TABAGISMO  E TRANSTORNOS  PSIQUIÁTRICOS:

um estudo de comorbidades

Estudos clínicos e epidemiológicos têm mostrado uma correlação positiva entre o tabagismo e transtornos psiquiátricos.

O tabagismo tem sido identificado como a mais importante causa previnível de morte ou doenças no mundo. Somente nos Estados Unidos, o tabagismo é responsável por aproximadamente 20% de todas as mortes, estimando-se que 45% dos fumantes vão morrer por alguma doença induzida pelo tabaco.

O tabaco é causa de doenças clínicas graves como câncer do pulmão e doença pulmonar obstrutiva crônica, além do tabagismo passivo ser responsável pela morte de milhares de não fumantes e pelo aparecimento de doenças respiratórias em crianças e outros familiares de tabagistas.

A cessação deste hábito reduz dramaticamente o risco de doenças cardíacas e câncer e previne a evolução da doença pulmonar obstrutiva crônica.

Embora alguns estudos demonstrem um declínio significativo no número de tabagistas nos EUA, outros mostram uma freqüência maior de tabagistas em pacientes com transtornos psiquiátricos quando comparados a grupos controles.

 

Os preditores psiquiátricos para que muitos indivíduos iniciem o consumo de tabaco são:

 

  • Uso e abuso de álcool e outras drogas

  • Transtorno depressivo maior

  • Transtornos ansiosos

  • Déficit de atenção e hiperatividade

  • Bulimia e compulsão alimentar

     

    A influência do tabagismo em pacientes psiquiátricos tem implicações clínicas, o tabagismo parece melhorar a cognição, o humor e a ansiedade por uma multiplicidade de efeitos reforçadores e a abstinência de nicotina pode exacerbar todos estes sintomas. A abstinência nicotínica também pode agravar alguns transtornos psiquiátricos, levar à recaída e aumentar os níveis sangüíneos de muitos medicamentos.

    A maioria dos tabagistas apresenta inúmeras tentativas fracassadas de parar de fumar e tabagistas com história atual ou passada de transtornos depressivos e ansiosos são ainda menos propensos a parar de fumar.

    Além da conhecida relação entre o tabagismo e o transtorno depressivo que parece levar a uma continuação do hábito de fumar, estudos recentes demonstraram uma forte relação entre transtornos ansiosos e tabagismo, e uma considerável relação causal entre o tabagismo e o primeiro ataque de pânico.

    Os autores deste estudo investigaram a prevalência do tabagismo em uma amostra de indivíduos depressivos e ansiosos com o objetivo de comparar, nestes grupos, a freqüência do tabagismo, o consumo diário de cigarros, tentativas em parar de fumar, a freqüência da síndrome de abstinência de nicotina e a influência da nicotina em sintomas ansiosos ou depressivos.

    Método

    Para se investigar a prevalência de tabagistas, 277 pacientes com transtornos depressivos e ansiosos responderam um questionário auto aplicável sobre tabagismo e foram comparados a 68 sujeitos controles, ou seja, sem antecedentes de transtornos ansiosos ou depressivos.

    O critério de inclusão no estudo foi: homens e mulheres com mais de 18 anos com diagnóstico atual de transtorno depressivo ou ansioso. Estes foram agrupados em cinco grupos: indivíduos com transtorno depressivo, com transtorno do pânico, fobia social, com outros transtornos de ansiedade e com comorbidade ansiosa e depressiva.

    O diagnóstico psiquiátrico foi obtido pela aplicação do SCID que é uma entrevista clínica estruturada aplicada por clínicos e além disto todos os participantes responderam um questionário sobre tabagismo contento 16 itens.

    Resultados

    Os resultados encontrados foram: 30.2% (n=79) dos indivíduos receberam diagnóstico de transtorno depressivo, 23,3% (n=61) de transtorno do pânico, 15,6% (n=41) de fobia social, 7,3% (n=19) apresentaram outros transtornos de ansiedade e 23,7% (n=62) com comorbidade para transtornos depressivos e ansiosos.

    Dentre estes grupos, 26,3% (n=69) eram tabagistas, 23,7% eram ex-tabagistas e 50 % (n=131) nunca fumaram. A correlação entre as 5 categorias diagnósticas e o hábito de fumar encontra-se na tabela 1.

    A prevalência de dependência de nicotina entre os fumantes foi de 59%. Não houve diferença entre a freqüência de cigarros fumados entre as cinco categorias diagnósticas encontradas.
    Os indivíduos com fobia social foram os que tiveram maiores índices de tabagismo (75%), com maior insucesso em parar de fumar (89%).

    A freqüência de ex-fumantes foi significativamente maior entre os indivíduos mais velhos e a categoria de "não fumantes" foi maior entre os jovens.

    Tabela 1

    Tabagismo entre as 5 categorias diagnósticas.

    Transtorno

    Depressivo

    N(%)

    Transtorno

    do Pânico

    N(%)

    Fobia

    Social

    N(%)

    Outros

    t. ansiosos

    N(%)

    Comorbidades
    N(%)

    Tabagistas

    22(28)

    18(30)

    12(29)

    04(21)

    13(21)

    Ex-tabagistas

    16(20)

    16(26)

    09(22)

    29(11)

    19(31)

    Não fumantes

    41(52)

    27(44)

    20(49)

    13(68)

    29(48)

    Discussão

    A freqüência de tabagismo encontrada na amostra deste estudo não diferiu da encontrada na população em geral.

    A baixa diferença estatística entre fumantes e pacientes com transtornos depressivos e ansiosos contradiz os achados de Breslau e colaboradores que mostrou que tabagistas com transtorno depressivo foram três vezes mais propensos a continuar fumando do que tabagistas sem história de depressão.

    Sonntag e colaboradores, em um estudo prospectivo de 4 anos, investigou as associações entre transtornos ansiosos e tabagismo a fim de verificar se a fobia social levava ao uso do tabaco e ao desenvolvimento de dependência de nicotina. Verificou-se que a fobia social esteva importantemente associada à dependência de nicotina.

    O tabagismo tem sido relacionado a um aumento da atividade dopaminérgica em regiões cerebrais específicas enquanto que a fobia social tem sido associada a uma diminuição de receptores dopaminérgicos D2, ou seja, a nicotina estaria compensando esta diminuição de receptores.

    Este estudo não apresentou diferenças estatísticas com relação a gravidade de sintomas de abstinência da nicotina entre os diferentes grupos. Segundo os autores, era de se esperar que indivíduos com transtorno do pânico tivessem mais sintomas de abstinência de nicotina explicado pelo modelo cognitivo do pânico em que os sintomas de abstinência de nicotina são semelhantes aos sintomas do pânico (ansiedade, taquicardia, instabilidade). Devido a isto, as interpretações catastróficas das sensações físicas geradas durante a fase da abstinência teriam papel fundamental no desencadeamento de ataques de pânico.

    O grupo de indivíduos com transtorno do pânico foi o que mais teve "ex-fumantes" e um menor número de tentativas fracassadas em parar de fumar diferentemente do grupo de indivíduos com fobia social. Este estudo não encontrou diferenças significativas para o tabagismo entre pacientes com transtornos ansiosos, depressivos, com comorbidades e o grupo controle.

    Vale ressaltar que os autores apontaram como limitações do estudo o fato da amostra estuda ter sido pequena e as desvantagens do estudo retrospectivo em termos de verificação de sintomas de abstinência de nicotina.

    Os autores também ponderaram o fato dos tabagistas parecerem exagerar seus sintomas de abstinência para justificar seus fracassos em parar de fumar.

    Brazilian Journal of Medical and Biological Research (2002) 35: 961-967