MEU  FILHO  CRESCE  DIREITO?

Você já notou que a meninada está mais alta. Ninguém se espanta ao ver garotas de 13, 14 anos desfilando suas formas longilíneas nas passarelas da moda. Dados do IBGE comprovam a existência desta "geração girafa". Entre 1989 e 1997, houve um aumento de dois centímetros na altura média dos brasileiros de até 25 anos. Entre a garotada mais nova, o efeito é ainda maior. Em uma década, o tamanho dos meninos de até 12 anos aumentou incríveis cinco centímetros, saltando de 1,45 m para 1,50 m (muitos já alcançaram as avós sem sequer ter entrado na adolescência). Nos países desenvolvidos, o aumento é de no máximo 1,5 centímetro em uma década. As meninas também espicharam. Em 1989 as garotinhas de 10 anos tinham, em média, 1,36 m. Oito anos mais tarde estavam com 1,40 m. Esse ganho é reflexo das melhores condições de vida no país. Mais gente tem acesso a saneamento básico, vacinas e medicamentos. No final deste mês, o IBGE pretende divulgar dados atualizados. Quer saber se a tendência de crescimento continua. Para quem tem filhos altos, a estatura não costuma incomodar. Os pais de baixinhos, no entanto, sofrem. "Muitos ainda acreditam que é necessário o garoto ter 1,80 m para ser bem-sucedido, confundem altura com realização pessoal", diz Durval Damiani, presidente do Departamento Científico de Endocrinologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Pediatria. As expectativas paternais estão diretamente relacionadas ao padrão de beleza que rege nossa sociedade: homens e mulheres altos, magros e sarados. Por isso, ao ver que o filho de 3 anos é o mais baixinho da turma, os pais inevitavelmente acabam pensando algo como: Ih, ele nunca vai namorar a Gisele Bündchen! Nem passa pela cabeça, por exemplo, que ele faça o mesmo sucesso que o ator americano Tom Cruise (que tem 1,67 m).

É preciso analisar o problema com calma - ou ver a questão de cima, para não perder o trocadilho: em primeiro lugar, cada criança tem seu ritmo de crescimento. Além disso, a altura do ser humano é determinada por uma série de fatores, que vão muito além do saneamento básico ou da água tratada na torneira de casa. "É uma interação entre fatores genéticos e hormonais, além dos ambientais", explica a pediatra-endocrinologista Teresa Alfinito Vieira, do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo. A herança genética é o fator mais previsível e importante. "A altura é uma complicada combinação que pode sofrer influência de quatro ou cinco gerações passadas e não apenas a dos pais, como se costuma imaginar", diz Claudio Hoineff, chefe do ambulatório de crescimento do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (Iede), do Rio de Janeiro. Isso significa que, sim, os pais de Tom Cruise podem ter mais de 1,75 m de altura – e os de Gisele Bündchen, muito menos que os seus 1,80 m.

Pais altos e filhos baixos

Por isso, se você tem 1,70 m e seu filhote é um toquinho, não se descabele. A estatura da prole é resultado de uma longa mistura. Tente lembrar da altura de seus avós, tios e bisavós. A professora Maia Bueloni, 43 anos e 1,70 metro, buscou orientação médica para entender por que uma de suas duas filhas é "baixinha". O marido dela tem 1,85 m. A caçula, Lara, de 5 anos, mede 1,17 m (sete centímetros acima da média nacional para as meninas da idade dela). Isadora, a mais velha, fugiu dos padrões familiares. Aos 8 anos, está com 1,22 m (cinco centímetros a mais que a irmã e cinco a menos que a média nacional). "Quando a Lara era bebê, comentei com o pediatra que a achava muito grande. Ele disse para não me preocupar, mas acompanhar a altura de Isadora. Fui percebendo que minha filha se tornava a mais baixa entre os colegas de escola", conta Maia. Visitou um endocrinologista, que pediu vários exames. O resultado confirmou as suspeitas: Isadora está ótima. Cresce dentro da média esperada. Provavelmente não é tão alta quanto os pais por causa da genética. "Os avós paternos dela, em especial o avô, são bem baixinhos", revela a mãe.

Quanto as crianças crescem

Após a gestacão, elas esticam muito nos dois primeiros anos de vida

  • Na gestação, 52 cm

  • No 1º ano, de 24 a 25 cm

  • No 2º ano, de 12 a 13 cm

  • Dos 3 anos à puberdade, de 4 a 7 cm ao ano

  • Na puberdade, de 5 a 10 cm

Fonte: Claudio Hoineff, do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia

Idade óssea

Verdade seja dita, a pressão social afeta também as crianças maiores. Mãe dos altinhos João Pedro, 3 anos e 1,08 metro, e Rafael, 2 anos e 95 cm, Edmara Bazoni Maia, 32 anos e 1,76 m, reclama da cobrança que os filhos sofrem de estranhos. Os meninos são sempre confundidos com crianças mais velhas e cobrados por comportamentos e capacidades que ainda não têm. Cabe aos pais observar o crescimento dos filhos e enfrentar os problemas que vão aparecendo. Sempre que houver dúvidas, no entanto, devem procurar a orientação de um especialista. Ele pedirá exames específicos, como a radiografia de mãos e punhos, para definir a idade óssea. A de Isadora, por exemplo, mostrou que ela era do tamanho de uma criança de 6 anos e meio, absolutamente normal. É esperado o resultado apontar uma diferença entre a idade óssea e a cronológica. Se a óssea for menor, melhor para quem ainda precisa crescer.

Em seu livro, Como Crescem Nossos Filhos (Editora Campus, 2003), Margaret Boguszewski, doutora em endocrinologia pediátrica, explica que mesmo uma alteração de dois anos para baixo ou para cima não representa um problema se a criança é saudável, dorme e come bem, pratica esportes e não tem doenças crônicas, como asma, diabete, infecção urinária e de absorção de alimentos, problemas que impedem o crescimento normal da criança. "Quando a diferença é para baixo, indica que a criança vai amadurecer mais tardiamente. E, para cima, sinaliza que a puberdade deve chegar mais cedo", ensina Margaret, no livro. Outro exame importante feito pelo médico é o da dosagem do hormônio de crescimento. "A deficiência dessa substância afeta gravemente a altura da criança", afirma Claudio Hoineff. O problema atinge cerca de 1% da população, mas pode ser tratado com o hormônio sintético, injetável todos os dias. Aqui, um alerta. O uso do medicamento deve ser criterioso, porque em excesso provoca sérios danos à saúde. "Os efeitos colaterais podem levar a tumores e diabetes", diz Damiani.

Come, dorme e corre

Há outros fatores que influenciam o crescimento: esporte, sono e alimentação."Uma criança que não recebe todos os nutrientes pode apresentar problemas em seu crescimento", observa a pediatra Gelsomina Bosco,do Hospital São Luiz, em São Paulo. Ela explica que a carência de vitaminas, por exemplo, é capaz de comprometer a formação dos tecidos ósseos. Regina Coelho não tem essa preocupação com o filho baixinho Lucas. "Ele é mesmo bom de garfo", conta. Boas noites de sono também colaboram para o "aparecimento" do hormônio do crescimento. "A substância é liberada em picos e um deles ocorre no sono", diz Teresa. Outro pico ocorre durante os exercícios. Mas atenção! Nenhuma atividade física faz a criança crescer além do que está programada. "Ajudam o corpo a chegar ao seu potencial máximo", avisa a pediatra. Mais de 18 horas semanais de exercícios são consideradas treino e a sobrecarga pode provocar o efeito inverso.

Ritmo de crescimento

As crianças que não produzem hormônios ligados ao crescimento (como também o da tireóide) ou crescem menos de quatro centímetros ao ano por um período de três anos merecem atenção. "É preciso manter um ritmo de crescimento mínimo. Se isso não ocorrer, deve-se pesquisar os motivos da estagnação", orienta Claudio. As fases em que as crianças mais crescem são na gestação, nos dois primeiros anos de vida e na puberdade, época do estirão que nas meninas ocorre entre 9 e 14 anos e nos meninos, entre 10 e 15. Para as meninas, a puberdade é um período mais complexo porque acontece a primeira menstruação, chamada de menarca. Ela sinaliza o final do crescimento. A partir daí, o ritmo fica bem lento, até cessar dois anos depois. "Mas as meninas já chegam à menarca mais altas porque crescem mais durante a infância e no estirão", explica Teresa. E os meninos, por entrar na puberdade mais tarde, crescem mais. "Em média, chegam a ser até 13 centímetros maiores que elas", diz Damiani. Independentemente da altura de seu filho, vale, como orientação, um velho lugar-comum: "Tamanho não é documento". Alto ou baixo o importante é ser saudável. E feliz.

Patrícia Cerqueira - Revista Crescer - abril 2004