimação mesmo que seja pulguento , feio e sarnento...

    Art. 8 - De não conseguir entender mesmo, porque tudo que é bom é proíbido para criança... De os adultos compreenderem que não é porque criança é pequena no tamanho, que tudo que é para ela tem que ser olhado como coisa sem importância, como algo menor... De não ficar recebendo ordens o tempo todo sobre todas as coisas: criança tem querer e tem saber sim senhor. De poder bater o pé e ser ouvida sobre as coisas que são importantes como a vida da gente por exemplo...

    De entenderem que criança também se sente lesada, que perde coisas... quando recebe castigo injusto ou desmedido... quando tenta explicar alguma coisa e não entendem de jeito nenhum, quando ouvem palpites de todo mundo, menos o nosso, justo sobre as nossas coisas...

    Art. 9 - De não responderem "Você ainda não tem idade para compeender isso" quando a gente está justamente curiosa e querendo saber isso, e agora... De não ouvir tanto "Eu não disse?" quando a gente faz alguma coisa que não deu lá muito certo.

    Art. 10 - De não querer escovar os dentes ou não tomar banho naquele dia muito frio sem que isso vire escândalo nacional... de poder ter coisas sujas (mas muito queridas) no armário e não gostar da arrumação que fizeram nas minhas coisas.

    De poder ser desengonçado, dentuço, gordinho ou magrelo.

    De gostar de andar descalço na chuva, ficar todo arrepiado de frio ou com as mãos lambuzadas... De dormir com o cobertor e os pés pra fora.

    De ir andando e ir descobrindo o mundo pelos próprios pés e não pelas mãos dos outros...

    De poder mentir com a mesma cara de pau dos adultos.

    "O mito da infância feliz" - Fanny Abromovich