PODE, NÃO PODE

"Izabella, não anda descalça!', grita a mãe, a dona de casa Maria Elisa Marciano. E o pai: 'Deixa a menina andar descalça. Minha mãe sempre deixou andar e nunca aconteceu nada comigo', desmanda o empresário José Carlos de Morais Marciano. A menina, de 2 anos e 7 meses, não fica em dúvida. 'Minha filha vai para o lado de quem ela sabe que a deixa fazer o que quer. Corre para o pai e faz cara feia para mim', conta Maria Elisa, lembrando que as discordâncias do casal começaram antes mesmo de Izabella nascer. José, de formação conservado-ra, pensava alto: 'Se for menina, não vai sair tanto à noite e terá um só namorado. Se for menino, não tem problema ter várias namoradas'. Maria, que teve educação mais liberal, rebatia: 'Calma, José! Deixa o bebê nascer! E os tempos mudaram: hoje são direitos iguais para homem e mulher'. Quando a menina nasceu, os desentendimentos aumentaram. 'Ele dizia que a fralda descartável estava apertada. Se eu afrouxava, reclamava que o xixi ia vazar. Quando passava creme na Izabella, dizia que colocava muito. Se passava pouco, ela ia assar', lembra Maria.

Mistura fina

Os desentendimentos dos pais quanto à educação das crianças são comuns, principalmente no primeiro filho, o que mais sofre com esses desajustes até o casal conseguir construir um consenso - 'que será a mistura do modelo herdado de seus pais com a vivência da sua geração e a aceitação das diferenças da personalidade de cada um', diz a psicanalista Marina Massi, do Núcleo de Terapia de Casal e Família da PUC de São Paulo. No segundo filho, a situação melhora porque o casal já acumulou experiência e uma certa sabedoria de viver em família. Mas, até lá, como fica a cabecinha da criança exposta às desavenças paternas? 'Perdida, sem saber quando, onde e como fazer determinada coisa, pois num dia pode e no outro não', explica a psicopedagoga e terapeuta familiar Maria Cecília Castro Gasparian, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia. 'A criança precisa de regras claras, simples e fixas. Nos primeiros anos, não dá para explicar muito e abrir exceções. A regra e a rotina é que lhe dão segurança', acrescenta a terapeuta.

Papai legal

Segundo as especialistas, o pai é o que mais costuma ceder aos desejos da criança. 'Outro dia peguei Izabella comendo bala antes do almoço e ela explicou: 'O papai deixou. O que você vai fazer com ele?' E eu disse: 'Quando ele voltar do trabalho, você é quem vai dar uma bronca nele'', brincou Maria Elisa. José se defende: 'Confesso que sou mais mole. Minha filha pediu muito, não resisti'.

Na base de atitudes como essa, a psicanalista Marina vê traços culturais do papel de homem e de mulher que insistem em permanecer apesar das mudanças sociais. 'Mesmo que trabalhe fora, é a mãe quem controla a casa, coloca as regras, enquanto o pai não quer ser ausente e chato. E há uma certa acomodação dele por acreditar que educar é papel da mãe, que ela sabe direito das coisas.

Combinar antes

Seja qual for a dinâmica da família, pai e mãe têm de se entenderem antes para falar a mesma língua dentro de casa. Do contrário, além de ficar confuso, o filho vai usar esse confronto a seu favor. 'Se ele percebe que os pais nunca se entendem, passará a usar um dos dois, normalmente o mais frágil na relação, para conseguir o que quer', afirma a psicopedagoga Maria Cecília. E, se num determinado momento o casal não tem certeza de qual resposta dar ao filho, pode pedir um tempo para decidir. 'É preciso ter convicção do que se defende, porque a criança testa o adulto 24 horas por dia', observa a especialista.

Se o casal quase sempre tem dificuldade de entrar num acordo e superdimensiona uma situação que muitas vezes não tem tanto valor assim, esse é um sinal de alerta de que a relação não vai bem. A discussão deixa de ser sobre qual atitude tomar com o filho e passa a ser uma briga do casal. 'Aí realmente está havendo interferência na vida conjugal. O problema começa a não ser mais com a criança, e sim com os pais', acredita a psicanalista Marina. Nesse caso, ela recomenda que a família não tenha receio de fazer terapia ou buscar um aconselhamento familiar, antes que se esgote a relação. E o cuidado deve ser redobrado se os pais são separados. 'É quando se acentuam os desentendimentos que envolvem a educação do filho, pois em cada casa pode haver uma regra e esse ser o modo que o casal encontra de afrontar um ao outro, sem perceber que é péssimo para o filho', explica a psicanalista.

José e Maria Elisa dizem que aos poucos estão conseguindo entrar em acordo. 'Agora, com meu segundo filho Cauê, de 2 meses, parece que está sendo um pouco mais fácil, mas nenhuma criança é igual a outra. Não sabemos ainda os desafios que ele nos vai colocar', diz a mãe. Para José, com uma boa conversa e paciência tudo se resolve.'Devagar, estamos aprendendo a criar um jeito nosso de educar', diz.

Fernanda Portela - Revista Crescer - nº. 123 - fevereiro 2004