TUDO  BEM  SER  DIFERENTE

Quando Juliana, 6 anos, decidiu cortar os cabelos curtos, não imaginava o que iria sofrer na escola. Bastou entrar na sala de aula para os colegas cochicharem. Os meninos passaram a chamar a garota de "menininho". A chacota só reforçou o sentimento que Juliana tem de ser diferente. "Ela é alta e gordinha para a idade dela. E se incomoda ao ver que as amigas são magras e livres de apelidos. Seu sonho é ser Gisele Bündchen. Quer fazer massagens e regimes para ficar igual às outras", conta a mãe, Marilene Cardoso Godinho.

Crianças sem preconceitos crescem mais flexíveis e cooperativas

A história mostra um traço da característica do ser humano: a dificuldade em aceitar o incomum. Na Antigüidade, as sociedades se formavam em grupos conforme características estéticas, econômicas e religiosas. Quem não estava dentro desses padrões era marginalizado. Hoje, em tempos de inclusão social e do politicamente correto, a diversidade poderia ser mais aceitável. Mas a realidade ainda é outra. Cada vez mais as crianças, principalmente as de classes média e alta, vivem em guetos. Todos ao seu lado seguem um padrão, seja em condomínios, shoppings ou escolas: são brancos, esbeltos e de cabelos (quase sempre) lisos. Quem foge ao padrão se destaca de forma negativa. "Algumas diferenças são mais acentuadas do que outras. E elas sempre causam estranheza porque nos ameaçam, obrigam a mudar nossa rotina, nossa ideologia", diz Elizabeth Polity, diretora do Colégio Winnicott, em São Paulo.

Guetos educacionais

Conviver bem com a variedade é um exercício de paciência para crianças de famílias com pouca ou nenhuma diversidade. Segundo Elizabeth, a escola é o lugar mais adequado para ensinar que ninguém é igual e isso não é um problema. Mas o ideal nem sempre se encaixa no real. A maioria dos colégios particulares, por exemplo, até pelo seu preço, raramente tem alunos que fogem do padrão. "O diferente ensina novas opções, enriquece a convivência na escola e prepara melhor a criança para a vida", ensina.

Quanto maior a mistura de classes sociais, menor o atraso escolar

Uma pesquisa realizada em escolas de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, com alunos entre 8 e 15 anos, confirmou a tese da educadora. O trabalho, parte do estudo Metrópoles, Desigualdades Socioespaciais e Governança Urbana, concluiu que quanto maior a mistura de classes sociais, menor o atraso escolar das crianças. Isso porque elas começam a ter contato com situações que nunca teriam oportunidade em sua classe social, como conversar com uma amiga que viaja para o exterior nas férias ou brincar com um colega que joga bolinha de gude na rua. "A convivência pode realmente ajudar na educação porque abre novas possibilidades, enriquece", explica Neide de Aquino Noffs, psicopedagoga da Faculdade de Educação da PUC-SP.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com Otávio, 9 anos, Giulia, 6, e seus amigos de escola. Ele tem síndrome de Down. Ela, paralisia cerebral. Cada um estuda em uma escola que tem em comum a proposta de aceitar todas as crianças e são chamadas de inclusivas. A adaptação de cada um, porém, teve seu próprio ritmo. Os coleguinhas de Otávio precisaram de um tempo para acostumar com ele. Primeiro o estranharam, reação absolutamente normal, mas que foi superada pela curiosidade natural das crianças. "Hoje seus colegas o adoram e quando conversam, se não conseguem se entender pela fala, brincam de mímicas e desenhos", diz Marisa Amaral Lara, mãe de Otávio, e coordenadora do Projeto Bem-Vindo ao Mundo, do Rio de Janeiro.

Manter distância do estranho valoriza a fantasia ruim

Já os novos amiguinhos de Giulia ficaram curiosíssimos com a amiga nova. Assim que ela entrou na escola, a criançada foi logo tocando a menina, querendo saber o que poderia fazer, como brincar com a colega. E bombardeou a professora com várias perguntas como: "Ela enxerga?", "A gente pode colocar a mão nela?". Quando um garoto reclamou que Giulia não respondia às suas perguntas, uma amiguinha ensinou: "Não responde com a boca. Mas olhe para os olhos dela. Ela está respondendo". "As crianças de escolas inclusivas estão acostumadas a conviver com as peculariedades dos colegas e encaram isso de forma natural, sem preconceitos", afirma Simone Costa Pires, orientadora pedagógica da Creche Naia (Núcleo Assistencial Irmão Alfredo), em São Paulo.

Cada um, cada um

O ideal seria que todas as crianças pudessem enxergar a distinção como uma característica e não como algo negativo. E, como provam as escolas inclusivas, o primeiro passo nesse sentido é mesmo convivência. Quanto mais perto você chega, menos se sente ameaçado. "Quando você mantém distância do estranho, fica cheio de fantasias, sem saber como é aquela pessoa de verdade", observa Marisa Lara. Aceitar o outro já foi muito mais difícil do que hoje. Antigamente não havia pressão social contra o preconceito. As pessoas não tinham o freio do "politicamente correto" que agora, felizmente, impera na sociedade. Os pais tinham medo que a diferença pudesse "pegar", como se fosse uma doença contagiosa. "As gerações passadas não tiveram a chance de aprender a lidar com isso. Estamos, em casa e nas escolas, engatinhando no papel de ensinar nossas crianças", acredita a psicopedagoga Neide. Por isso, ainda hoje, não é raro encontrar adultos que sentem medo, por exemplo, de ver os filhos andar com colegas de outra religião e ter a educação prejudicada. O fato de a sociedade estar tão competitiva também ajuda nesse tipo de pensamento. "É necessário que os adultos revejam seus valores e facilitem a vida das crianças. Devem tomar cuidado para não criá-las numa redoma de vidro, formando adultos preconceituosos", completa.

Crianças não nascem cruéis. Elas aprendem o preconceito

Vozes do passado

É duro admitir, mas nos dias atuais é ainda comum esbarrar em histórias como a da família da professora de educação física Sandra Maria Machado. Os filhos, Marina, 9 anos, e Paulo, 12, foram discriminados por crianças de onde foram morar há três anos, por serem negros. "As meninas se recusavam a brincar com a Marina, pois o seu cabelo era trançado. Os garotos chegaram a bater a porta na cara de Paulo e diziam que ele não cabia no apartamento por ser negro", conta Sandra. Foi necessário muita paciência para que eles conquistassem a confiança das crianças brancas. "Ensinei aos meus filhos que a cor não diz que alguém é melhor ou pior. E que eles precisavam se impor, convidar as crianças a vir em casa, dividir os brinquedos, mostrar que são iguais a todos", lembra. Com tempo, generosidade e simpatia, conseguiram. Os colegas, passaram a freqüentar a casa de Sandra. "Espero que meus filhos levem esse aprendizado para o resto da vida", torce Sandra.

Mudança de hábito

Bem, se a idéia de ver pessoas fora do padrão como naturais ainda não está disseminada na escola ou na vizinhança, repare: como vocês estão agindo em casa? Crianças não nascem cruéis. Não enxergam a variedade como problema. Esse olhar discriminador dos pequenos é desenvolvido por adultos, colegas e até pela televisão. As crianças observam atitudes em casa, escutam comentários e assistem a programas com brincadeiras infames. Para quem é visto como desigual, esses hábitos são assustadores. Não é à toa que a dona de casa Carla Katsuda tinha medo de que os filhos Lucas e Tatiana pudessem ser isolados pelo grupo. "Quando entraram na escola, fiquei com receio, pois eram os únicos orientais da classe. Tinha medo de que fossem discriminados", conta. Para surpresa da mãe, dois anos e meio já se passaram e os filhos não ouviram nenhuma piada.

Um amigo japonês pode render uma vida mais culta

Se a convivência na escola ainda não é possível, que tal começar dentro de casa, mudando alguns hábitos e formas de pensar? Dá para aproveitar o fato de os filhos, por exemplo, terem colegas orientais e marcar um jantar num restaurante japonês. Ou também ler livros sobre culturas e crianças de outras raças (veja nossas indicações), ouvir músicas típicas de outros estados. Segundo Nívea Fabrício, da escola Graphein, livros, filmes, desenhos, histórias pessoais já ampliam as idéias e deixam a criançada mais culta. Os ganhos, porém, não param aí. Fazem com que ela seja um adulto capaz de lidar com situações inesperadas de forma natural. E mais: todo mundo, em algum momento da vida, se sente "fora do grupo". Na entrada em uma nova escola, na primeira vez que vai ao clube. Imagine como seu filho se sentiria se os outros o excluíssem. "Crianças privadas do convívio diversificado tendem a se isolar no futuro e podem perder a chance de se tornarem um adulto flexível, cooperativo e respeitoso", diz Neide Noffs.

Viva a diferença

Aproveite os questionamentos de seu filho para mostrar que existem muitas características diferentes, como o cabelo loiro e o escuro, o crespo ou liso, a orelha de abano e a normal, ou que outras pessoas precisam de ajuda para viver bem, como aparelho nos dentes, óculos ou cadeira de rodas. Por que não provocar a curiosidade neles? Foi assim que Tifany Cristina Santana, 6 anos, se tornou uma das alunas mais populares da classe. Ela precisava usar óculos, mas não queria por ter medo dos apelidos que os colegas de classe iriam lhe dar. Quando percebeu o conflito da garota, a professora falou que também usava óculos. Fez um trabalho com os alunos mostrando que todos tinham suas particularidades. Mais animada e com a ajuda das amigas, Tifany concordou em usar um modelo que ela própria escolheu. Agora lava os óculos todos os dias e só anda de rosa para combinar com a armação. E, do alto de toda a sua experiência, diz: "Já imaginou que mundo chato se todo mundo fosse igual?"

Mônica Brandão - Revista Crescer - abril 2004