MADRASTA

Antigamente a madrasta era a mulher que entrava na vida das crianças quando a mãe morria.  Na literatura infantil a madrasta é sempre má e suas atitudes são sempre para prejudicar a filha ou filho que não é dela.  Mas, com o aumento do número de separações e recasamentos, a segunda mulher passou a ser uma peça comum nas novas estruturas familiares.  Já não há, contra a madrasta, o mesmo peso de preconceito de antigamente e não faltam exemplos de crianças e adolescentes que se dão melhor com a “segunda mãe”.

Mais do que isto, não é difícil encontrar, tanto entre crianças quanto entre jovens, os que preferem ficar com a madrasta, em caso de nova separação do pai.

Do ponto de vista psicológico e prático, não é fácil ser madrasta, por uma série de motivos:

  • os filhos do marido estão ressentidos com a separação (que, muitas vezes, atribuem a ela) ou com a perda da mãe;

  • geralmente não foram consultados sobre o novo casamento do pai;

  • quando a mãe dos meninos ainda está vive interfere na relação;

  • a experiência do casamento mal sucedido é um peso para o marido e o predispõe à impaciência e intransigência;

  • é difícil criar os próprios filhos, mais ainda quando não são nossos, até por falta de autoridade;

  • a incerteza da aceitação;

  • as adjacências, amigos do casal original ex-sogra, ex-cunhados, sobrinhos.

A psicóloga Denise Falcke (da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) pesquisou 50 mães e madrastas e lançou o livro Família em Cena – Tramas, Dramas e Transformações (Editora Vozes) e identificou que o grande drama das madrastas é ficarem perdidas entre dois mitos: o da maternidade como sinônimo de perfeição e o da madrasta como sinônimo de malvadeza.

Outro grande problema é quando sofrem pressão, do marido e das crianças para serem “como a mãe deles”, o que despersonifica e faz baixar a auto-estima, além de ser frustrante a praticamente impossível de sustentar.

Os psicólogos sugerem que as madrastas enfrentem o desafio sabendo que:

  • não pode substituir a mãe;

  • não pode ser uma segunda mãe;

  • não pode ser a melhor amiga dos enteados.

É que a mãe é insubstituível.  Substituível é o papel que ela exerce Mesmo assim, ela deve ter a autorização do pai.  Os dois, de comum acordo e na mesma ocasião, devem explicitar aos filhos qual o poder que ela está recebendo e, se for o caso, quais os limites.

A arquiteta Roberta Palermo relata suas experiências de ex-enteada e de atual madrasta no livro Madrasta. Quando o Homem da Sua Vida Já Tem Filhos Mercuryo).  E esse assunto é tão importante e rende tanto que ela criou um site, www.madrasta.hpg.com.br e uma Associação de Madrastas e Enteados.

Se as crianças, hoje, reclamam qualquer coisa, ela diz “Falem com o seu pai.”  E se tem que chamar a atenção, só o faz com a presença e o apoio do marido.  A presença do pai impede um leva-e-traz com a mãe distante.

Outro fator de desestabilização para a madrasta é a picuinha das crianças que, mesmo sendo mentira, elogiam a comida da mãe, o comportamento da mãe, o gosto da mãe.  É preciso ter paciência e aceitar a comparação, sem tentar retribuir a implicância.

Segundo a psicanalista Magdalena Ramos, coordenadora do Núcleo de Casal e Família da PUC-SP, “esse tipo de comportamento faz parte de uma série de recursos usados pelos enteados para mostrar lealdade a mãe” .

A separação (assim como a morte) mexe com a cabeça da criança e do adolescente e é capaz de deixá-los abalados e confusos.  A tal ponto que imaginam terem perdido também o pai.  “Na cabeça deles a madrasta vem para aumentar a perda”, explica Maria Rita D’Angelo Seixas, coordenadora do curso de terapia familiar do Departamento de Psiquiatria da Unifesp..

Outra tática de guerrilha comum é, na presença da madrasta, lembrar os tempos felizes e situações agradáveis que eles viveram com a mãe, o que é feito de propósito para que ela fique de fora.

Os especialistas recomendam às madrastas:

1. Não tende conquistar o amor do seu enteado.  Você nem é obrigada a gostar dele.  Não contrarie a naturalidade da relação.  Quando e se, definitivamente, o entendimento for impossível, é importante que todos saibam que isso não vai interferir na vida conjugal.  Nem pressione seu marido para “dar um jeito”, porque na maioria das vezes ele não tem como.  Mas exija que a sua autoridade seja respeitada.

2. Interfira o menos possível no dia-a-dia dos enteados.  Regras de comportamento e limites só devem ser estipulados quando há coerência e consistência, isto é, quando valem para os dois e valem sempre.  Limites diferentes do que eles tinham antes (ou dizer que “antes vocês não tinham limites”) vai fazê-los sentirem-se agredidos e acuados. Se a mudança na orientação for indispensável, cabe ao paí determiná-la e explicar os novos valores.

3. Procure deixar bem claro que você não é responsável pela educação dos seus enteados mas pode indicar que tem interesse em apoiar o pai e em participar dessa educação.

4. Você pode ser amiga dos enteados, havendo empatia, mas não se mostre cúmplice deles, principalmente nos erros.  A cumplicidade põe você no mesmo patamar  dos enteados e reduz sua autoridade de adulta.

5. Não compactue com as críticas de seus enteados à mãe biológica, por mais que concorde com eles.  Ouça sem comentar e se pedirem comentário, diga que você não ouviu a mãe deles.

6. Ainda que seu marido peça, não se meta nas questões burocráticas, principalmente de ordem financeira, que envolvem a ex-mulher.  Seu marido é que deve resolver o problema.

7. Faça com que seus enteados sintam a sua casa como casa deles.

Um último conselho dos especialistas: a madrasta deve, sempre, ficar o mais distante possível dos problemas do marido com a ex-mulher, dos filhos com a mãe biológica, das crises dos enteados. Esta é uma  atitude que ajuda a minimizar os conflitos.  Quando os enteados percebem que a madrasta não está contra a mãe nem contra eles é mais fácil aceitá-la e conviver com ela.

Homo Sapiens