"EDUCAÇÃO" GERENCIAL COMEÇA NA INFÂNCIA?

Qual a influência que exerce a educação que damos a nossos filhos no processo de desenvolvimento gerencial?

Você executivo/pai já se deu conta de que pode estar educando seus filhos para serem gerentes/executivos ineficazes.

Até que ponto as características da educação que recebemos em casa ou na escola viciam nosso desempenho como executivos e gerentes?

A idéia de escrever este artigo surgiu durante uma conversa que tivemos em São Paulo com um cliente que estava questionando certas posições gerenciais de seu chefe. Essas posições passavam pelas dimensões desconfiança, falta de incentivo para que se assumissem riscos, dificuldade de comunicação, etc.

A partir daí nos ocorreu escrever algo que pudesse ajudar os executivos e pais a tomar um pouco mais de cuidado com a forma como educam seu filhos, alertando-os para as possíveis repercussões futuras, caso estes escolham a carreira gerencial. Embora escrito para pais com filhos de idade variando de 1 a 10 anos, o texto também se presta, com alterações, é óbvio, a quem tem como missão "educar" os subordinados.

Inicialmente gostaríamos de colocar aqui algumas das dimensões que caracterizariam o executivo/gerente eficaz para o Brasil dos tempos de crise:

  • Capacidade de assumir riscos; errar por ação e não por omissão;

  • Tomar decisões analisando as várias dimensões e implicações do problema em nível interno e externo; considerar os aspectos econômicos, sociais, financeiros, etc.;

  • Responsabilizar-se pelo treinamento e acompanhamento do desempenho de seus subordinados;

  • Usar o tempo como instrumento de vantagem competitiva, atendendo mais rapidamente seus clientes internos e externos;

  • Ter um estilo participativo, compartilhando informações e decisões;

  • Estar permanentemente ocupado com as necessidades de mudança do "status quo";

  • Voltar-se para a inovação e para o que não é rotineiro; ter espírito questionador.

Colocadas estas dimensões do desempenho gerencial eficaz em tempo de crise, vamos voltar no tempo e analisar as características da educação que demos ou estamos dando a nossos filhos.

Qual o comportamento que nós, pais, adotamos quando nosso filho erra? Imediatamente puni-lo ou procurar descobrir as causas do erro para evitar uma repetição do problema, ou até para descobrir que o erro ocorreu porque não passamos suficiente informação sobre o que deveria ser feito?

Por exemplo, quando nós pais, vamos ao cinema, nossa atitude é encher o filho de recomendações ou apelar para seu bom senso dizendo : "Meu filho, a casa é sua, tome conta dela; se tiver alguma dúvida, resolva como lhe parecer melhor e nos conte quando voltarmos".

No parágrafo anterior já abordamos o aspecto da insuficiência de informações, que normalmente implica decisões pobres. Além disso, os pais devem se questionar se o processo educacional utilizado passa para os filhos a filosofia das verdades definitivas (quase sempre decorrente de visões unilaterais sobre os problemas).

Outra questão a considerar é aquela relativa à pressa no processo decisório, em que a ênfase está na rapidez e não na qualidade. É bom lembrar que na maioria dos casos mencionados, o que funciona como processo educacional por parte dos pais e mais o exemplo dado por seu próprio comportamento do que uma intenção deliberada de conduzir o processo decisório nesta ou naquela direção.

Imaginem só agora quanto tempo dedicamos diariamente a educar nossos filhos 30, 60, 80 minutos por dia? Eles efetivamente sentem os pais como um recursos. Alguém disponível para ajudá-los? Nossa presença ao seu lado, como pais, nos permite uma avaliação em tempo real do que está efetivamente acontecendo. Como eles estão evoluindo? É isso que eles terão de fazer com os subordinados quando se tornarem gerentes/executivos, no futuro?

Quando nosso filho nos faz um pedido atendemos rapidamente? Tratamos nosso filho tão bem ou melhor do que tratamos nossos clientes no trabalho? A dimensão rapidez no atendimento cria nos filhos (e nos clientes) a sensação de importância, disponibilidade para solução de problemas, etc.

Em casa damos ordens ou pedidos para que as coisas sejam feitas "por favor"? Só a nossa opinião é que vale ou escutamos os outros antes de decidir? Somos os primeiros ou os últimos a dar opinião? Dividimos com nossos filhos informações relevantes para suas vidas? Compartilhamos nossas experiências? O processo educacional pode criar filhos autocratas ou com estilo participativo de decisão. Depende de nós, pais.

Somos pais acomodados ou vivemos questionando a maneira como ocorrem as coisas em casa? Demandamos de nossos filhos idéias novas, novas formas para resolver velhos problemas? Há uma preocupação genuína de que nossos filhos sejam capazes de fazer coisas de que os outros não são capazes? Estamos sempre mostrando a nossos filhos coisas, idéias, produtos novos? Mais tarde, como executivos, eles poderão ser simples, mantenedores do "status quo", ou pessoas que se sentem responsáveis por mudar situações, aproveitar oportunidades, "alterar o curso das coisas".

Resumindo o que discutimos até aqui, vale colocar frente a frente alguns comportamentos a incentivar e outros a evitar no processo educacional. Os primeiros são características de executivos eficientes tanto na execução de tarefas como na administração de pessoas; os demais comportamentos geralmente trazem mais ineficiência e desintegração:

  • Incentivar: evitar;

  • Elogios: crítica;

  • Assumir riscos: segurança máxima/manutenção;

  • Pedir ajuda: não precisar de ninguém;

  • Cooperação: competição;

  • Afetividade + racionalidade: racionalidade;

  • Confiança: desconfiança;

  • Pensamento no futuro: pensamento no passado ou presente.

Nossa intenção ao colocar estas questões é simplesmente despertar, nós pais e executivos, para a importância do seu papel na formação de futuros executivos e gerentes, instigando-os a questionar o tipo de educação que estão dando a seus filhos e as repercussões para eles no futuro. Não é necessário concordar com o que falamos. Pedimos apenas que cada um se pergunte se está no melhor caminho e o que eventualmente poderia e deveria ser mudado.

L. A. Costacurta Junqueira