O  QUE  SE  DEVE  ENSINAR  AOS  FILHOS

O Que Se Deve Ensinar aos Filhos devia virar livro de cabeceira de todos os pais que querem passar para seus  filhos um código de valores bacana de verdade.

Todo mundo sabe que educar os filhos é uma tarefa que se desenvolve em várias frentes. É preciso estar atento não só às suas necessidades, mas também àquilo que eles, por ser crianças, não reconhecem ainda como fundamental para a sua vida presente e futura. Na correria do mundo de hoje, porém, os pais muitas vezes acabam por se descuidar inadvertidamente de alguns aspectos da educação dos filhos. Na era da informação instantânea, que jorra sem parar dos meios de comunicação e da internet, é também comum que os pais se surpreendam com algumas das reações dos filhos e com seu nível de conhecimento em determinados assuntos. "Os pequenos estão cada dia mais sabidos!", espantam- se as avós. Sim, as crianças estão cada vez mais precoces, e é preciso estar preparado para isso. Mais do que nunca, é necessário estar atento a todos os aspectos da educação.

Para ajudar os pais nessa tarefa, a escritora e filósofa espanhola Victoria Camps, da Universidad Autónoma de Barcelona, acaba de lançar um livro útil e original: O que se deve ensinar aos filhos (Martins Fontes, 118 páginas). Cada um dos capítulos é dedicado a um valor a que se deve estar atento no cotidiano da educação das crianças - responsabilidade, respeito, liberdade e bom humor, por exemplo. Mas atenção: a obra não é um manual de auto-ajuda. Não dá fórmulas prontas para falar com os filhos sobre assuntos delicados ou lidar com situações difíceis. Em vez disso, Victoria convida os pais a refletir sobre esses valores e conceitos a partir do que nos ensina o bom senso, do que nos transmitem as experiências de gerações anteriores e, principalmente, dos desafios que surgem num mundo de mudanças rápidas e radicais. Só depois de convidar o leitor a pensar é que ela arrisca suas opiniões sobre cada tema.

No centro das reflexões propostas por Victoria Camps está a necessidade de os pais criarem condições para que as crianças descubram por si próprias o caminho que as levará à felicidade - que é complexo e diferente para cada ser humano. Como se sabe, muitos pais querem que seus filhos cresçam à sua imagem e semelhança. Outros esperam que os filhos sejam o que eles não conseguiram ser ou projetam neles próprios ideais. Deve-se evitar essas armadilhas, sugere a autora. É preciso permitir que desde cedo a criança faça suas descobertas e supere suas adversidades, que cultive virtudes, hábitos e relacionamentos que lhe garantam a auto-estima. Que pavimentem o caminho da própria independência futura. Evidentemente, como a criança ainda não é capaz de calcular, avaliar e escolher o que é melhor para si, como ela tende a optar pela satisfação imediata, para avançar nesse caminho precisa da ajuda decisiva e constante dos pais.

RESPEITO

"Ter autoridade e ser autoritário não é o mesmo, nem ambas as coisas deveriam produzir o mesmo respeito. Uma pessoa é autoritária se é despótica e só sabe fazer-se respeitar dando ordens e gritos. Uma pessoa tem autoridade se sabe fazer-se respeitar porque mostra coerência entre o que diz e o que faz, porque é crível, porque produz confiança e dá segurança."

Mas como devem agir os pais para facilitar o caminho dos filhos sem impor a eles sua personalidade e fantasias? Como fazer para que as crianças descubram por si mesmas as virtudes da vida? Um bom começo é saber equilibrar a disciplina e o companheirismo, exigir o cumprimento das necessárias normas de comportamento ao mesmo tempo que oferece apoio e compreensão. Vejamos, primeiro, o que a autora pensa sobre disciplina, regras e obediência.

Victoria constata que foi uma bênção nos livrarmos das sociedades estáticas e hierarquizadas de antigamente, mas enfatiza que é preciso conservar algumas lições do passado e adaptá-las ao nosso tempo. Os pais de hoje são mais liberais, mas isso não significa que devam relaxar na tarefa de ensinar aos filhos as normas de convivência em sociedade. Muitos jovens atualmente se cumprimentam com gestos esquisitos e usando gírias. Tudo bem - faz parte de seu código. Mas para chegar a ele, na infância eles tiveram que aprender a dizer "bom dia", "como vai?", "muito prazer" e outros cumprimentos formais herdados de gerações passadas. "Devem-se manter as formas - na gentileza, no respeito, na amabilidade - mesmo que as crianças as desenvolvam com conteúdos diferentes", explica a autora.

No capítulo sobre o respeito, por sinal, Victoria dá um bom exemplo de como adaptar as lições disciplinares do passado aos dias de hoje. Por definição, a palavra respeito quer dizer consideração, deferência por alguém. Ao longo do tempo, no entanto, ela passou a significar também receio, medo. Os pais precisam fazer com que esse sentido figurado de respeito não se estabeleça em suas relações com os filhos. Eles precisam ser respeitados por ser confiáveis e oferecer segurança, não por representar ameaça. Ao mesmo tempo, não convém que se dilua a imagem dos pais como autoridade constituída da família. "É preciso ensinar à criança o papel dos pais à custa de paciência, cuidados, conselhos, reprimendas, recompensas e carinho, a fim de que a distância entre pais e filhos não desapareça sob uma suposta - e amiúde falsa - camaradagem", escreve a autora.

AUTO-ESTIMA

"O fim último da educação é que a pessoa seja capaz de se desenvolver por si mesma sem muitas dificuldades e com o máximo de satisfações possível. Esse fim supõe algo fundamental, que é a auto-estima: ninguém se atreverá a viver por sua conta e risco se não amar a si mesmo, se carecer de confiança e de segurança em suas capacidades. A auto-estima é uma condição básica da vida digna."

No capítulo dedicado à obediência, Victoria reforça esse raciocínio. Ela observa que a obediência, por si só, não é um valor, e nem uma virtude. É apenas um mal necessário que deve ser superado assim que a criança adquire maior consciência sobre o mundo e seu funcionamento, assim que ela entenda que estudar, por exemplo, é um esforço que traz recompensas, e passe a fazê-lo não apenas por obediência aos pais e professores. Como adverte a autora, "É preciso ver na obediência um nível superável - permanecer nela é sinal de imaturidade".

Agora, o outro lado: como os pais, ao mesmo tempo que impõem a disciplina e a autoridade, podem oferecer o companheirismo, o apoio e a compreensão igualmente indispensáveis para que seus filhos tornem-se capazes de escolher seus caminhos? Como fazer para que as normas coercitivas sejam cada vez menos necessárias, substituídas pela consciência e pela responsabilidade à medida que a criança cresce? No capítulo dedicado à auto-estima, Victoria Camps faz uma observação valiosa nesse sentido. Desde bem pequena, a criança é alvo de elogios e reprimendas por parte dos pais.

Louva-se o que ela faz de bom e censura-se quando ela erra. Dessa forma, os pais são as referências mais próximas para a formação de sua identidade. É importante que, nesse processo, acima dos aplausos e censuras, eles demonstrem que aceitam plenamente a criança - só assim ela aceitará a si própria. "Um indivíduo não pode chegar a se amar se não se sente ao mesmo tempo querido pelos seus", ela escreve.

BOM HUMOR

"Por meio do riso, manifestam-se a sociabilidade humana, a simpatia, a generosidade, a amabilidade, a cumplicidade com os outros. Não perder o humor, apesar de todas as coisas más que nos ocorrem, é um sinal de inteligência. O bom humor é, além disso, uma característica da boa educação. As pessoas mal-humoradas são um incômodo para os outros. Mas, acima de tudo, o bom humor é um recurso para ajudar um indivíduo a superar as adversidades."

Uma ótima chance que os pais têm de demonstrar afeição e companheirismo por seus filhos, e de conquistar-lhes a confiança, costuma ser desperdiçada por muita gente. Ela ocorre quando as crianças demonstram emoções negativas - tristeza, aborrecimento, mau humor, raiva - e os adultos as ignoram ou desaprovam por achar que é "coisa de criança". Ou, pior ainda, as ridicularizam. "A infância está repleta de medos, de inseguranças, de apreensões", observa Victoria. "Deve-se estabelecer uma empatia com essas emoções negativas, demonstrar compreensão, desvelar suas causas", ela sugere.

Ao longo das páginas de O Que Se Deve Ensinar aos Filhos há dois tópicos a que a autora volta com insistência e ambos contêm advertências aos pais. O primeiro deles diz respeito aos riscos da superproteção. Muitos pais, por desejar dar ao filho tudo, que podem (e até o que não podem), acabam por entronizá-lo num trono de rei da casa, satisfazendo- lhe todos os desejos. É natural que todo pai queira ver o filho feliz com um brinquedo novo, ou que deseje evitar traumas e perturbações, mas o exagero é danoso à formação das crianças. Victoria vê nesse tipo de criação a raiz de um desvio que hoje atinge as sociedades de muitos países: os jovens apáticos, indolentes, a quem falta vontade e impulso. A autora se pergunta: "Se evitamos a todo custo que passem por traumas e sofram, de onde queremos que no futuro extraiam energias para enfrentar os desgostos, os fracassos, os golpes e as decepções?" A psicanalista de crianças e adolescentes Ana Olmos concorda, e adiciona: "Os pais que resolvem todos os apuros dos filhos acabam com seu desenvolvimento emocional e diminuem sua capacidade de pensar - eles ficam vulneráveis e se assustam até com as pequenas dificuldades".

O segundo alerta de Victoria diz respeito aos conceitos equivocados de sucesso e de felicidade que são despejados cotidianamente nas mentes infantis. O problema, segundo sua avaliação, começa com os estudos. Na sociedade dos adultos, hoje, a medida única do sucesso no trabalho é a remuneração.

LIBERDADE

"A liberdade não é a ausência de normas, mas a aceitação autônoma, livre, do que se deve fazer. Os pais de hoje têm de superar duas tentações que não ajudam a transmitir a idéia de liberdade. Em primeiro lugar, têm de evitar que a ânsia de proteger os filhos limite indevidamente a capacidade destes de aprender a tomar decisões e de fazer as coisas por sua conta. A outra tentação de nosso tempo é confundir a liberdade com o 'vale-tudo'."

O prazer que o trabalho proporciona e seu valor intrínseco fica em segundo plano. Esse padrão acaba sendo transferido para o rendimento escolar das crianças. "Fizemos do êxito a medida do valor do estudo", observa. "Êxito que pressupõe competitividade, desafio, luta para ser o primeiro, angústia, nervosismo e, afinal, infelicidade. Quem é capaz de sobreviver a essa corrida?" Todo pai quer que, no futuro, seu filho entre na universidade e seja um profissional competitivo. Mas seria a avaliação do boletim escolar, na infância, o melhor indicativo de que a criança está sendo preparada de forma adequada para o trabalho - e para ser feliz com ele? "Sei de escolas em São Paulo que inclusive promovem um clima de competição acirrada entre os alunos com relação às notas", comenta a psicanalista Ana Olmos. "O importante é conectar as crianças com o prazer de aprender, de adquirir conhecimento, e isso fica mais fácil se o pai servir como modelo", ela completa.

Victoria também chama a atenção para os padrões de felicidade veiculados pela televisão. Nela, os mais felizes são sempre os mais fortes, ricos e bonitos. "Orientar uma criança com relação à felicidade é habituá-la à moderação, a ser incrédula quanto aos modelos de felicidade oferecidos pela TV e pelo mercado", avalia. O capítulo mais controvertido do livro de Victoria Camps é certamente o que ela batiza de Filhos/Filhas. A autora sustenta que, embora a sociedade tenha avançado muito na equiparação dos sexos em termos de direitos e deveres, ainda há muito por fazer - e a jornada deve começar na infância. As meninas já conquistaram o direito a atividades antes exclusivas dos meninos - nos esportes, por exemplo.

GRATIDÃO

"A capacidade de sentir gratidão significa reconhecer algo muito importante: que não somos nós os causadores de nossas alegrias, que elas têm uma causa exterior a nós, que merece reconhecimento. Isso não é fácil, e menos ainda em nosso tempo. Esse reconhecimento que nós - todos os pais - gostaríamos de ver em nossos filhos é também fruto de uma aprendizagem longa e lenta. Uma aprendizagem que talvez consista em não dar coisas demais gratuitamente."

Chegou a hora, segundo ela, de os meninos começarem a ajudar nas tarefas ainda percebidas como território exclusivamente feminino, entre elas cozinhar, passar roupa e fazer compras para a casa. "Um dos problemas que o feminismo ainda não resolveu, como todas sabemos, é a distribuição do trabalho doméstico", escreve Victoria, defendendo a alteração desse modelo. Mesmo que ela tenha razão, certamente vai ser difícil explicar aos garotões de hoje que mandá-los passar roupa significa um avanço para a humanidade...

As melhores lições a se tirar da leitura de O que se deve ensinar aos filhos, afinal, talvez estejam em dois pequenos conselhos que perpassam o livro. São simples, antigos, mas nem sempre merecem a devida atenção dos pais. Primeiro: a melhor forma de ensinar é dar um bom exemplo aos filhos. Segundo: é preciso dedicar tempo a eles, estar disponível, acompanhá-los para conquistar sua confiança e, assim, poder transmitir-lhes o que se julga adequado. São conselhos que, merecidamente, atravessam gerações.

Okky  de  Souza - Revista Pais & Filhos