RESPEITO  AOS  LIMITES

Proteção obsessiva e falta de regras colocam em risco o aprendizado

Você sabe educar seu filho? A pergunta pode surpreender os pais mais zelosos. Mas o fato é que ninguém tem resposta na ponta da língua. Simplesmente porque não existem receitas prontas para garantir que a criança seja uma pessoa bem estruturada no futuro. Médicos e educadores, porém, são unânimes em afirmar que há regras básicas a seguir no processo de educação do herdeiro. Uma delas é estabelecer limites. Para a criança e para você.

Existem pais, por exemplo, que não admitem os erros do filho. Passam a lição de casa da criança a limpo, discutem com os professores e nunca acham que aquele ser inocente e indefeso é capaz de aprontar muita confusão na escola. E, claro, sempre dizem que superprotetores são os outros pais. O que eles não sabem, no entanto, é que esse comportamento pode ser prejudicial ao desenvolvimento da criança. A partir do momento em que defendem seus filhos em qualquer situação, sem refletir se foi o “anjinho” quem provocou aquela briga na sala de aula, colaboram para o crescimento de uma pessoa insegura, que dificilmente saberá lidar com os desafios da vida. Na maioria dos casos, os reflexos podem ser notados no próprio desempenho escolar. Mas o convívio familiar e social também dará várias pistas de que alguma coisa vai mal na educação da criança.

O maior problema dos pais superprotetores é reconhecer que eles podem estar falhando no processo de aprendizagem do filho. Em geral, não percebem que, ao tentar fazer de tudo pela criança, estão evitando que ela aprenda a lidar com as próprias frustrações. E isso é fundamental no processo de crescimento e desenvolvimento do caráter e da personalidade. Em algumas situações, é necessário que os desafios sejam enfrentados por conta própria. É uma forma de estimular o raciocínio e a busca da autonomia para encontrar soluções. A mãe que faz a lição de casa ou está sempre com a resposta na ponta da língua, por exemplo, impede que o filho pense e aprenda com as tentativas e erros. “Ele perde a responsabilidade sobre o trabalho”, avalia Leny Magalhães Mrech, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. É claro que ninguém vai deixar de esclarecer uma dúvida, mas existem formas diferentes de tratar o assunto. Deve-se esperar que ele peça ajuda ou perguntar se precisa de auxílio. “Essa é uma boa oportunidade para despertar a curiosidade e a inquietação da criança diante de um fato novo”, diz a psicóloga Adriana Marcondes, do Departamento de Psicologia da USP.

Regras – Muitos pais pressupõem para o filho o mesmo encaminhamento e futuro que eles tiveram. Dessa forma, invalidam a maneira de pensar da criança. A falta de convívio familiar imposta pela correria do dia-a-dia também interfere na educação. Com menos tempo para ver os filhos, os pais tendem a compensar a ausência, atendendo a todos os desejos da criança. Não pode ser assim. É preciso dar limites à garotada. Ou seja, mostrar que existem regras que precisam ser cumpridas. A arquiteta Vânia Lewkowicz tem dois filhos, de cinco e nove anos. Conseguiu um grande progresso dentro de casa ao impor um horário para eles dormirem. Às nove horas, os dois já estão na cama. Por outro lado, Vânia não consegue convencer o caçula a fazer todas as refeições à mesa. Não são raras as vezes em que leva o prato para o garoto na frente do computador. “Sei que é um absurdo, mas é o único jeito de ele comer”, conta.

Estabelecer uma rotina transmite senso de organização e respeito. A mãe pode e deve impor limites, sem confundir autoridade com autoritarismo. É preciso mostrar que o poder de decisão é dela. E a melhor forma de fazer isso é dizer não. “Pais que não estabelecem regras não dão à criança a noção de realidade. O resultado é um filho que não sabe o que é o esforço para executar alguma atividade”, afirma Ana Olmos, diretora do Centro de Estudos Multidisciplinares para o Desenvolvimento da Criança, de São Paulo. Se a criança quer balas antes do almoço, faça-a entender que pode comer os doces se quiser. Mas só depois da comida. É diferente do “só dou se você comer tudo”. Isso pode abrir precedentes para o filho exigir prêmios toda vez que for se alimentar. “Ele precisa conquistar espaço, mas seguindo as regras. Caso contrário, tudo vai parecer arbitrário aos olhos dele”, diz a educadora Gisela Wajskop, diretora do Instituto Superior de Educação de São Paulo.

Desenvolvimento – Até os sete anos, a criança está aprendendo a se conhecer. Descobre características próprias, como tamanho, peso e força, e percebe os limites do mundo na comparação com os colegas. Os amigos são escolhidos pelas trocas, identificações ou compensações. O mais fraco procura o mais forte, e o mais novo procura o mais velho. É também o período em que o caráter e a personalidade estão em pleno desenvolvimento. Assim, essa é a fase mais fácil para os pais estabelecerem normas, como horário de dormir, comer e brincar. Mas a vida escolar representa o início de um processo de autonomia que pode ser bastante doloroso. A educação do filho passa a ser dividida com a escola, e certamente as diferenças vão aparecer. Pais superprotetores podem sofrer mais do que a criança. “Essa diferença entre a educação familiar e escolar é saudável para o crescimento da criança”, diz a psicóloga Adriana Marcondes.

Quando a criança se torna agressiva, desobediente e incontrolável em qualquer ambiente, é sinal de que alguma coisa não está caminhando bem. O primeiro alerta vem da escola. As brigas são comuns nessa fase, mas, se os desentendimentos acontecem frequentemente, está na hora de ouvir o que os professores têm a dizer. Além disso, deve-se observar se o filho está em condição de se defender ou se apanhou porque merecia. Mas muitos pais se enganam na hora de lidar com a questão. Desconfiam do professor e não acreditam que o seu filho seja capaz de começar uma briga. “A criança tem atitudes diferentes em casa e na sala de aula”, alerta a educadora Gisela Wajskop. Só o estabelecimento de um vínculo com a escola para discutir a educação do filho permitirá avaliar se o método educacional da instituição está de acordo com o que esperavam. E, se discordarem, é porque está na hora de procurar outra escola.

Mas, hoje em dia, é mais fácil construir essa parceria. Nas últimas décadas, muitas escolas acompanharam as mudanças e transformações da sociedade. A relação entre pais e filhos também mudou. A autoridade deu lugar à liberdade, o que é positivo, mas ser parceiro não significa fazer tudo pelo filho. É fundamental que ele cresça assumindo responsabilidades.

Roberto Weigand