QUE  MAU  HUMOR

Seu filho anda mal-humorado e você acha que não há razão para tanta insatisfação? Você pensa: ele tem tudo, inclusive e principalmente carinho e atenção. Ledo engano. Todos nós temos o direito de bufar. As crianças também. A diferença é que elas não se aborrecem por causa do chefe, do trânsito pesado ou do calor insuportável. Tornam-se irritadiças com as várias mudanças impostas pelo crescimento, pelo desenvolvimento da personalidade e pela conquista da independência. É normal ficarem emburradas, entediadas, birrentas, rabugentas e negativas. Elas não sabem como agir nessas situações novas.

Toda mudança de fase desestabiliza a criança, seja aos 8 meses, aos 3 anos, aos 6 ou aos 12, porque ela entra em novo momento de conquistas. Por isso, costuma reagir de várias formas - com choro, manha ou birra - e intensidades. É o jeito que encontra para manifestar sua insatisfação. Ela não tem vocabulário nem experiência para explicar a confusão de sentimentos que está passando. 'Quando pergunto por que minha filha está assim, ela me beija, chora e pede desculpas', diz a pedagoga Cristina Tavares, 39 anos, surpreendida diariamente com o mau humor da filha, Paula, 5 anos. 'Já acorda brigando com o pai e comigo.'

Começa aos 3 anos

'O mau humor fica evidente a partir dos 3 anos, quando a personalidade da criança começa a se definir, e ela fica mais rebelde e os pais menos tolerantes', explica a psicanalista Isabel Kahn Marin, professora de educação infantil da Pontifícia Universidade Católica, a PUC, de São Paulo. Com essa idade, o filho quer se relacionar com outras pessoas, além do pai e da mãe. Pede para sair com o tio preferido ou passar a tarde na casa do amiguinho. Demonstra interesse por alguns familiares e pelos colegas da escola. É mais um passo em direção à independência. Só que, como ainda depende muito dos pais e quer ser o centro das atenções, vive um drama - num momento os quer, no outro não. 'Essa dúvida provoca sentimentos de impotência. Não é bobagem nem frescura. Os pais devem dar atenção, porque a criança precisa de carinho para se sentir segura', diz Isabel. A psicóloga Láercia Abreu Vasconcelos, do Instituto de Pedagogia da Universidade de Brasília (UnB), acrescenta que os acessos de mau humor são boas oportunidades para ensinar o filho a encontrar alternativas e superar frustrações. 'É cansativo, dá trabalho, mas faz parte da educação e do crescimento.'

Entre 5 e 7 anos

Mudanças de impacto ocorrem nessa fase. É um período conturbado, de alterações físicas, psíquicas e sociais. 'Todas ocorrem juntas', explica a psicóloga Glaura Fernandez. A mistura é explosiva: queda dos dentes, corpo desengonçado, tristeza pela perda da infância e conquista do último desafio rumo ao mundo adulto: ler e escrever. É um momento de mudanças tão profundas que os educadores chegam a defini-lo de 'adolescência da primeira infância'. O que torna o humor da criança instável é a dificuldade de se adaptar. Por isso, ela questiona tudo e dá palpites, principalmente quando se fala naquelas regras que devem ser cumpridas. Reclama quando elas se modificam. 'Ué, não podia. Por que agora pode?', diz a toda hora. Seu filho não gosta porque qualquer mudança gera mais dúvida para ele. Mas é assim que vai aprender a relativizar os fatos e as informações, a ter jogo de cintura.

A partir dos 8 anos

A rebeldia dos 3 anos volta à tona. Mas os ataques de mau humor parecem mais intensos para os pais. A criança espera ter todas as respostas, todos os desejos atendidos, toda a atenção do mundo. 'Não falei, não falei que você não me dá bola?', reclama Giordano Camilotti Lastoria, 8 anos, com a mãe, a professora universitária Virgínia Camilotti. A queixa aparece sempre quando ela quer fazer o jantar e ele, conversar. O menino acha que as duas atividades são incompatíveis. A mãe, na opinião dele, precisa sentar no sofá e ficar olhando para ele. Virgínia estranhou a rabugice. 'Pensava que era algo para a adolescência. Nossa, como cansa. Como é chato', admite a mãe, sem energia. Chato e longo. Esse período costuma durar até o fim da puberdade, por volta dos 12 anos para as meninas e 14 para os meninos. Elas terminam mais cedo, porque amadurem mais rápido. Eles, uns dois anos mais tarde.

Muita calma

'Os pais precisam ter paciência para ensinar, argumentar e perceber o que está ocorrendo', diz a psicóloga Laércia. Orientação difícil quando se passa o dia ouvindo 'não quero', 'não gosto', 'não vou', 'é porque você não gosta mais de mim'. A argumentação dos pais deve estar afinada e afiada porque qualquer motivo serve de pretexto para a criança explodir. Quando os ânimos se exaurem, e não há o que acalme o filho, o melhor é dar um basta. Dizer, por exemplo: 'Vamos parar com esse mau humor. Mude o disco, siga em frente', sugere a psicanalista Isabel. Não bata nem coloque de castigo. Isso só deixaria a criança magoada e mais revoltada.

Se a tensão subir muito em casa, a conversa com um profissional especializado em desenvolvimento infantil pode ajudar. Mas cuidado. 'Hoje é comum dizer que a criança é hiperativa ou deprimida', diz Laércia. Casos de mau humor que levam à depressão, melancolia ou agressividade são raros. Criança emburrada só deve ser motivo de preocupação quando esse estado a faz largar atividades que lhe dão prazer e isso se mantém por mais de seis meses. 'Em 90% dos casos, o mau humor tem origem num estresse escolar, como dificuldade de aprendizado ou de relacionamento. A criança não consegue resolver o problema sozinha por medo, vergonha ou porque não sabe mesmo' afirma José Belizário Filho, presidente da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil. 'É difícil virar adulto'.

Patrícia Cerqueira - Revista Crescer - nº 121 - dezembro 2003