A  MORTE  E  A  CRIANÇA

É sempre difícil tocar no assunto. Os filhos precisam de ajuda porque não entendem como ela ocorre

Naquela manhã de domingo, Dia das Mães de 2001, a família Sichi acordou mais cedo. A mãe, Maria Eugênia, comissária de bordo, precisava fazer um vôo a trabalho. Antes de sair, amamentou o filho pequeno, Enzo, então com 7 meses. O pai, Marco Antônio, aproveitou a movimentação da casa e perguntou ao primogênito Ítalo, na época com 8 anos, se ele já queria entregar o presente à sua mãe. O menino propôs uma brincadeira. 'Vamos fazer uma surpresa, fingir que a gente esqueceu que é Dia das Mães. No almoço a gente dá.' Ítalo nunca conseguiu entregar o presente. Eugênia sofreu um acidente de carro quando voltava para casa. Teve fratura no crânio e morreu na manhã seguinte, no hospital, depois de três paradas cardíacas. O comissário Sichi enfrentou, então, a tarefa mais difícil de sua vida. Sentou ao lado do garoto e disse: 'Lembra que a mamãe teve um acidente ontem? Ela estava muito machucada e o coração não agüentou. Ela morreu, filho'. Ítalo abaixou a cabeça e chorou. Não deixou ninguém tocá-lo. 'Queria tanto confortá-lo, protegê-lo, mas ele não deixou', lembra o pai. Aos poucos, o menino se acalmou. E perguntou: 'Nunca mais vou ver a mamãe?' O pai respondeu que não. Viva, não. Ítalo não quis ir ao velório, ver a mãe no caixão. Pediu um favor ao pai. 'Corta um pedaço do cabelo dela para mim? Põe um bilhete meu no caixão?' Quando a mãe o fazia dormir, punha seus cabelos por cima do filho. Era um carinho que Ítalo queria guardar para sempre. No bilhete, escreveu: 'Mamãe, eu te amo muito. Vou sentir muito sua falta.' Meses depois, falando sobre o dia do acidente, Ítalo disse que não se lembrava de que não entregara o presente. Apagou da memória.

Não há missão mais difícil na vida dos pais do que contar para o filho que alguém próximo morreu. A morte é um tabu para nossa sociedade, cada vez mais centrada na preservação da juventude e da beleza. O avanço da medicina, o aumento da expectativa de vida do homem e a correria do dia-a-dia fazem com que ela soe como um grande fracasso. É muito difícil aceitar a morte de alguém com menos de 60 anos. A cultura ocidental a vê como um castigo, e não como uma etapa, como os orientais. Não à toa frases como 'Ele era tão bom', ou 'Morreu tão jovem' são costumeiramente ditas nos velórios. Quando perdem alguém, os próprios adultos são tomados por um turbilhão de emoções. Culpa, medo, insegurança e compaixão misturam-se a impotência. Muitos pais acabam perdidos. E não é fácil mesmo. Como explicar a uma criança que ela não vai mais ver essa pessoa querida, que a vida termina e que não há nada no mundo que possa mudar essa situação?

'Durante a infância, a criança passa por lutos simbólicos', explica a psicóloga Maria Helena Pereira Franco, professora da PUC de São Paulo e coordenadora de um laboratório de estudos do luto na universidade. O primeiro deles ocorre por volta dos 6 meses, quando, em geral, os bebês deixam de ser amamentados. Nessa fase, eles têm sensação de que perdem uma parte de si. Em outros momentos, como tirar as fraldas e quando descobrem a existência do outro sexo ficam ainda mais perdidos. Todas essas etapas ensinam à criança que há fenômenos sobre os quais ela não tem controle nenhum. São importantes para seu desenvolvimento, só que deixam um gosto amargo. A perda de um parente traz de volta essa sensação de estar sozinha no mundo, uma vontade de se encolher, de sumir.

As crianças vão entendendo a morte de maneira diferente, conforme a faixa etária. Para compreender sua dimensão é preciso que conheçam três conceitos: que ela é irreversível, inevitável e que tem uma causa. Mas isso só acontece por volta dos 10 anos. Até os 2, ela acha que é uma ausência momentânea. Entre os 3 e 5 anos, se olhar para uma pessoa morta, pensa que está dormindo. Não diga 'o papai descansou'. Ela entende a linguagem de modo literal. Pensará que a pessoa vai acordar. E isso é mentira. Também é comum a criança sentir-se culpada porque um dia teve raiva de quem morreu. Entre os 6 e 9 anos, sabe que toda morte tem uma causa.

O sentimento de perda é justamente mais dolorido na infância porque não pode ser compreendido. Aos pais, cabe falar a verdade. E omitir os detalhes. Como os adultos, as crianças também vão precisar de um tempo para se reconstruir. É preciso respeitar esse luto. Ítalo, por exemplo, ficou mais fechado, quieto, passivo e com o sono agitado. Por sugestão da escola, um mês depois da morte, o pai procurou uma psicóloga. 'Depois de alguns meses de terapia, ela disse que o Ítalo se questionava: 'Será que não amo minha mãe tanto quanto o meu pai? Ele ainda chora e eu, não'', conta o comissário. Sichi achava que não tinha de esconder seus sentimentos, mas andava exagerando na dose. 'Ela me orientou a transformar essas recordações em algo leve. Explicou que meu lamento poderia ficar para um momento íntimo. Não foi fácil, mas aos poucos percebi um alívio em meus filhos. Ainda sentimos a falta da Eugênia. Às vezes, flagro o Ítalo pegando o cabelo da mãe', conta o pai, chorando.

Mesmo quando a morte se dá como o desfecho da lei da vida, é preciso ter cuidado na conversa. A perda de um avô, por exemplo, tem uma lógica: as pessoas nascem, crescem, ficam velhas e morrem. A dona-de-casa Aline Cáfaro Rech Lima, 42 anos, ensaiou palavras para explicar a morte de seu pai às filhas Débora e Denise, então com 5 e 2 anos e 5 meses. 'Foi muito triste, principalmente para a Débora, que adorava passar os fins de semana na casa dele', lembra. 'Disse que ele morreu aqui na Terra, mas foi viver num outro lugar, no astral', conta. Débora não entendeu: 'Como assim astral?' A mãe inventou que era uma colônia de férias num lugar distante e que ninguém da Terra conhecia. Mas ele estava lá para se recuperar. E um dia elas iriam reencontrá-lo. Criar situações é um recurso tão condenado por psicólogos e pediatras quanto o silêncio. 'Não fale que a pessoa foi viver na estrela', diz a psicóloga Tereza Marques de Oliveira, professora da Universidade Mackenzie e autora de um estudo sobre o luto na infância. A criança vai acreditar e ficará elaborando meios de chegar até ele.

Pode chorar

Como contar? Vou direto ao assunto? São dúvidas que martelam a cabeça de qualquer adulto. 'Posso chorar enquanto dou a notícia?', se perguntava Sandra Assali. Ela perdeu o marido, José Abu, na queda do avião da TAM, em outubro de 1996, em São Paulo. Os filhos eram pequenos. Samir tinha 7 anos e Rafaela, 4. A mãe pediu ajuda. Queria minimizar o impacto da tragédia. Um psicólogo a orientou a dizer que o pai morreu e não voltaria mais. Não precisava esmiuçar os detalhes. Sandra também ficou aliviada em saber que poderia chorar na frente deles. 'Coloquei os dois na minha cama e disse: 'O papai morreu num acidente de avião'. E comecei a chorar.' A reação da menina a desorientou. Rafaela corria pela sala e falava: 'A mamãe está dizendo que o papai morreu'. Mas foi com o filho mais velho que ela desabou. Samir berrou: 'Como é que é? Some daqui! Vai agora na rua achar um homem igualzinho ao meu pai e trazer para casa'. Mesmo aos prantos, conseguiu dizer ao filho que também estava muito triste, mas ninguém tem controle sobre a vida.

Como você pode ajudar

Não evite o assunto nem tenha medo de olhar fotos. Deixe a criança fazer perguntas sobre morte, enterro, caixão. Se a criança apresentar regressões de comportamento, não brigue com ela. São sintomas normais do luto. Sinta-se à vontade em demonstrar emoções, como raiva, choro. Mas preste atenção se sua atitude não está afligindo seus filhos. Não se preocupe em retirar rapidamente de casa os objetos e as fotos da pessoa que morreu.

Velório e cemitério

Sandra não teve dúvida se deveria ou não levar os filhos ao cemitério. Achava necessário compartilhar esse momento de despedida. 'A presença nos rituais fúnebres ajuda a criança no processo do luto. Ela saberá o destino do corpo e não ficará construindo fantasias, pensando que vai voltar. Não é preciso ver o morto no caixão', afirma Tereza. Ela ressalva: crianças devem ser poupadas de cenas de desespero. Se não der, evite.

Nem todos têm a certeza de Sandra por causa do clima pesado de velório e cemitério. Foi o que considerou a pediatra Lilian Bernstein Polster, 36 anos. Ela optou por uma despedida particular. Levou o filho Rafael para ver o pai ainda no hospital, quando ele teve morte cerebral. 'Cobri a traqueostomia do Henry e disse ao Rafael que o papai estava dormindo e não iria acordar nunca mais', lembra. O pai ficou cinco meses internado no hospital. Quando morreu, em 2001, vítima de tumor cerebral, Rafael tinha acabado de completar 2 anos. 'Não sabia o que dizer para uma criança tão pequena nem o que ele entendeu. Isso me angustiou', conta Lilian. É claro que os pequenos sentem falta. Mesmo o bebê Enzo reagiu à morte da mãe. Não pegava a mamadeira. Uma noite, Sichi teve uma idéia. Colocou um penhoar de Eugênia no peito, pegou o filho e ofereceu o leite. Ele aceitou. 'Enzo sentiu o cheiro dela e mamou.'

É comum a criança apresentar sintomas que vão além do choro e da tristeza. Pode fazer xixi na cama, ir mal nos estudos. Sentir culpa e até adoecer. Algumas ficam hiperativas ou sem apetite. Às vezes sentem raiva da pessoa que morreu, de Deus e de quem imaginam que poderia ter evitado a perda. A insegurança e o medo são os sentimentos predominantes. Desde a morte da mãe, Ítalo sofre toda vez que o pai vai trabalhar. Teme que o avião caia ou que Sichi bata o carro. O pequeno Rafael parou de ir à piscina um ano depois da morte do pai. A mãe descobriu que Henry dizia ao filho para só entrar na água com ele.

Além de especialistas, os pais podem buscar ajuda na escola. 'É importante professores e colegas darem atenção à criança. Ela sentirá que não está abandonada nem que a morte foi culpa dela', diz Fany Barocas, diretora do Colégio I.L. Peretz. A escola, porém, não deve entrar em detalhes religiosos para não se chocar com o que a família acredita. Se a criança questionar, sobre alma e Deus, os pais devem responder de acordo com sua fé. A recuperação é lenta e dolorosa. Em geral, leva dois anos até que a vida volte ao normal. Como os adultos, as crianças também conseguem superar a dor. Elas nunca se esquecem da pessoa que morreu? Não. Têm dois tipos de memória, a afetiva e a de percepção. Mesmo bebês que perderam a mãe, sabem de sua existência, por causa da memória afetiva, que é sempre reforçada por histórias familiares, fotografias e filmes. Crianças maiores guardam para sempre as cenas que viveram com a pessoa que morreu. Com o tempo, as lembranças vão se perdendo, mas a memória afetiva não se apaga. Aos poucos, todos começam a viver o que os especialistas chamam de luto saudável. 'Quando as pessoas percebem que conseguirão se relacionar sem sofrimento, tem-se um luto saudável', explica a psicóloga Maria Helena.

Perda de amiguinhos

E quando a vítima também é uma criança? Elas imaginam: 'Será que vai acontecer comigo também?' Giovanna Todescan, 7 anos, assistiu a quatro amigas serem soterradas por um muro que desabou, no ano passado. Elas brincavam no playground de um prédio e uma delas morreu no hospital. A mãe de Giovanna, Sueli, demorou 30 dias para dar a notícia. Durante esse tempo ficou muito angustiada. A filha perguntava sobre as amigas. 'Nunca imaginei que seria tão difícil pronunciar a palavra morreu', afirma. Contar foi um alívio. 'Achei que estava tudo resolvido.' Engano. No mesmo dia, ela viu a filha rezando 'para Deus trazer a Kimberly de volta'. Sueli percebeu que teria de se estender nesse assunto penoso. 'Filha, quando as pessoas morrem, não voltam. O corpo não funciona mais', disse. Giovanna perguntou sobre enterro e cemitério. 'Respondi. E com o tempo o assunto tem diminuído', diz ela. Durante um período, a menina ficou grudada na mãe. Sempre que Sueli saía ela pedia: 'Não vai, mãe. Fica comigo'.

Patrícia Cerqueira - Revista Crescer - nº. 113 - abril 2003