VIDA, SIM; DEPENDÊNCIA, NÃO!

Umas drogas são as "pesadas". Outras, as "leves". Tem "as legais e as proibidas por lei". Algumas são "ilícitas". Outras, "lícitas", e ainda outras "semi-lícitas", como o álcool. E, embora o "uso corrente associou a palavra àquelas que são objeto de tráfico ilegal", a Igreja Católica, na sua Campanha da fraternidade 2001, refere-se "às substâncias capazes de provocar alterações da percepção, do humor e das sensações" (cf. nº 8 e 16 do Texto base). Com toda essa "ambigüidade" assinalada, resta pano para mangas.

Uma delas, só pode ser manga estreita, do calibre da "tolerância zero". Larga será a outra. À campanha fraternal, quaresmal, católica, em cima de drogas, sabem as populações de qualquer periferia urbana que se sobrepõem, drásticas, permanentes campanhas sistemáticas de repressão com enfeites de assistência.

Assim, uma coisa é a convocação pastoral sob o lema - fácil, é bom que se diga - "Vida, sim; droga, não!". Outra, a convocação estruturada em políticas as mais diversificadas, sob a palavra de ordem do progresso, dos progressistas - "Viver a todo custo". Fiquemos com a primeira, mas alteremos radicalmente sua percepção da realidade: "Vida, sim; dependência, não!".

E se ela se espalha na ramificação dos campos de "ver - julgar - agir" em torno à árvore da droga, não é oportuno perguntar-se pela mata inteira? Para entrarmos nela, só municiados de outros jeitos, e menos correntes, no olhar, julgar, agir. Alguma dependência sócio-bioquímica na raiz desses dois enfrentamentos da droga? Dependências várias, também semicontrapostas - socioculturais, políticas e econômicas, com suas próprias e despóticas raízes e lógicas. "É um sonho - ouvimos das vítimas esperançosas -, mas... faltam condições..." - pessoais, sociais, históricas. Porque, "em todas as situações de dependência, é preciso ter presente o tripé 'pessoa/substância química/contexto sociocultural', para evitar simplificações" (nº 44).

Mas eis que resulta tão simplificadora a intuição popular, vivida, simples sabedoria crítica, sobre contextos históricos, multisseculares, da dependência em relação à nossa droga de cada dia, a que passa por bebida anti, ou menos, social:

Reserva um canto na pança

Para enchê-lo de cachaça,

Pois toda nossa esperança

Se encerra nesta desgraça

 

É essa mesma e é outra, reforçada, reeditada, a história da droga que engrenou nas entradas deste século 21 - pelo lançamento da narco-economia. Esta é galho importante, ainda que não único, de um sistema realmente complexo de negócios, interconectando redes mafiosas com espaços legais e até acima de qualquer suspeita. Por volta de 1995, a renda mundial desses negócios, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), era cerca de 1 trilhão de dólares. Subiu para quase 3 trilhões em 1997 e 4,5 trilhões em 2000...

Frente aos contextos pessoais, e mesmo socioculturais, da "árvore do bem e do mal" que alberga vítimas e assistentes sociais, voluntariados, políticas de saúde etc, claro está que essas dinheiramas nos introduzem em outra rede - a de malha grossa. Esta abrange, em torno ao tronco do narcotráfico, a compra-venda semi-legal de armas, a prostituição, as redes de "proteção" a grupos vulneráveis, sequestros, jogos semi-clandestinos, contrabandos, mercado negro (afrolatinos, perdoem!) de divisas; e as beiradas (pelo menos) de atividades tão legalmente prósperas como as indústrias e comércios do turismo, de remédios - doenças novas e novos remédios -, de transporte, dos setores imobiliários e da especulação financeira... Escuridão nestes baixos fundos e mundos da droga-máfia, mas que, por exemplo, arroja nas mãos da nova classe média milhões (cerca de 35, para ficarmos no caso brasileiro) de cartões de crédito: nosso dinheiro plástico semilíquido pela rede globalizada dos shoppings...

Tal história não pode descolar-se da geografia - em honra à citação que o Texto base católico faz de Milton Santos -, o que nos faz levantar olho, juízo e ação locais aos centros de difusão do "poder despótico da informação" (nº 77) e da (de)formação de amplos e pesados contextos socioculturais.

Nesse mapa, centros mundiais são uma coisa, periferias são outra: nas funções de produção, tráfico, consumo, controles, determinação e condicionamentos de usos e abusos das drogas das mais várias drogarias. Aqui, sim, as visões e as propagandas correntes enganam. Aqui, sem dúvida alguma, é aproveitada a dita combinação legal/ilegal da narco-economia política para incutir a imagem das outras máfias como originárias de países "subdesenvolvidos", dos antigamente comunistas, dos ditatoriais; máfias sempre "subversivas", sempre anticapitalistas, clandestinamente. O terror das periferias, narcotraficantes, é que ameaçaria a economia aberta, global, dos centros, do Grupo dos 7, que é obrigado a se defender com políticas antiterroristas... E também com políticas de ajuda aos dependentes de outras drogas.

Os Montesinos do Peru, Bolívia e Colômbia mal começam a perder máscaras - a própria, a dos Estados "democráticos", a dos padrinhos gringos, a dos mesmos Estados centrais - e deixar a descoberto a cabeça e o coração da economia da droga e do capital, radicados fundo nos países mais ricos. Estes albergam (ou mantêm acesso direto com) os bancos (filiais paraísos fiscais) que lavam e civilizam (?) narcodólares. Eles alimentam a ponta alta e o atacado da industrialização e do consumo das drogas mais caras, umas e outras. Tudo "corretamente". Pela mão de subalternos, se possível ligados com amigos latinos, árabes, russos, cúmplices todos, e todos oportunamente tirados de cena, cuspidos escarrados em condenação (a seu tempo) exemplar.

Na colagem de história e geografia, os jogos-narco das legalidades/ilegalidades ocupam hoje os primeiros planos da cena regional latino-americana. O cassino global monta e cobra suas políticas de segurança. Seguranças maiores, em todo caso, instaladas com particular descaro na região que vem dos Andes até a Bacia Amazônica, periferia-quintal dos Estados Unidos: Plano Colômbia. Entre fumaça de infernos e paraísos da coca, cá chega neste começo de novo século a intervenção humanitária: em 2000, o governo norte-americano despejou na mão do exército colombiano a primeira parcela do maior arsenal de armas e instrutores militares visto no continente. Nesse Plano começam a se alocar, multilateralmente, 7,5 bilhões de dólares: 3,5 bilhões pelos Estados Unidos da América e Europa; o resto pelo Banco Mundial, ONGs e pelo próprio governo colombiano, sendo que 70% desse total destinado a armamentos. Limpos - com o pretexto do combate às drogas.

Tem, contudo, a vírgula da guerrilha... casual(causal)mente. A "guerrilha" (em torno às Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colômbia - FARC) nasceu meio século atrás, veio crescendo até conviver no meio de centenas de comunidades rurais, algumas das quais enculturadas milenarmente na coca. Nas décadas da Guerra Fria, lá se implantaram projetos de ajuda, revoluções verdes, reforma agrária... De repente, combate à pobreza, agricultura sustentável, preservação ambiental e proteção aos indígenas foram agora decretadas ineficientes políticas sociais, e postergadas na agenda de prioridade às seguranças internacionais (?), aos militares outros (os paramilitares) que se sabe envolvidos no narcotráfico. Em contrapartida, 500.000 moradores dessas regiões ficam, pelo mesmo decreto, e para os devidos efeitos, declarados ilegais até provarem o contrário. A voz das armas começa a sufocar qualquer diálogo.

Essas intervenções - guerra de baixa intensidade - são consideradas tópicas, cirurgias pontuais. Elas, com as políticas socioculturais de segurança, penetram as centenas de favelas (e seus subcentros) do Rio de Janeiro e de São Paulo, flexíveis, das metrópoles aos espaços novos, Amazônia adentro, Bolívia, Peru, Equador... E carregam junto as terapias, prevenções, ajustes, bagagens "culturais". Estas são as outras armas, embora não menos perigosas: armadilhas. Cuidam essas forças do novo império, dizemos, da nova governabilidade, de não se perder nas fluidas fronteiras centros-periferias: orientam-se pelo painel geral de monitoramento civilizador centralizado. É a ética, selo-ápice do mercado global em construção, que sintetiza o quadro todo dos indicadores. Os núcleos dirigentes, com sua rede de universidades, observatórios da cidadania, selos e sigilos, investem-se de tutores dos direitos human(itári)os: repartem os pedaços de céu e inferno, de sonhos e pesadelos, corta e mata cá, cura e aconchega lá. Obrigadas?

É tão difícil exagerar os sintomas como sugerir as saídas. E para que as saídas? Porque, nesta campanha maior, o consenso é que a história mesma parou - tem atrevidos outros querendo dizer que foi parada, contida -, em particular nos pontos nevrálgicos em que ela estoura, segundo os indícios mencionados. O presente - ou, então, a presentificação virtual - das experiências tenta ser congelado, fluidamente condensado, pelos poderes do status quo. Toleram-se, e até se promove, "viagens": alucinações, transes, decolagens e pousos leves. Talvez, anualmente, até os Portos Alegres, disciplinadamente. Nenhuma outra esperança resta, nesse consenso, aos que entrarem nas redes Shopping: Saramago as considera atualizada Caverna de Platão. Fechou o ciclo da história ocidental. Chegamos. "Não precisa nem pensar que vamos a lugar nenhum", dizem alguns observadores do atual fenômeno cultural(ista?). Drogaria central.

Conclusão: certas drogas farão narcodependentes que exigirão curas médicas, tratamentos pessoais, psicossociais. Achamos que isso, sendo necessário, conveniente, será cada vez mais insuficiente. Assistimos já à proliferação dos curandeirismos, dos "curadores" (função jurídica institucionalizada para casos semelhantes) de massas falidas, menores, órfãos, grupos vulneráveis... Donde vem a outra conclusão, prioritária, porque preventiva e social: não há propriamente grupos narcodependentes, "drug addict". Assim como não existem grupos pobres, senão apenas populações empobrecidas. Em escala maior, só existem os "drug addicted": gente dependizada, nas escravidões, colônias, penhores. E os recolonizadores recentes pousaram, completa conexão a leves cliques. Na renovada divisão do trabalho social entre a Cruz Vermelha e a Contra-insurgência, entre os ajustes fortes (econômicos e militares) e os reajustes maneiros (culturais, religiosos, festivos...), cruz e espada refundidas. É frente a isso que novas cores, tons e gestos poderão acompanhar o lema de independência ou morte, dizemos, de "Vida, sim; dependência, não!".

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