NO  REINO  DOS  PORQUÊS

Educador defende a curiosidade da criança como o melhor currículo de ensino para se

praticar em casa e na escola.

Mal o filho nasce e os pais já começam a se preocupar com seu futuro. Querem o melhor para ele em tudo: brinquedos, escola, professores, amizades. A melhor educação possível para que a criança se torne um adulto bem preparado para a vida. E onde está essa boa educação? "Na própria criança, na sua imensa curiosidade, no grande laboratório que é sua vida dentro de casa", diz o mineiro de Boa Esperança, Rubem Alves, 69 anos, pai de três filhos, pedagogo, doutor em filosofia, psicanalista, autor de livros infantis e de educação. Nesta entrevista a CRESCER, Rubem comenta idéias que estão em seu último livro, Conversas sobre Educação (Verus Editora, 2003). Mostra como os pais podem ser grandes mestres para seus filhos, sem se preocupar com teorias ou métodos pedagógicos. "Eles só precisam participar do mundo da criança, se interessar e responder às suas perguntas. Nessa convivência, sem hora para aprender, sem respostas certas, notas ou provas, está o melhor currículo da educação", resume Rubem.

Você critica a escola porque diz que ela se dedica ao ensino das respostas certas e isso é fatal para a curiosidade das crianças, justamente o que as motiva a aprender.

Como os pais podem aproveitar melhor essa curiosidade dos filhos?

Educar é provocar perguntas. São elas que desafiam a inteligência. Por 70 mil anos, antes de haver escolas, os pais ensinaram de forma competente seus filhos. E qual era o "programa"? A vida. Não havia prova nem notas. As situações vividas provocavam o aprendizado de forma natural. Agora, com a correria da vida moderna, os pais "terceirizaram" a educação. Contrataram as escolas para educar. Uma das minhas pacientes me dizia outro dia: "Eu não tenho tempo para educar a minha filha". E eu respondi: "Eu nunca eduquei os meus filhos". "Mas como?", ela perguntou admirada. "Eu só vivi com eles", respondi. Porque é nessa convivência que a criança faz perguntas e aprende o que interessa. Só a casa já é um imenso laboratório para ela.

De que forma?

Eu escrevi um artigo com o título Casas que emburrecem. A casa que emburrece é aquela toda certinha, em que tudo está no lugar, não tem fechadura para consertar e a criança não tem permissão para fazer suas explorações. Mas a casa que provoca a inteligência é cheia de tranqueiras, livros, revistas, ferramentas, jogos, quebra-cabeças, livros de arte, objetos inúteis que provocam a curiosidade da criança. Casa que é laboratório, em que a criança vai aprender sobre química na cozinha, por exemplo. Elas adoram cozinhar porque gostam de brincar com o fogo, e assim conhecem os alimentos e suas propriedades, podem viajar pelo mundo da culinária chinesa, italiana, francesa, pernambucana. Numa casa se estuda história, pois cada objeto tem uma história. Estuda-se biologia, porque a vida se encontra em todos os lugares, até nos fungos.

Mas tudo isso não exige mais tempo com os filhos?

Não é uma questão de tempo, mas de interesse. Os pais abandonaram o mundo das crianças. Perderam a capacidade de fazer perguntas, deixaram de se fascinar pelo que vêem. Chegam do trabalho cansados, vão assistir à TV e os filhos vão dormir e acabou. E com isso eles perdem os filhos. Num domingo, eu fui a um parque e vi uma cena que me deixou triste. Era um pai com uma filha. Ela estava no balanço e o pai a empurrava automaticamente com a mão esquerda e com a mão direita segurava o jornal que lia. Pensei: esse pobre diabo ainda vai se arrepender amargamente por ter considerado o jornal mais importante do que a filha. Um dia esse balanço vai estar vazio... São oportunidades como essa que os pais não devem deixar escapar. Nesses momentos é que podem surgir aquelas perguntas de criança: Por que a borboleta voa? Por que o céu é azul e não vermelho? Por que a água fervente amolece a cenoura e endurece o ovo? São coisas interessantes não só para a criança, para os adultos também.

Os pais têm que entrar na brincadeira?

A questão toda é que os pais deixaram de ser crianças. O que faz a criança não é tanto a brincadeira, é a curiosidade. Nietzsche, meu filósofo preferido, dizia que o mais alto grau de maturidade que um adulto pode atingir é quando ele recupera a seriedade que tinha ao brincar na infância. A brincadeira da criança é muito séria, assim como suas perguntas. E, se os pais não sabem resolvê-las, é uma maravilha dizerem: "Meu filho, não sabemos, mas vamos investigar". Assim a criança vai aprender que os pais não sabem tudo, mas que vão tratar de saber: "Nossa, mas como é que você faz essa pergunta? Que fantástico! Vamos tentar descobrir". Aí os pais vão ensinar para o filho a delícia que é pesquisar. Procurar nos livros, navegar na Internet para satisfazer uma curiosidade. Hoje os saberes se modificam rapidamente e o principal é saber pesquisar. Mas, para que tudo isso seja divertido, é absolutamente essencial que os pais se interessem pelas perguntas de seus filhos e que as crianças percebam que eles não são detentores da verdade. Assim podem ser amigos, compartilhar as descobertas.

Esse aprendizado não pode gerar conflitos com o que a criança aprende na escola?

O conflito faz parte do aprendizado. Vou dar um exemplo. Minha filha estava no primário - eu ainda falo primário, mas agora é ensino fundamental. Ela tinha dificuldades com um problema de matemática. Fui tentar ajudá-la e comecei a fazer um raciocínio diferente. Ela disse: "Não, papai, tem que ser do jeito da professora". Eu argumentei que há muitos caminhos para se chegar a um determinado lugar, mas ela insistia no caminho da professora. Estabeleceu-se um conflito. Não consegui ensinar a matemática. A professora triunfou, mas até hoje minha filha é ruim de matemática.

O que você aprendeu com essa experiência?

É o que estou sempre tentando transmitir aos pais e professores: que o aprendizado se revela na capacidade que tenho de fazer alguma coisa e não repetir respostas. Aprendi a fazer uma moqueca quando faço uma moqueca, aprendi a ler quando consigo ler. É uma competência ligada a uma necessidade da vida. Agora, esse saber que é pedido no vestibular não dá competência alguma.

Mas é o que ensina a escola...

Nesse assunto, já disse e vou repetir: Os pais, hipnotizados pelo vestibular, tornaram-se os maiores inimigos da educação. Só querem que os filhos passem no vestibular. Não querem saber o que aprendem. Pode imaginar um adolescente que vive em uma zona de violência tendo que aprender quais são as enzimas que entram na digestão? O que ele faz com isso? Perde o interesse em aprender e quer simplesmente o diploma. Outro dia eu via umas tirinhas do Calvin. O pai o repreendia por causa de suas notas baixas. "Você precisa estudar!", diz o pai. E Calvin: "Eu não quero estudar". "Mas você gosta tanto de ler sobre dinossauros", observa o pai. "É, eu gosto", diz Calvin. "E por que você não gosta de ler na escola?", pergunta o pai. "Porque lá não tem livro sobre dinossauro". É tão óbvio. Na escola não tem as coisas que interessam as crianças.

Por que a educação ficou assim?

Porque os adultos abandonaram o mundo das crianças. Aí tudo fica chato e elas começam a perder a curiosidade que motiva a aprender, o encantamento natural que têm com todas as coisas. Com a concha vazia do caramujo, a teia de aranha, o arco-íris. Dessas experiências da vida vem a curiosidade e o aprendizado. E ser curioso não tem fim. É uma coceira que dá na cabeça e faz a gente viajar em todas as direções.

Como saber se o filho está numa boa escola?

Para mim, só existe um critério: se a criança sente alegria em ir à escola, se sente saudade de lá. Porque aprender é muito divertido e é só com prazer que se aprende. Aprendizagem sofrida é logo esquecida.

Fernanda Portela - Revista Crescer - nº. 118 - setembro 2003